Vai encarar

O tratamento dos EUA para com a China tem sido bastante diferente do dispensado ao resto do mundo. Os motivos para isso certamente não são os belos olhos puxados de sua enorme população

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O tratamento dos EUA para com a China tem sido bastante diferente do dispensado ao resto do mundo. Os motivos para isso certamente não são os belos olhos puxados de sua enorme população

Por Frédi Vasconcelos

Cena um: em 1º de abril deste ano, o avião de espionagem EP-3F da Força Aérea dos Estados Unidos faz pouso forçado em território chinês, na base militar da Ilha de Hainan, após chocar-se com um caça. O presidente americano recém-empossado, George Walker Bush, no melhor estilo caubói, “exige” que a China devolva a tripulação de 24 pessoas e a aeronave (sem que nenhum chinês entre nela “para espionar”) em poucas horas.
Os americanos foram repatriados onze dias depois, após negociações diplomáticas que levaram os EUA a soltar nota oficial lamentando a morte do piloto chinês. O avião só foi devolvido em 5 de julho, em pedaços. No dia seguinte, os chineses ainda apresentaram uma conta de 1 milhão de dólares pelos gastos.

Cena 2: Em 19 de julho, a Câmara dos Deputados americana aprovou por esmagadora maioria proposta do mesmo presidente George Walker Bush para que as relações comerciais com a China continuem “sem alterações”, apesar dos recentes conflitos. “Nós temos muito a perder e pouco a ganhar caso não continuemos a nos relacionar com a China”, afirmou o deputado Jim Moran à agência Reuters. Tanto pragmatismo tem explicação. Apesar da humilhação militar, a importância econômica da China hoje é tão gigantesca quanto população, território e poderio militar.

Desde que começou com suas reformas, em 1978, o país vermelho foi o que mais cresceu no mundo. O Produto Interno Bruto (PIB) aumentou 10,1% ao ano na década 80-90 e 10,7% entre 90-99. Como comparação, nos mesmos períodos o PIB dos norte-americanos cresceu 3,6% ao ano (80-90) e 3,3% (90-99). O do Brasil não passou de 2,7% e 3,0%, respectivamente. Os dados são do Banco Mundial.

No final da década de 90, porém, os chineses pisaram um pouco no freio, passando para taxas de cerca de 7% ao ano, ainda acima de qualquer outro país. E essa é a meta a ser mantida no plano quinqüenal 2001-2005. Para ter idéia do que isso representa, mantidos os percentuais atuais de desenvolvimento dos dois países, entre 2015 e 2020 a China passaria a ter o mesmo tamanho da economia dos norte-americanos.

Claro que a diferença da renda por pessoa manteria-se enorme. Com seu 1,3 bilhão de chineses e PIB na casa do 1 trilhão de dólares, o antigo “império do meio” tem renda percapta anual na casa de 800 dólares, abaixo até mesmo de países em desenvolvimento. Mas, há um detalhe: a diferença entre renda nominal e real. Wladimir Pomar, escritor do livro O Enigma Chinês – Capitalismo ou Socialismo, lembra que por causa da China foi criada uma nova metodologia de cálculo do PIB, levando em consideração o poder de compra, pois é muito diferente receber 100 dólares nos Estados Unidos e o mesmo valor na China, onde salários nominais baixos têm alto poder de compra, até por causa dos subsídios em itens essenciais. “Mas mesmo os rendimentos nominais estão subindo e devem ficar cada vez mais próximos do nível internacional”, diz Wladimir.

O autor é também estudioso do processo de reformas econômicas pelo qual passou o país e impulsionou o desenvolvimento. Explica que, ao contrário do que disseram e dizem eufóricas manchetes do noticiário internacional, que a China estaria “retornando ao capitalismo”, o que existe atualmente é a reafirmação do caminho socialista conjugado com reformas capitalistas.

A agricultura, por exemplo, mesmo com a existência de grandes corporações, ainda é baseada na produção familiar. As terras pertencem ao Estado, são gerenciadas por cooperativas e repassadas às famílias, que se comprometem a produzir certa quantidade e obrigatoriamente vendê-la ao Estado, a preços competitivos. O excedente pode ser comercializado com quem e por quanto quiserem. Apurado lucro é possível comprar bens de consumo, como automóveis. Há também a abertura para que os chineses sejam donos de pequenos negócios e empresas estrangeiras possam montar fábricas ou explorar determinadas atividades.

O balde de água fria no “retorno ao capitalismo” é que em setores estratégicos, como indústria de base, telecomunicações, alta tecnologia (incluindo a aerospacial), os chineses não aceitam que ninguém ponha a mão. “A lógica das reformas é que não é preciso controlar tudo, mas apenas os elos-chaves”, resume Wladimir.

O outro lado do crescimento. Se o crescimento do PIB assombrou o mundo nas últimas décadas, a participação dos chineses no comércio mundial também assustou. Em 1980, exportavam 18 bilhões de dólares. Em 2000, atingiram 249 bilhões, multiplicando por treze suas vendas ao exterior. Em 1980, o Brasil vendia cerca de 20 bilhões de dólares. Chegou a 2000 com apenas 55 bilhões. Mesmo os Estados Unidos não conseguem acompanhar o crescimento dos chineses na guerra do comércio. Em 1980, vendiam 225 bilhões de dólares, o que chegou a 782 bilhões no ano passado, crescimento de duas vezes e meia em vinte anos, segundo dados da Organização Mundial do Comércio (OMC).

A diferença poderia ser maior ainda se desde a crise da Ásia a China não tivesse mudado a estratégia econômica. Antes baseada nas exportações de bens de consumo a baixíssimos preços, como artigos para cozinha, roupas, ferramentas, no primeiro semestre deste ano o mercado interno foi responsável por 93% do crescimento do PIB.

Com uma estratégia ou outra, o que vem mudando sistematicamente é o nível de renda (nominal). Dados do Banco Mundial mostram que, em 1980, 80% da população chinesa vivia abaixo da linha de pobreza, com menos de 1 dólar por dia. Em 1998, o número baixou para cerca de 12%. É de olho nesse aumento de renda que podem ser vistos os verdadeiros motivos americanos para tanto pragmatismo com a China. Seus empresários querem ter acesso ao maior mercado consumidor do mundo, que pretendem aberto com a entrada do país na OMC no final deste ano ou no começo do próximo. Por conta, estão despejando bilhões de dólares no país que (ao contrário de outras nações em desenvolvimento) vem recebendo cada vez mais dinheiro, mesmo sem seguir as regras do FMI.

O risco para tanto interesse, porém, é grande. Pois se cobiçam o mercado e querem ganhar dinheiro com a China, os americanos, desde a posse de Bush, mudaram sua orientação política e pretendem investir em “defesa”, como, por exemplo, no escudo antimísseis, contrariando o Tratado Antibalístico assinado com a Rússia em 1972. Essa pode ser a senha para uma nova corrida armamentista digna da Guerra Fria. Não é à toa que em 16 de julho deste ano o presidente chinês, Jiang Zemin, visitou a Rússia, onde assinou um tratado de Boa Vizinhança, Amizade e Cooperação com seu colega Vladimir Putin. Os dois também deram declarações contrárias à pretensão norte-americana de expandir a Otan, aliança militar que lideram, para países da Europa Oriental.

Sobre o “tratado de amizade”, o porta-voz do departamento de Estado dos EUA, Richard Boucher, declarou à época a agências internacionais que o texto “é um tratado de amizade, não uma aliança” e não contém cláusulas de “defesa mútua ou nada do gênero”. Pode até ser verdade, mas será muito bom, para o mundo todo, que o caubói George Walker Bush não pague para ver.



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