A história da doce mídia

O que você leu, assistiu e ouviu nessas eleições presidenciais em relação a Lula e ao PT não pode nem de longe ser comparado com a pauta das eleições anteriores. Isso não foi à...

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O que você leu, assistiu e ouviu nessas eleições presidenciais em relação a Lula e ao PT não pode nem de longe ser comparado com a pauta das eleições anteriores. Isso não foi à toa

Por Glauco Faria

 

Início de 2001. Sentados a uma mesa na sede da Rede Globo, no Rio de Janeiro, os empresários José Roberto e João Roberto Marinho e o diretor da central de jornalismo da emissora, Carlos Henrique Schröder. Com eles, o virtual candidato à Presidência da República pelo PT, Luiz Inácio Lula da Silva, o então presidente do partido, José Dirceu, e os assessores Ricardo Kotscho e Carlos Tibúrcio. A conversa se desenrola num clima amistoso. A certa altura, um dos presentes deixa escapar profética avaliação: “Lula, nunca as chances de você ser eleito presidente foram tão grandes”.
A iniciativa da conversa partiu do próprio clã Marinho, no que seria o primeiro de uma série de três encontros. No decorrer daquele ano e de 2002, outros empresários de comunicação seguiriam o exemplo. Gente como Silvio Santos (SBT), os membros da família Saad (Bandeirantes) e da família Sirotsky (RBS), entre inúmeros outros donos de jornais, emissoras de tevê e rádio. Da parte do PT, havia o interesse de evitar que o filme de outras eleições, como a de 1989, fosse reprisado. Era preciso evitar que a maior parte da mídia jogasse seu peso contra Lula. E o recado do petista, dado na primeira reunião com os homens fortes da Globo, foi o mesmo aos demais. “Não queremos que vocês nos apóiem, mas sim um tratamento ético, equilibrado. Mas quem der golpes abaixo da cintura vai ser tratado da mesma forma. Em caso de vitória ou derrota.”
À época, um cenário começava a ser delineado, e nele Lula tinha amplas possibilidades de ser eleito. Isso por si só fazia com que os grandes manda-chuvas da comunicação o encarassem com outros olhos. O staff de Lula sabia que aquele era o momento certo de abandonar definitivamente a postura passiva e abrir canais de conversação com a mídia.
“Na verdade, o projeto de comunicação do Lula começou a ser construído há três anos. Nessa época, percebeu que era preciso mudar sua relação com a imprensa”, revela Carlos Tibúrcio, um dos coordenadores de imprensa da campanha do presidente eleito. O primeiro passo foi convencer o professor da Escola de Comunicações e Artes da USP Bernardo Kucinski a comandar uma reduzida equipe que, por meio do Instituto Cidadania, começaria a trabalhar melhor a ponte entre Lula e a mídia.
O desafio primordial era vencer a barreira do preconceito tanto em relação a Lula quanto ao PT. Uma das estratégias utilizadas foi combater visão muito corrente na imprensa, a de que o partido é bom de crítica, mas não de governo. O PT teria de ser mais propositivo. A partir daí, o caminho adotado foi de levar à mídia, à exaustão, uma avalanche de propostas, como o Fome Zero, lançado em 2001, ou o Plano de Segurança. “As propostas do Instituto Cidadania eram de políticas públicas e foram construídas longe do período eleitoral, e poderiam ser implementadas independentemente da vitória do Lula”, pontua Tibúrcio.
Outro problema dizia respeito à forma de ser de Lula, o que fazia com que os jornalistas em geral tratassem o petista com intimidade exagerada. “Confundiam a simplicidade e a cordialidade dele com desrespeito. A forma de perguntar muitas vezes irritava o Lula e é claro que ele percebia que o problema era com sua figura, já que o mesmo jornalista tinha postura diferente com outros políticos”, recorda Tibúrcio. A solução foi formalizar essa relação, dificultando o contato físico com o candidato, que até então era algo fácil.
Em paralelo a essas medidas mais simples, os encontros com os donos de veículos de comunicação estabeleciam canais com setores que não dialogavam com o PT. Quem acha que o tratamento amistoso entre a Globo e a cúpula lulista nasceu após o segundo turno desconhece alguns fatos que já indicavam a aproximação. No lançamento do programa Fome Zero, o Instituto Cidadania pediu à Rede Globo autorização para usar trechos de uma série de reportagens sobre a fome exibida no Jornal Nacional. Contrariando o comportamento padrão, a emissora cedeu, além de ter dado ampla co- bertura ao lançamento do programa em seus telejornais. Outro momento emblemático foi o da visita de Lula ao então candidato do Partido Socialista francês à presidência, Lionel Jospin. A Globo mandou seu correspondente de Londres para Paris e o petista ganhou quase 5 minutos no Jornal Nacional.

Mais companheira
“O povo admite, entende, que um jornal, um canal de televisão, uma revista, editorialmente diga �apóio fulano de tal�. Mas na cobertura tem de haver honestidade (…) A imprensa sabe que se fizer um jogo errado pode perder, e perder muito. Acho que a imprensa vai dar, ainda mais nesta reta final, a cobertura mais saudável que já deu em qualquer outro momento da história política brasileira”. Essa declaração de Lula, na edição de 20 de outubro da revista Carta Capital, mostrava total segurança de que os golpes baixos ocorridos em outras eleições não iriam se repetir.
A certeza do petista encontrava eco numa entrevista dada pelo empresário Antônio Ermírio de Morais na Folha de S.Paulo de 26 de setembro. “A saída do ex-presidente da Petrobras Philippe Reichstul da Globo é um mau sintoma para a campanha do Serra. Desmontou a máquina. Eu entendi que estava montado um esquema macro de apoio a Serra. O ex-presidente da Petrobras é amigo íntimo do Serra. É muito difícil o Serra se eleger. Com a saída de Reichstul da TV Globo, Serra perde um parceiro importante.”
A cândida sinceridade do dono da Votorantim deixava claro que as coisas não seriam fáceis para o governo. “Não havia esquema para eleger o Serra. Se houvesse, seria preciso um jogo bem mais bruto do que foi com o Collor e a sociedade não tem mais espaço para isso”, analisa Tibúrcio. Esse amadurecimento do eleitor brasileiro seria um dos fatores que teriam forçado a imprensa a um comportamento menos parcial do que em outras eleições.
“A sociedade não aceitaria a manipulação feita em 1989. Desde então, as pessoas perceberam o que a imprensa era capaz de fazer e aquele episódio, assim como todo o governo Collor, foi um enorme aprendizado para o brasileiro”, acredita Marcus Figueiredo, coordenador do Doxa – Laboratório de Pesquisas em Comunicação Política e Opinião Pública do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj).
O Doxa fez a avaliação da cobertura das eleições presidenciais de sete dos mais importantes jornais brasileiros, classificando as matérias relativas aos candidatos a presidente como negativas, neutras e positivas.
De acordo com a pesquisa, mesmo num jornal como o Estado de S. Paulo, que apoiou em editorial o candidato do governo, o noticiário mostrou certo equilíbrio. “Houve uma �despartidarização� dos meios de comunicação. O que não mudou foi a forma como a mídia enquadra o processo eleitoral, já que a posição dos candidatos nas pesquisas eleitorais acabou pautando a cobertura”, explica Figueiredo. De acordo com essa visão, a imprensa em geral buscou a isenção na cobertura também por uma questão de mercado. A maior concorrência entre os veículos faz com que eles vejam na imparcialidade uma forma de credenciar comercialmente seu jornalismo. Isso teria influenciado, por exemplo, a radical mudança de postura da Rede Globo. “No caso específico da Globo, a diferença foi da água para o vinho. Nas eleições anteriores, era clara a preferência pelos candidatos de centro e centrodireita, mas este ano foi diferente. A questão mercadológica foi importante já que o Jornal Nacional não possui mais hegemonia, saiu do patamar de 70% para aproximadamente 40% da audiência”, esclarece Figueiredo. “A cobertura foi boa, os quatro presidenciáveis tiveram o mesmo espaço e o comportamento dos âncoras nas entrevistas foi semelhante com todos os disputantes”, completa.

Pires na mão
Se a imprensa desta vez não deu muito trabalho ao candidato do PT, essa fatura deve ser cobrada a partir de agora. Vários gigantes da comunicação estão em dificuldades e sua salvação passa necessariamente pelo Congresso e pelo Palácio do Planalto. “A diferença fundamental dessa para outras eleições é que vivemos um grande momento de crise financeira na mídia, e isso repercutiu na cobertura eleitoral”, garante o pesquisador Venício de Lima, autor do livro Mídia – Teoria e Política (Fundação Perseu Abramo).
Uma das possíveis saídas para tirar do sufoco os grandes da mídia seria a aprovação da Medida Provisória nº 70, que regulamenta uma Emenda Constitucional que permite a participação de capital estrangeiro, até o limite de 30%, nas emissoras de televisão e rádio do Brasil e nas empresas de mídia impressa. Além disso, a MP permite que os fundos de pensão possam participar da capitalização dessas empresas.
A conduta do PT em relação à edição da medida provisória deixa clara uma tentativa de entendimento com parte das empresas de comunicação do país. Após a publicação no Diário Oficial, o deputado petista Walter Pinheiro ameaçou entrar com ação direta de inconstitucionalidade no STF contra a MP, acusando o governo de querer agradar os grupos de comunicação às vésperas da eleição. Entretanto, dentro do próprio partido, Pinheiro não encontrou respaldo e a idéia da ação no Supremo foi rejeitada pela cúpula petista, que preferiu pôr panos quentes e adiar a discussão.
Essa será uma das principais pautas do governo Lula na área da comunicação, e a expectativa em relação à sua orientação ainda não ficou clara. “Se por um lado o PT participou da negociação que resultou na aprovação da emenda, derrubando a barreira constitucional existente, por outro seria particularmente complicado para o partido aceitar o �sinistro expediente� autoritário da medida provisória para regulamentação da emenda”, aponta Carly Aguiar, especialista em estudos da comunicação da Universidade Estadual de Londrina. Mas, se pairam dúvidas sobre a futura atuação do PT, sinal positivo foi o fato de os deputados Walter Pinheiro e Luciano Zica, do partido, terem conseguido a supressão do artigo 9º da MP, que possibilitava a uma empresa estrangeira participar de várias emissoras até o limite de 19,9%.
E se a idéia dos caciques petistas na área da comunicação assemelhar-se ao pacto social encaminhado na área industrial, terão que conversar muito com os media. “Na prática, há poucas possibilidades de manobras no Parlamento para contornar este que, talvez, tenha sido o derradeiro ato de imperialismo de aniquilamento da função legislativa cometido pelo governo FHC, devido aos desdobramentos que a MP gera em termos de expectativas e ações empresariais que já estão em curso”, ressalta Carly.
Mas seria a participação do capital estrangeiro uma salvação para a nossa combalida mídia? Longe de qualquer tipo de nacionalismo tacanho, muitos riscos devem ser levados em conta. Países como Suíça e Canadá possuem legislação semelhante à que o Brasil tem hoje, e mesmo aqueles que são mais liberais a respeito guardam alguns cuidados. “Os países que permitem a participação de capital estrangeiro possuem uma série de salvaguardas que asseguram limitações à atuação desse capital, principalmente no que toca à interferência na linha editorial. No caso do Brasil, isso não existe”, pontua Venício de Lima.
Enquanto isso, as mudanças legislativas que permitem a entrada do dinheiro “globalizado” prosseguem. Projeto do senador Ney Suassuna já derruba a barreira de 49% de participação de capital estrangeiro no controle de emissoras de tevê a cabo, permitindo que assuma o controle total de operadoras que atuam no país. Isso é particularmente interessante para as Organizações Globo, mas será para as outras empresas? A União Nacional de Emissoras e Redes de Televisão, que reúne Bandeirantes, Record e SBT, já dá sinais de que vai bater de frente com a emissora carioca em vários pontos. No meio do fogo cruzado, o governo Lula vai ter que fazer muita ginástica para costurar um pacto que acomode todos os interesses. Principalmente os da sociedade.

Vênus à deriva
Acostumado ao poder sem freios e sempre à sombra dos dirigentes de plantão no país, Roberto Marinho, em suas pontuais declarações públicas, costumava revelar a sinceridade e a candidez que há séculos fazem parte do perfil de nossa progressita elite. Em uma carta aberta a Lula, no Jornal Nacional de 18 de dezembro de 1989, após ajudar a eleger Collor, o magnata respondia às acusações de manipulação feitas pelo PT: “Não é verdade que eu exerça o poder político hegemônico e menos ainda que o faça em caráter pessoal. A orientação que imprimo aos veículos que me cabe dirigir visa estritamente à defesa do que julgo serem os reais interesses do país e dos caminhos a serem trilhados para que se possa alcançar o bem-estar do povo”. O benemérito Marinho não está mais à frente das Organizações Globo. O poder do grupo, dividido entre seus filhos, já não obedece mais ao estilo centralizador do patriarca. Coincidência ou não, nunca o o império esteve tão abalado. Num balanço publicado em março deste ano, as Organizações Globo declararam possuir dívida de 2,63 bilhões de dólares, destes, 2,2 bilhões em moeda estrangeira. Um dia após as eleições presidenciais, o diretor finaceiro Ronnie Marinho anunciou que a holding Globo Comunicações e Participações (Globopar) suspendia o pagamento de suas dívidas, um montante de 1,5 bilhão de dólares, pelo prazo mínimo de noventa dias. Curiosamente, a situação da Globo começou a se tornar crítica com a desvalorização cambial promovida por FHC em seu segundo mandato. Reeleição esta que contou com toda a simpatia dos Marinho. O jornalista João Vady Cury, com passagens por jornais como Folha de S.Paulo, Estado e O Globo, é autor de uma tese de mestrado defendida na ECA-USP que mostra as articulações entre a Globo, o governo FHC e o leilão das teles em 1998. Segundo Cury, naquele momento houve uma conjunção de interesses: O Globo cobriu as eleições dando claro apoio a FHC, não questionando os métodos de privatização das teles (os Marinho compraram três operadoras de telefonia celular) e o presidente foi reeleito. “O Globo não foi honesto com seus leitores, já que em nenhum momento deixou claro que tinha interesses diretos na privatização”, aponta.
Em 1998, período estudado por Cury, a Globopar já começava a se tornar problemática para os negócios do grupo. “Na época, a dívida já atingia 350 milhões de dólares”, esclarece. A holding de aproximadamente cem empresas, que envolvia telefonia, hotéis, construtoras, seguradoras e até fazendas de gado, começou a diminuir de tamanho. Posteriormente, a Globo iria se desfazer de retransmissoras e abrir mão do controle acionário de negócios estratégicos, como a Sky TV que, no final de 2000, acumulava 653,15 milhões de dólares em prejuízos.
Segundo os passos dados pela Globo, a solução para seus problemas deve seguir a velha política de… fazer política. A emenda que permitia a entrada de capital estrangeiro nas empresas de comunicação nunca foi vista com bons olhos no Jardim Botânico. Claro que nisso não havia nenhum patriotismo ou repulsa ao dinheiro que vem de fora. Afinal, os Marinho se aproveitaram de uma lacuna a respeito da internet e abriram o capital do seu portal, o Globo.com, trazendo 810 milhões de dólares da Telecom Itália. A recusa da Globo se baseava na possibilidade de seus concorrentes se fortalecerem em eventuais associações com grupos estrangeiros interessados no mercado nacional.
Mas, com a época das vacas magras, a Globo não só passou a dar apoio a esse projeto como também é agora uma das maiores interessadas na aprovação da lei que amplia a participação do capital estrangeiro na área de TV a cabo. A esperança da organização reside no megaempresário Rupert Murdoch, da News Corporation, que assumiu em julho o controle da Sky e já estaria articulando a compra da Net Serviços, a ex-Globo Cabo. Seria o fim do império ou o início da sua anexação?



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