América para os norte-americanos

O argentino Atilio Borón vê no projeto da Alca a continuação da política do Big Stick, iniciada há quase dois séculos com a doutrina Monroe Por  ...

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O argentino Atilio Borón vê no projeto da Alca a continuação da política do Big Stick, iniciada há quase dois séculos com a doutrina Monroe

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Atilio Borón, secretário-executivo do Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais (Clacso), é crítico da maneira como a Alca vem sendo imposta a países como o Brasil e sua Argentina natal. Ele considera que, por trás das discussões econômicas de abertura de mercados, estão motivos estratégicos para os Estados Unidos que vão muito além de questões pontuais de comércio.

Borón crê que a área de livre comércio seja a continuação da doutrina da América para as americanos, lançada há duzentos anos por James Monroe, presidente dos EUA de 1817-25. Em outras palavras, o plano é manter o continente nas mãos dos interesses do Tio Sam.

Para ele, o caminho alternativo é a integração regional, com o aprofundamento de iniciativas como o Mercosul. Ele acredita que o Brasil tem todas as condições – e até obrigação – de abrir uma nova trilha de integração e desenvolvimento econômico fora do neoliberalismo. Veja abaixo trechos de entrevista exclusiva concedida à Revista Fórum.

Revista Fórum – Muito se tem falado do efeito econômico da Alca para os países latino-americanos, mas o senhor defende que precisam ser discutidas outras áreas, como educação, cultura, relação entre os países. O que se está perdendo
nesse debate?
Atilio Borón
 – A Alca é parte de um projeto integral dos Estados Unidos que começa há muito tempo, na realidade, há quase dois séculos, quando (James) Monroe proclama a famosa doutrina que leva seu nome, a da América para os americanos. O que ele quer dizer, na verdade, é a América para os norte-americanos. O projeto de Alca não pode ser compreendido apenas como uma busca de vantagens comerciais para os EUA. É algo muito mais abrangente, que tem a ver com um imperativo de segurança, com questões estratégicas, militares e também políticas. Discutir a Alca significa sair dessa visão imediatista, técnica e de curto prazo. Não apenas pensar se somos contra os subsídios agrícolas ou não. Precisamos ver a complexidade do projeto. Os EUA, como grande potência imperialista, nunca decidem as questões em função de interesses econômicos de curto prazo, mas sempre têm uma visão estratégica muito mais ampla. A Alca hoje é a ratificação dessa concepção estratégica pela qual o país pretende reafirmar sua soberania na América Latina. Por isso, todos temos de rechaçar a Alca de modo muito firme.

E há outro caminho?
Sim, há. É o da integração sub-regional que se ia fazendo na América do Sul, por exemplo. Onde existe a possibilidade de desenvolver o Mercosul como um projeto em que há interesses regionais convergentes dos países daqui. Esse é uma ação viável, factível, que beneficiaria os povos da América se houvesse vontade política. Mas nos últimos quinze anos os governos da região não vêm tendo muito interesse em promovê-lo. E o Mercosul dá muito mais possibilidades de esses países se desenvolverem, manterem e aprofundarem sua soberania econômica e política. Mas para isso, ele não poderia ser restrito a um acordo comercial como ocorre atualmente.

Brasil e Argentina passam por crises econômicas. Como manter a soberania precisando do dinheiro dos EUA, via FMI, para fechar as contas? A América Latina, o Brasil e a Argentina estão em situação econômica muito ruim, mas não vão sair disso via Alca. Se persistirem com as estratégias econômicas do Consenso de Washington, com o neoliberalismo, a situação vai ficar muito pior. Um avanço muito enérgico de integração de mercados, da economia real dos dois países, seria a criação de empresas conjuntas para desenvolver novas tecnologias, o que pode trazer resultados muito objetivos. Se países como Brasil e Argentina fizerem uma política de taxar com impostos iguais as empresas internacionais e adotarem incentivos para investimentos comuns podem se converter numa zona muito próspera. Não estamos falando dos países pequenos e com problemas. Temos diversas potencialidades. Temos grupos de técnicos e experts de nível internacional, temos universidades que se sobressaem por sua excelência. Há muitos elementos positivos e se esses países entram em acordo podem desenvolver-se, dar diversos passos à frente e melhorar suas situações econômicas.

E por que isso deu errado até hoje? Em geral Brasil e Argentina têm sido governados para os mercados, para os grandes interesses econômicos que nunca se preocuparam com o desenvolvimento nacional, que sempre estiveram interessados em garantir a rentabilidade da riqueza. Deixaram as outras preocupações de lado. Mas ressalvo que ainda é preciso ver o que vai acontecer com o novo governo brasileiro. Para mim, basta que os governos tomem iniciativas sérias de integração para que os países se ponham em marcha de maneira muito vigorosa. Aí, vamos ter um efeito impressionante. E vale sobretudo para o Brasil, o país é a décima economia mundial e tem condições objetivas mais que suficientes para adotar políticas alternativas ao neoliberalismo. Se não o fizer, não é por não ter recursos como países menores, como Bolívia, Paraguai, mas porque a tendência política renovadora, de esquerda, progressista terá fracassado.



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