Armadilha preparada

Segundo o sociólogo argentino Atilio Boron, para que a esquerda continue a avançar na AL, Lula tem de escapar dos falsos dilemas armados pela direita e fazer rapidamente as reformas sociais. Por Frédi Vasconcelos  ...

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Segundo o sociólogo argentino Atilio Boron, para que a esquerda continue a avançar na AL, Lula tem de escapar dos falsos dilemas armados pela direita e fazer rapidamente as reformas sociais.

Por Frédi Vasconcelos

 

O secretário executivo do Conselho Latinoamericano de Ciências Sociais (Clacso), o argentino Atilio Boron, considera que o governo Lula será essencial na definição do que virá a ocorrer com o subcontinente nos próximos anos. A seu ver, deve fazer de forma ágil as reformas sociais que o povo brasileiro exige. Caso não consiga, sofrerá ataque da direita do país, que vai contar com os setores da mídia para desacreditá-lo. Boron também analisa a situação atual da Argentina e considera que a esquerda do seu país é muito retórica, dogmática e sectária.

Piqueteros e outros movimentos sociais São movimentos de protesto e resistência da sociedade civil muito importantes, que mostram a enorme energia que existe na sociedade argentina. Uma sociedade que foi capaz de se livrar de um governo impopular, como o de De la Rúa. Porém, infelizmente, não se consegue transformar essa enorme energia numa fórmula política. Dá a impressão de que o país não tem alternativas. Movimentos como os piqueteros e caceroleros não levam a uma organização que permita disputar a eleição. O grande dilema é que todo mundo diz estar de acordo com o regime democrático e a disputa de eleições, mas os movimentos não se preparam para esse processo.

Esquerda retórica O absurdo é que o líder mais importante da nova esquerda argentina, Luis Zamora, diz que não é importante tomar o poder. É uma pessoa com boas intenções, mas uma análise política totalmente equivocada. Afirma que não é preciso disputar as eleições, que são uma armadilha. Todo analista político sabe que as eleições são uma armadilha, mas a engenhosidade e as forças de esquerda permitem, às vezes, não sempre, evitá-la. Dizer apenas que se trata de uma armadilha e não apresentar alternativas nos deixa sem saber o que fazer. Esse é o grande problema. Na Argentina a esquerda é muito limitada, dogmática, sectária, com pouca experiência de gestão, nunca liderou grandes movimentos de massa, nunca geriu nem pequenas cidades. É muito retórica, apegada a slogans revolucionários. Um setor muito importante da esquerda Argentina pensa que estamos na véspera de um momento revolucionário, análise completamente equivocada.

Influência Argentina e Brasil são países que se influenciam muito, mais do que se pensa. Isso é bom porque nos últimos vinte anos houve avanço muito grande na integração entre os dois países, na cultura, na literatura, na música, nas idéias. Muitas vezes o Brasil copia coisas da Argentina, como o Plano Austral, que aqui virou o Plano Cruzado. Parece uma loucura, copiou o que foi malsucedido. Também copiou o Plano de Conversibildade, com o Real, uma moeda mais forte que o dólar, um delírio total. Parece que Argentina e Brasil copiam só o que existe de mal um do outro.

Creio que se o governo de Lula der certo, causará um impacto muito positivo não só na Argentina, mas em toda a América do Sul. Se o governo de Lula der errado, vamos ter uma noite escura, e por muito tempo, não só no Brasil, mas em toda a América Latina. Por isso, para nós, a experiência Lula é fundamental.

Lula pode virar Chávez Isso não pode ser descartado, porque a direita brasileira é muito forte e tem governado o país por séculos. Estou certo de que se Lula começar a fazer coisas que molestem a direita, ela vai começar a conspirar. E estamos falando de uma das direitas mais poderosas da América Latina, que controla grandes meios de comunicação, grandes grupos financeiros, tem influência internacional. Lula terá de enfrentar uma oposição muito forte, fechada, determinada, contra as reformas sociais.

Novo modelo de golpe O golpe mais possível agora é do tipo que está acontecendo na Venezuela, um golpe midiático. Um golpe dos mercados. Esse é um perigo muito sério. Nas comunicações esse perigo é muito grande porque o poder dos grandes veículos de comunicação privados é imenso, e não há contrapartidas públicas. É muito importante precaver-se contra esses golpes. A única saída que tem Lula é uma política fortemente reformista, tem de consolidar sua popularidade fazendo as reformas sociais que o Brasil necessita. Se ele for pelo caminho do continuísmo, sem fazer as reformas, ou fazê-las muito gradualmente, em muito tempo, vai ser totalmente atacado pela oposição de direita. Ele só tem uma rota de fuga que é a de avançar pelo caminho das reformas sociais, nos setores agrário, urbano, da educação… Se fizer isso, consegue governar. Se não, terá poucas condições de chegar ao final de seu mandato.

Comunicação direta Há uma fórmula muito simples que Fidel Castro utiliza há quarenta anos. Você tem de explicar ao povo o que está acontecendo. Lula, toda semana, tem de pegar um microfone e ir à TV dizer ao povo brasileiro o que está acontecendo, explicar porque o “povão” brasileiro vem sendo embrutecido de propósito pela direita brasileira. Não é porque geneticamente as pessoas são inferiores, mas é uma doutrinação cultural para que o povo brasileiro não entenda. Lula tem de explicar ao povo o que acontece, explicar, explicar, explicar… E tem de ser ele, não outra pessoa. Se puser o ministro do Planejamento, da Economia, o presidente do Banco Central para falar, está perdido.



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