Brequefeste

Crônica de José Roberto Torero Por José Roberto Torero e Marcus Aurelius Pimenta   Quando vi que a pauta desta revista estava centrada no Fórum Social Mundial,...

283 0

Crônica de José Roberto Torero

Por José Roberto Torero e Marcus Aurelius Pimenta

 

Quando vi que a pauta desta revista estava centrada no Fórum Social Mundial, fiquei preocupado. Eu não queria que meus três leitores ficassem sem saber o que acontecia no outro lado do mundo das idéias (ou seja, no Fórum Econômico Mundial de Davos, que desta vez nem foi em Davos, mas em Nova York), onde mais de mil empresários, políticos e economistas se encontraram para decidir que destino querem para o resto do planeta.

Assim, tomei por bem fazer uma arriscada missão de espionagem. Fui para NY, disfarcei-me de garçom e pus-me a servir no salão de brequefeste do Waldorf Astoria, a sede do Fórum Econômico. Ali, escutei a conversa de dois milionários. Creio que seus nomes eram Mr. Rich e Mr. Power, mas pode ser que eu esteja enganado e estes sejam apenas nomes fictícios, ideais para personificarem a riqueza e a força dos países poderosos. De qualquer modo, Mr. Rich era bem gordo e Mr. Power, muito magro, sempre fumando um charuto que parecia um canhão fumegante. Mr. Rich gritou para mim:

– Garçom, por favor, traga-me um Big Mac.
– E um Mac Lanche feliz para mim, emendou Mr. Power.
Então, enquanto os servia, pude escutar a seguinte conversa:
– Como estão as coisas, meu caro, Power?
– Excelentes, caríssimo Rich.
– Foi ótima esta mudança para a Big Apple, não?
– Não sei. Adoro o Waldorf, mas a neve de Davos dava um ar mais nobre à reunião.
– E as manifestações?
– Parece que prenderam duzentas pessoas em cinco dias. É uma boa polícia.
– Tem gostado das palestras?
– Falando francamente, Rich, não aprecio estas idéias que andam aparecendo por aqui, como perdão da dívida e ajuda a países em desenvolvimento.
– Ora, Power, às vezes é preciso dar umas migalhas para que não lhe tomem o pão. Falando nisso, passe-me a maionese.
– Antigamente, há uns vinte ou trinta anos, nossas reuniões eram mais amenas e ninguém ficava protestando. Mas agora até economistas como o Jeffrey Sachs, de Harvard, estão falando em desigualdade social.
– Precisamos contratá-lo e dar-lhe um bom salário.
– É sempre uma saída, Rich.
– E o que você pensa daquela reunião que nossas colônias estão fazendo?
– Colônias?
– Os países do sul.
– Ah, sim, o Fórum Social de Port Happy. Parece que o Chomsky esteve por lá e o Saramago fez um textinho.
– Sabia que devíamos ter trazido o Paulo Coelho… Por favor, passe-me a mostarda.
– E o pior é que eles já estão na segunda edição, Rich.
– Pensei que iam parar na primeira. Passe-me o sal.
– Ouvi dizer também que preparam novos encontros.
– Mesmo? Passe-me o cactchup.
– E o deste ano foi duas vezes maior que o do ano passado.
– Duas, é?
– Sim. Parece que eles querem diminuir nossas margens de lucro, os gases poluentes lançados na atmosfera, o protecionismo dos países ricos.
– Glup!
– Sim, e querem que as decisões das Nações Unidas sejam respeitadas.
– Acho que perdi a fome, Power.
– Eu também.
Depois eles me pediram que eu levasse um sal de frutas. Parece que não gostaram do brequefeste.



No artigo

x