D10S es argentino

Um dos melhores jogadores de todos os tempos, controvertido, amante do futebol e defensor de Cuba, dependente de drogas, dono de posições fortes. Apesar das polêmicas, fica de Maradona o salto com o punho...

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Um dos melhores jogadores de todos os tempos, controvertido, amante do futebol e defensor de Cuba, dependente de drogas, dono de posições fortes. Apesar das polêmicas, fica de Maradona o salto com o punho erguido, o drible único, a imagem do gênio que deixou os gramados mais pobres ao se despedir da bola

Por Miguel Grazziano e e Nicolau Soares

 

Ele fez rir e chorar em sua arte, o futebol. Melhor de todos os tempos ou não, é lembrado com o 10 nas costas, a bola colada ao pé esquerdo ou dançando sobre o direito. Fica a imagem do lance breve, do salto único, como num balé, com o punho direito erguido. Seu palco: o campo de futebol. Diego Armando Maradona foi homenageado em Buenos Aires, em 10 de novembro passado, e o resto do mundo ficou com ciúme. Querem outras despedidas em Tóquio e Nápoli. Até os alemães derrotados no México em 1986 gostariam de vê-lo jogar, ainda que fora de forma e apenas “trotando” no gramado. Não é à toa. Ele foi o último grande craque a desfilar seus encantos em copas do mundo.

Mas as homenagens ao jogador mais extraordinário que já nasceu na Argentina são também uma demonstração de que é possível enfrentar vícios, limitações, ter recaídas, levantar-se, fazer outra jogada… “A força interior de Maradona não tem precedentes neste país”, escreveu o jornalista Osvaldo Soriano em junho de 1994. “Por isso é difícil entender. E eu não falo apenas do futebol. É sabido que a vitória se conquista com talento, mas, sobretudo, com esforço. Agora, grande, turbulento, imponente, Maradona converte-se em um exemplo de vida: as coisas pelas quais passou e como deu a volta por cima só ele sabe. E é possível que nunca possa explicar. O fato de ter consciência de que suas crises eram comemoradas por alguns, em vez de matálo o fez ressuscitar. Nos tempos do minimalismo e de homens medíocres, parece um mito, o personagem de um conto de fadas; tem o perfil daquele que crê no heroísmo, na valentia e no amor a uma causa”, arrematou.

Naqueles meses de inverno argentino, em 1994, a dependência da cocaína de Maradona era conhecida. Ainda assim, sua presença na seleção que disputaria a Copa dos Estados Unidos era uma súplica dos torcedores de todo o mundo. E uma grande jogada de marketing para a Fifa. Diego voltou, brilhou com o time. Era o melhor jogador da Copa até que caiu novamente na armadilha do doping. A sentença de morte para ele nas Copas veio com a Efedrina encontrada na urina, substância que provavelmente ingerira em remédios para ajudar a emagrecer. Mas a ficha corrida vinha de antes, dos problemas com a cocaína.

Ele e Fidel
O 10 argentino não nasceu em berço de ouro. Pobre, tudo que conseguiu foi por mérito próprio, sua esquerda magistral, a picardia e a destreza com a bola.
Rebelde, fez-se notar por todos. “Foi o primeiro que ousou uma argola na orelha e outros adereços. Fez-se amigo de Fidel Castro e repetiu aos quatro ventos sua simpatia pela isolada sociedade cubana”, lembra o jornalista argentino Horacio Verbitsky. “Viveu com Cláudia sem oficializar o casamento e, recentemente, casou-se. Mas quando quis e como quis. Na Itália, representou os negros do sul discriminado e reprimido perante os brancos do norte rico e prepotente. Protestou contra as viagens em aviões ‘teco-teco’, em excursões japonesas cuja única proposta é dar a volta ao mundo em uma semana para três amistosos contra ninguém”, completa.
Sua rebeldia não era inconseqüente. Foi um dos primeiros a defender os direitos dos jogadores. “Maradona tem consciência dos problemas do futebol, coisa que falta aos jogadores brasileiros, salvo raras exceções”, afirma o jornalista Flávio Prado. “Ousou enfrentar os poderosos e pagou um preço por isso. Todo jogador deve muito a ele”, completa.
Ídolo do São Paulo e do Nápoli, em que jogou com Maradona e tornou-se seu amigo, o ex-centroavante Careca lembra que a postura do argentino dentro e fora de campo sempre foi a favor do grupo. “Brigava pelas coisas para todos, não para si mesmo. Sabia que podia jogar praticamente sozinho, mas sempre pensava no coletivo”, garante.

Sonho do menino
Dieguito foi grande no estádio e na vida. Na primeira vez em que enfrentou um microfone, aos 14 anos, em um campo de terra seca já sabia aonde ia chegar:

– Qual é seu sonho?, perguntaram.

– É… eu tenho dois sonhos; um é jogar na Seleção e o outro é ser campeão com a Argentina… respondeu.

Desde então, muitas coisas aconteceram. Chamou a atenção da ditadura militar no Mundial juvenil de 1979, esteve na sacada da Casa Rosada com Raúl Alfonsín e com Carlos Menem. No Vaticano, encontrou o Papa. E teve muitas discussões com João Havelange, Joseph Blatter ou Julio Grondona. “Maradona é um cara de personalidade forte, que se diferenciou de outros esportistas por defender publicamente suas opiniões”, lembra o jornalista brasileiro Juca Kfouri. “Pena que seu envolvimento com drogas tenha atrapalhado a força de suas posições mais generosas”, lamenta.

O povo o respeita Aos que o depreciaram, respondeu com a magia do esporte; aos que dele cuidaram, com palavras de amor. Diz que Fidel tem razão ao afirmar que a Argentina é “puxasaco dos ianques”, pois nas organizações internacionais vota pelo bloqueio que condena os cubanos à fome.
Em Cuba, onde vem se tratando, ofereceram-lhe os melhores médicos e uma casa de repouso. E Diego, eternamente grato, ofereceu a Fidel: “para a lenda viva, qualquer coisa”. E explicou: “aqui voltei a respirar ar, voltei a viver. E, temendo pelo seu futuro, deixou claro que, se algo lhe acontecer, “ninguém venha responsabilizar a medicina cubana, porque o culpado serei eu e somente eu”. Para o jornalista Alberto Helena Júnior, essa proximidade com Fidel não é fruto de uma postura racional. “Maradona se apaixona por pessoas, não por idéias. Fidel o tratou bem e ganhou seu coração, não tem nada de ideológico”, avalia.
“Os dois têm mais coisas em comum além do que pensam e fazem. Os dois têm sido os melhores no que fazem, cometeram erros, envelheceram, ganharam e fracassaram, como ocorre com todos os que buscam na terra o reino dos céus”, explicou alguma vez Osvaldo Soriano.
É o que diferencia Fidel dos outros políticos do chamado Terceiro Mundo e Maradona de outros jogadores de futebol. Porque, enquanto Pelé – tão parecido na arte do esporte – é, aos olhos do mundo, pacato e inebriado pelo poder, Diego não se cala e luta contra as injustiças.
Algumas vezes enganado, algumas vezes certo. E, como lembrou o próprio Maradona no dia de sua homenagem, “o futebol é o esporte mais lindo e saudável do mundo. Mesmo que alguns cometam erros, ele não deve pagar o preço: a bola não se mancha”.
Careca lembra que, se era rebelde na vida, Diego não dava trabalho aos técnicos. “Ele adorava treinar, principalmente com bola. Eu nunca o vi fugir de treino nem chegar atrasado. Também nunca vi fugir de concentração”. Coisa de quem faz o que gosta.
Podem falar o que quiserem: o certo é que Maradona foi sempre o dono da emoção, fez tudo no campo e também na vida. Entrou numa categoria mítica e converteu o povo argentino ao paganismo: Maradona e Deus jogam pela mesma camisa 10 ou, em espanhol, D10S ES ARGENTINO.



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