Dias de harmonia

Jovens de todas as partes do mundo acamparam durante cinco dias no Parque Harmonia, à beira do Rio Guaíba, em Porto Alegre. Entre sons, poesia, teatro e debates, a galera semeou o respeito à...

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Jovens de todas as partes do mundo acamparam durante cinco dias no Parque Harmonia, à beira do Rio Guaíba, em Porto Alegre. Entre sons, poesia, teatro e debates, a galera semeou o respeito à diversidade como valor fundamental para um nova sociedade

Por Angel Luis

 

Atenciosos guris e gurias conduziam e apresentavam o local a cada grupo que chegava. Entregavam uma pulseirinha laranja, garantia de acesso ao parque, e orientavam a respeito de como e onde montar as barracas. Surgiam ruas e avenidas. “Monte a barraca bem colada, uma ao lado de outra, em linha, deixe um corredor à frente e atrás”, diziam os guias.
No começo da noite de 31 de janeiro, eles já eram poucos para atender à multidão. Também já estava difícil andar em meio ao mar colorido de lonas. Aproximadamente 20% dos que estiveram em Porto Alegre para a segunda edição do FSM instalaram-se na Cidade da Juventude Carlo Giuliani – homenagem ao manifestante italiano morto pela polícia em Gênova durante protestos contra a reunião do G-8 em julho de 2001.
Mesmo antes dos debates e das conferências do Fórum, o cenário já confirmava a importância do evento. Estavam ali ingleses, argentinos, alemães, italianos… brasileiros de todos os cantos. Muitos jovens, mas alguns nem tanto. Durante os cinco dias do FSM esse povo participou de debates e atividades sobre software livre, rádios comunitárias, transgênicos, aulas de teoria anarquista, percussão, malabares e perna-de-pau, oficinas de hip-hop, agricultura orgânica, massagem chinesa, confecção de luminárias a partir de sucata. Aliás, houve quem não saísse do acampamento para as conferências e oficinas, até porque pelo acampamento passaram alguns daqueles que brilharam nas conferências oficiais.

Lula e os estudantes A ministra de Relações Exteriores do Quebec, Louise Beaudoin, e o ex-primeiro ministro da província canadense Jacques Parizeau passaram por lá. A ministra foi entrevistada pelo valente locutor da Rádio Muda, uma das três que operavam no galpão de comunicação construído com apoio do governo canadense. Por meio de caixas de som espalhadas pelo parque, ouviu-se “olha aí! não tenho faculdade, não sei falar outra língua, quem quiser pode vir aí, mas vamu fazê essa porra (a entrevista)”. A ministra não ficou intimidada. Mostrou-se feliz e agradou ao dizer que as rádios comunitárias e a internet devem ser os principais canais de diálogo entre diferentes idéias em prol de um mundo melhor.
Diálogo que, aliás, faltou durante a visita do presidente de honra do PT, Luís Inácio Lula da Silva. Ele viu como a base juvenil dos partidos da esquerda brasileira carece de educação e preparo político. Antes de seu discurso, jovens dirigentes estudantis ligados ao PCdoB, PSB e PT quase foram às vias de fato para gritar, no palanque, velhos chavões. O pré-candidato do PT à presidência precisou lembrar que o verdadeiro inimigo é o sistema econômico, que corrompe o jovem através do tráfico de drogas, da fome e da tentação ao crime.
Discurso parecido foi feito, bem perto dali, pelo baterista e letrista do Rappa, Marcelo Yuka, na plenária de hip-hop que lançou o manifesto Grito da Periferia. Para uma platéia eufórica, dividida “entre manos daqui e manos de lá”, líderes estudantis e “boys” em geral, o músico insistiu que a divisão só faz feliz quem explora os jovens. Yuka citou sua condição de classe média com capacidade de informar-se e compartilhar conhecimento. “Não sou preto, mas também não sou branco. Ou a gente aceita as diferenças e estuda junto, ou morremos todos, antes da hora.”
Em outro dos “axiônios”, nome dos espaços dedicados às oficinas, um grupo dava exemplo e discutia em várias línguas. Falando em espanhol, francês, inglês e italiano, trocavam experiências sobre como promover ações diretas contra o modelo neoliberal de globalização. Alguns tinham participado ou ajudado a organizar os protestos em encontros econômicos mundiais, como Seattle (1999), Londres (2000) e Gênova (2001). Ali, criaram o Laboratório Intergalátika de Resistência Global, espaço permanente de debates e apoio mútuo internacional às organizações de protesto. Também estabelecerem uma agenda de atividades e definiram a criação de um site, o www.intergalaktica.net, que entra no ar em 1º de abril.

Teatro e socialismo Ao andar pelas trilhas do parque era possível topar com atores descendo em cordas e panos amarrados em árvores, numa mistura de circo, poesia, capoeira e música. Ou encontrar o professor e respeitado intelectual francês Michael Löwy, que debatia sobre as relações entre socialismo e cristianismo. Ou ainda, assistir a oficina e palestra do fundador do Teatro do Oprimido, Augusto Boal, um pouco antes da Cia. São Jorge de Variedades apresentar Biedermann e os Incendiários (peça que segue em cartaz até maio, no Teatro de Arena Eugênio Kusnet, em São Paulo).
Antônio Conselheiro, representado por um boneco gigante, também esteve na Cidade da Juventude. Era a apresentação do Auto de Canudos, pela Cia. Ói Nóis Aqui Traveiz. A encenação do grupo gaúcho fez Celina Lerner, de São Paulo, desistir de ir a um debate na PUC. “Praticamente não fiquei no acampamento, mas mesmo assim assisti a vários espetáculos e várias bandas, além de fazer muitos contatos com gente do mundo todo, mas também com vizinhos meus que só conheci aqui”, conta a jornalista. Muitos dos eventos aconteceram independente de programação. Róbson Luis “Dio”, rapper e arte-educador de Santo André, foi um dos voluntários incumbidos de organizar a agenda cultural da Cidade da Juventude. Ele conta que todos os dias surgiam novos grupos oferecendo atividades. A Rádio Poste prestava serviço divulgando oficinas e eventos marcados de última hora.
Dentre os shows, um destaque foi o grupo Cayema, da Colômbia, que misturou tambores africanos com flautas e ritmos andinos, além da banda pernambucana Mundo Livre S.A., convidada especial que tocou na madrugada do último dia (ver texto ao lado).
A galera que esteve na Cidade da Juventude voltou para casa com um cansaço considerável, mas também levou um bom tanto de ânimo e de sonhos que vão embalar muitas lutas e mudanças nos próximos tempos.

 



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