Educação ruim é projeto

Desde a década de 80 o Banco Mundial vem orientando os caminhos que os países não-ricos devem tomar na educação. Não é a toa que se chegou à atual situação Por Anselmo Massad e Nicolau...

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Desde a década de 80 o Banco Mundial vem orientando os caminhos que os países não-ricos devem tomar na educação. Não é a toa que se chegou à atual situação

Por Anselmo Massad e Nicolau Soares

 

“A educação não pode ser uma mercadoria”. A frase, que parece simples, resume diversos problemas enfrentados pela educação no mundo. Foi dita durante a Conferência Especial de Educação e seu autor foi o canadense Jocelyn Berthelot, do Fórum Continental de Educação. Disse mais: “Por isso, é necessário que ela seja pública e gratuita, mas não é isso que o FMI e o Banco Mundial recomendam”.

Mas educação é problema do Banco Mundial? Não deveria, mas tem sido. “Nos anos 70, o Banco Mundial tinha influência secundária na educação. Os documentos da Unesco eram muito mais importantes”, afirma Ângela Siqueira, professora da Universidade Federal Fluminense que participou do Fórum Mundial de Educação, ocorrido entre 24 e 27 de outubro de 2001, em Porto Alegre.

Para ter idéia do que essa mudança significou, em 1972 documento da Unesco alertava, por exemplo, para a falta de recursos e o aumento da influência de fatores externos no funcionamento da educação. No relatório pedia revisão dos orçamentos globais, reduzindo os gastos bélicos e ampliando os educacionais. Mas essa visão não interessava ao Pensamento Único, por isso outros começaram a tratar do assunto.
Em 1980, documento do Banco Mundial “pedia ajustes para o pagamento da dívida externa, criticava a demanda por mais e melhores vagas, qualificando-a como ‘síndrome de qualificação’ ”, aponta Ângela. Além disso, criticava a educação gratuita, orientava para que fossem cobradas taxas e houvesse redução da carga horária. Também deveriam ser eliminadas atividades “desnecessárias” e as salas de aula teriam de comportar número maior de estudantes. “O banco pedia ‘educação para todos’, mas a educação a que se referia era simplesmente a alfabetização, a educação básica, deixando o ensino superior abandonado”, completa a professora.

A partir daí, a ingerência do Banco Mundial no processo educacional dos países subdesenvolvidos e em desenvolvimento aumentou de forma alarmante. Para a operação teve apoio, em muitos casos, da elite local e contou com o seu poder de conceder empréstimos. “Num movimento global, os países passaram a só investir em ensino básico, o que não impediu a superlotação e a baixa qualidade”, acusa Ângela.

Caso exemplar de ingerência econômica sobre a educação deu-se no México. Ao entrar no Acordo para o Livre Comércio das Américas (Nafta), em 1992, o país teve de se submeter a diversas condições, muitas na área da educação. “A constituição mexicana assegurava o direito à saúde e educação, após o acordo o texto passou a estabelecer que as duas podem ser oferecidas”, diz Hugo Aboites, professor da Universidade Autônoma Metropolitana (UAM). O que era um direito tornou-se um serviço.

As conseqüências foram que a educação pública e gratuita passou a ser garantida somente até o primário e acabou definido um sistema de educação superior para os três países (Canadá, México e EUA), sob uma mesma cultura, sendo que a condução está nas mãos de empresas privadas. “Hoje no México é mais fácil e lucrativo investir em educação que em transporte aéreo”, acusa Aboites.

Ao mesmo tempo em que a educação passou a ser considerada um serviço houve acentuada queda no padrão salarial dos professores. “No mundo todo os docentes vivem em condições precárias, com salários baixos, poucos equipamentos e, muitas vezes, formação deficiente”, alerta Jocelyn Berthelot.

Outras questões
A Argentina Marta Maffei, do Fórum Internacional da Educação, toca em outros aspectos que, na sua opinião, precisam fazer parte das preocupações daqueles que são contrários ao projeto do Banco Mundial. “Os pobres têm meios diferentes de lidar com a sociedade, criam vínculos diferentes”, explica. “Por exemplo, os pais muitas vezes desestimulam os filhos dizendo que eles não são inteligentes, que não irão longe”. Isso gera desinteresse por parte dos jovens, que acabam deixando a escola.
Os professores, sem conhecimento da situação, também colaboram. “O professor assume atitudes preconceituosas, desiste do aluno ou o aprova sem tentar driblar suas limitações”, explica Maffei. “É preciso pesquisar essa cultura da pobreza e aparelhar os professores para resgatar as pessoas.”
A professora Maria Paula Menezes, da Universidade Eduardo Mondlane, em Moçambique, aborda a questão da diversidade cultural em seu país. Segundo ela, apenas 19% da população fala português, a língua oficial, e somente 5% aprenderam a língua de seus pais. “A maioria não tem uma educação formal, mas conhecimentos práticos desenvolvidos em sua cultura durante séculos”, explica Maria Paula. “Não podemos simplesmente desprezar essa cultura em favor da educação formal européia.”
O problema é que as línguas nativas, chamadas de maternas, faladas pela maior parte da população, não possuem forma escrita. “Como encarar uma pessoa que domina seu idioma, mas não sabe escrever? Ela é analfabeta?”, questiona Menezes. “O colonizador europeu impôs sua cultura e educação e fez acreditar que o africano não tinha nenhuma cultura. Impôs-se o pensamento único ocidental, a idéia de missão civilizatória, de levar a civilização a outros povos.”

Ensinar saber Bernard Charlot, professor de Ciências da Educação da Universidade Paris VIII, defende que a escola dê uma cultura universal para o estudante, mas que não ensine informações e sim saberes. Segundo ele, informação é só um enunciado. Se não for contextualizada não será capaz de formar o jovem.
Qual a importância da educação para a construção de um outro mundo?
A educação sozinha não pode mudar o mundo, mas tem papel fundamental para não deixar funcionar o discurso da violência. Jogar bombas é não reconhecer que o outro é um ser humano que tem o mesmo valor. Há diferenças culturais, mas é preciso criar a partir daquilo que é igual, num novo universalismo. Não impondo uma cultura sobre outras, mas reconhecendo-as. O problema é que sempre há questões econômicas por trás, há uma ideologia que legitima o discurso e a exploração econômica.
O que já vem de antes da globalização, não é?
Com a globalização há mais contato entre pessoas, não entre as culturas. E há o problema do dinheiro. A abertura do mundo vem se dando, antes de tudo, como um produto. Para mudar isso, o primeiro passo é trazer a preocupação com a cultura para a escola, numa postura reflexiva. Temos de verificar se na escola as diferenças são respeitadas, porque o jovem não sabe bem quem ele é. Ao se tornar adulto, não terá aprendido a lidar com as diferenças e será intolerante. A chave para essa mudança é não ensinar informações, mas saberes. A informação é só um enunciado. A sociedade da informação é diferente da sociedade do saber. Listar uma série de dados não adianta, porque tudo fica sem ligação. Se a informação não for contextualizada não será capaz de formar o jovem.

Como lidar com as diferenças culturais? Para construir um mundo de respeito pela dignidade de cada ser humano é muito importante que o aluno descubra a cultura do outro. Ninguém conhece sua própria cultura sem conhecer e reconhecer o valor e a importância do que outros grupos fazem, pensam e acreditam. A pessoa fica pensando que o seu jeito de ver é o natural, o certo, a única e melhor possibilidade, sendo que nem o conhece muito bem.

Como promover esse contato?
É preciso permitir um afastamento mínimo entre o jovem e sua comunidade, para que ele saiba que muita gente já viveu e ainda vive de outras formas em lugares e classes sociais diferentes. Ele tem que saber que seu modo de vida não é o único nem o melhor. Não estou falando para esquecer da realidade da comunidade de onde o jovem vem, mas alertar para a necessidade de abrir espaço para que ele entre e mergulhe em culturas diferentes. Quem pode abrir esse espaço se não a escola?



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