Euro a um passo do governo mundial

Viajando pela Europa é possível sentir no ar a relação entre a moeda e o continente. No euro, com o euro e através do euro começa a ser forjada uma identidade comum. É como...

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Viajando pela Europa é possível sentir no ar a relação entre a moeda e o continente. No euro, com o euro e através do euro começa a ser forjada uma identidade comum. É como se a moeda funcionasse como o substrato de uma cidadania de dimensões européias

Por Cândido Grzybowski

 

A velha Europa, das muitas guerras mas também de muitos movimentos de inspiração democrática, que conformam a nossa civilização, surpreende mais uma vez. E como todos grandes desafios, que em determinados momentos históricos decisivos se dão às sociedades, gera tensões, rupturas e realinhamentos político-culturais. A implantação da moeda única – o euro – é uma façanha incrível e um sucesso indiscutível, mesmo que ainda não tenha sido estendida a todos os membros da União Européia. Que o digam os ingleses de Blair, mais uma vez fora de sintonia com a Europa e correndo o risco de perder o bonde da História. Enganam-se os que pensam que por trás da troca de moedas existe somente um ideário econômico neoliberal em curso, permitindo a consolidação de um gigantesco mercado de alto consumo. Viajando pela Europa é possível sentir no ar a relação entre a moeda e o continente. No euro, com o euro e através do euro começa a ser forjada uma identidade comum. É como se a moeda – e ela é isso, gostemos ou não – funcionasse como o substrato de uma cidadania de dimensões européias.

Mas o ainda mais surpreendente, com enorme impacto sobre todo o mundo, não está no euro. A Europa está acelerando o processo de construção de um verdadeiro povo europeu, de uma cidadania que rompe com a barreira territorial dos Estados-Nação e que parece querer enterrar o passado de guerras para sempre. Nossa mídia está deixando passar despercebido o que está prometendo ser uma verdadeira revolução democrática: uma constituição cidadã comum para a Europa.

No último dia 1º de março, foi instalada no Parlamento Europeu a chamada “comissão”, com o mandato de formular, até meados de 2003, uma proposta que todos reconhecem ser a base de uma Constituição Européia. O prazo é longo e pode ser desgastante, sem dúvida. Não houve eleição específica para a tal comissão, outro problema que sabemos quanto castrador é. Mas sabemos, também, que as forças de renovação em termos de idéias, debates e propostas de direitos em torno a uma nova constituição pode ser tal que ninguém segura. Ainda mais que compõem a comissão não só os quinze países atuais membros da União Européia. Pasmem: a Europa admitiu na Comissão encarregada de forjar sua constituição representantes dos parlamentos dos outros dez países do Leste, candidatos a membros plenos até 2005.

Não tenho dúvida de que estamos diante de algo novo, ao menos de um passo decisivo no enfrentamento da mais delicada questão nas contradições alimentadas pela globalização que vivemos: o governo mundial. Isso desperta acirrados debates no interior da Europa, em particular na França e Itália, no seio de movimentos de esquerda. A soberania tal qual a entendemos está no centro dos debates. Soberania do Estado-Nação para uns, direito à diversidade político-cultural para outros, igualdade na diversidade, que leva a multipolaridade, dizemos nós que nos alinhamos em torno do movimento renovador que brota do Fórum Social Mundial. De toda forma, não a integração mercantil tout court que está na agenda européia. Contrabalançar o poder unilateral dos EUA, com uma Europa democrática, sim.

Penso que é hora de olhar mais de perto as implicações das mudanças européias sobre nós, aqui no Cone Sul das Américas, ligados a isso tudo por processos históricos e pelos estragos – possibilidades também, diga-se de passagem – da globalização em curso. A tragédia da Argentina não foi resultado do Mercosul e nem da Alca, esta apenas uma proposta. Mas, sem sombra de dúvida, não dá para dissociar os problemas internos da Argentina e os impasses do Mercosul do estreito receituário mercantilista da globalização neoliberal. Tínhamos começado melhor, com um esboço de integração regional como parte da redemocratização, após as ditaduras militares. Nos anos 90 embarcamos num processo de mera abertura comercial na região. Pior, adotamos internamente políticas de liberalização e de desmonte de políticas estatais que nos tiraram muito de capacidade de regulação democrática das economias. A Argentina foi mais radical e o tombo está sendo desastroso. Mas nós brasileiros e os outros vizinhos não podemos tapar o sol com a peneira: estamos estruturalmente fragilizados, não pelo Mercosul, mas pela cega adoção do receituário neoliberal. O Mercosul, aliás, pode ser a tábua de salvação coletiva. Mais, estamos num momento histórico, em que se formos capazes de entender o quanto dependemos uns dos outros e o quanto precisamos da Argentina para a América Latina, de retomar e radicalizar um projeto de integração democrática. A Europa pode ser um aliado estratégico, não só pelo que lá acontece, mas porque nós somos importantes para uma Europa capaz de se contrapor aos EUA na montagem de um governo global mais democrático.

Além da urgência que o sofrimento do povo argentino nos impõe, de uma perspectiva democrática e de “outra globalização” – em sintonia com “um outro mundo é possível”, do Fórum Social Mundial – temos uma agenda concreta que podemos tomar como possibilidade histórica a não perder. Não podemos ficar só na agenda de negociações comerciais entre Europa e Mercosul, por mais importantes que sejam. Os processos de democratização em curso na Europa devem nos inspirar para irmos mais além.

Nós, brasileiros e brasileiras, podemos ser decisivos nisso tudo. Temos um processo eleitoral em curso que pode ser um momento raro para pôr as idéias no devido lugar. É chegada a hora de considerarmos a integração regional e nossa inclusão soberana e democrática no mundo como uma questão chave como povo. Devemos cobrar de nossos candidatos seus projetos para tanto. Fazendo isso, poderemos estar influindo muito mais do que pensamos e, provavelmente, nos dando chances de também levar adiante um renovado projeto de democracia, em sintonia com a emergente cidadania planetária.



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