Golpe Reality Show

A mídia foi a principal arma do golpe de Estado vivido na Venezuela. Durante bom tempo transformou o país numa realidade virtual. Felizmente a armação não deu certo. Mas eles não desistiram Por Renato Rovai  ...

346 0

A mídia foi a principal arma do golpe de Estado vivido na Venezuela. Durante bom tempo transformou o país numa realidade virtual. Felizmente a armação não deu certo. Mas eles não desistiram

Por Renato Rovai

 

Não posso garantir que teremos os meios para continuar garantindo este governo… O general nem havia encerrado o raciocínio e do outro lado da mesa alguém, com voz estridente, protestava:

– O que o senhor está dizendo?

– Que talvez amanhã não tenhamos mais os meios necessários para controlar as tropas, de tê-las ao nosso lado, repetiu o militar tentando fazer-se entender.

Quem o havia interpelado, após ouvir pela segunda vez a avaliação, não se conteve.

– Não estou entendendo, general, não estou entendendo, de que meios o senhor está falando? Afinal, quem tem os meios somos nós – bate no peito, dá boa risada. Ou o senhorse esquece de que foram esses meios que nos trouxeram até aqui…

A história, revelada pelo deputado e presidente da Assembléia Nacional, Willian Lara, teria ocorrido numa reunião de avaliação do “governo provisório” de Pedro Carmona Estanga, o empresário de 60 anos que foi empossado presidente da República na suposta renúncia de Hugo Chávez Frias.

Já ficava claro que os militares golpistas perdiam o controle dos quartéis e que a população iria reagir à quebra do Estado de Direito. Mas quem dizia ter os meios não estava confiante à toa. Era um dos poderosos donos de veículos de comunicação, que trabalharam articuladamente e de forma extenuante para convencer amplo segmento da sociedade venezuelana de que era preciso apear Hugo Chávez do poder.

O diálogo acima não foi gravado e tem firulas. O timbre da voz do general ou mesmo do empresário das comunicações é ilustração. Mas a história contada para Lara é representativa da lógica do golpe vivido de 11 a 14 de abril na Venezuela. Ele foi midiático-militar. E, nesse caso, a ordem dos tratores altera o viaduto. A arma mais pesada utilizada pelos golpistas foi a informação.

Os meios de comunicação da Venezuela foram a grande oposição ao governo do Movimento da Quinta República (MVR). “Desde quando Chávez despontou nas pesquisas de opinião articulou-se reação na mídia para impedir seu crescimento. Quando os meios perceberam que a eleição era inevitável, até tentaram uma aproximação. Vendo que não conseguiriam, voltaram a atacá-lo”, explica o editorialista do maior jornal da Venezuela, El Universal, Clodovaldo Hernandes. O jornalista ainda acrescenta que no começo do governo quando a “oposição estava a dois palmos abaixo da terra, quem ligava a TV imaginava que era muito forte, pois só se ouviam as críticas”. O depoimento do taxista Jorge Mata, 48 anos, seis filhos e nove netos, dá a dimensão popular desse envolvimento da mídia com o golpe fracassado. “Quando fiquei sabendo, de madrugada, que nosso presidente tinha renunciado, quase não dormi. Acordei na sexta sedento de informação e as tevês só passavam desenhos infantis e notícias de que o novo governo já estava ‘encaminhando’ as coisas. Eu me perguntava, e o Chávez, cadê ele? Onde o colocaram? Quero ouvir da boca dele que renunciou. Nada, não tínhamos nada, nenhuma informação.” Vários depoimentos semelhantes a esse podiam ser ouvidos na capital venezuelana nos dias seguintes ao fim do golpe. Todos falavam dos tais desenhos animados que invadiram a programação.

Chávez também errou
A participação de empresários de comunicação no golpe é incontestável. O mais bem-sucedido deles, Gustavo Cisneros, da Venevision, espécie de Roberto Marinho venezuelano, participou da escolha de ministros. Outros assinaram o livro de posse de Carmona e apoiaram o fechamento do Congresso e a destituição de prefeitos, por exemplo. Mas na Venezuela há duas opiniões para tudo. Um dos motivos é que a sociedade está absolutamente radicalizada e Chávez tem responsabilidade nisso. “O presidente vai terde controlar sua personalidade e ser mais tolerante”, afirma o aliado Willian Lara. Chávez sabe de suas culpas e as tem assumido em público. Um dos primeiros gestos ao retomar o poder nos braços do povo foi pedir perdão pelos seus erros. O secretário-geral do Sindicato Nacional dos Trabalhadores da Imprensa da Venezuela, Gregório Salazar, 49 anos, considera que a cobertura da imprensa só atingiu o tom parcial dos últimos tempos por intransigência do presidente. “No começo do governo ele contava com grande apoio. Jornais e TVs eram próximos dele. Mas foi se distanciando de todos, inclusive daqueles que eram seus aliados e quis governar sozinho, como um ditador”, ataca Salazar.
A opinião a respeito do autoritarismo do presidente tem alto índice de ressonância na classe média e alta que, majoritariamente, é anti-Chávez. “Aqueles que têm certa percepção do que estamos vivendo estão contra ele. Ele quer nos levar para uma guerra social e incentiva o ódio entre as distintas classes”, ataca Carla Parra, 30 anos, publicitária, uma das dezenas de milhares de pessoas que marcharam no ato do dia 11, que desembocou no golpe. Bobagem achar que se tratava de um ato de esquálidos, termo adotado por Chávez para designar seus opositores. A manifestação pôs cerca de 500 mil pessoas gritando Fora Chávez. Mas também é bobagem utilizar a rejeição a Chávez como justificativa ao golpe. Até porque ela não é tão alta. Segundo pesquisa pós-golpe, realizada pelo Instituto Datanálisis e divulgada no dia 9 de maio, o presidente Hugo Chávez tinha 44,4% de apoio na população. Ou seja, os contrários ainda eram maioria. Os chavistas ignoram esses levantamentos, consideram-nos falsos. Ao que o editorialista Clodovaldo Hernandez contrapõe. “Eles só acreditam naqueles que lhes são favoráveis. De qualquer forma a pesquisa reflete a guerra social vivida na Venezuela. Entre as classes média e alta, 75,7% rejeitam Chávez e o querem fora de Miraflores. Na classe baixa, Chávez teria 55% de apoio.
A dimensão da força do presidente reflete-se na resposta a outra pergunta: em quem você votaria se a eleição fosse hoje? Ele venceria com 41,3% dos votos. Seu concorrente direto, o deputado Júlio Borges, do partido Primeira Justiça, de direita, teria 30%.

A parte alta O curioso é que ao subir os morros (como no Rio de Janeiro, a parte alta de Caracas é ocupada pelos pobres) a impressão que se tem é a de um Chávez absoluto. É o que se sente ao visitar o bairro Flores de Cátia. Aliás, uma breve interrupção, se Chávez ainda está na presidência da Republica, em boa parte isso se deve a três fatores. Às pessoas mais pobres, como as que moram em Cátia, que não acreditaram em sua renúncia e foram às ruas para lutar. Ao Fiscal Geral da República. Ao baixo clero das Forças Armadas, que se manteve fiel ao presidente.
Mas retornando a Cátia. “A gente não acreditava que o nosso presidente tinha renunciado e por isso no dia 12 decidimos descer o morro e ir para o Palácio de Miraflores (sede do governo) ouvir isso da boca dele. Mas, quando acordamos, a Polícia Metropolina já estava de prontidão para impedir”, lembra o dono de uma barraca de legumes Florêncio Veja Davila, 37 anos. Segundo balanço do jornal El Universal, no dia 11, na passeata a favor do golpe, morreram vinte pessoas e ficaram feridas 148. Na manifestação que Davila era um dos integrantes, que ocorreu em Cátia e em outros bairros pobres, nos dias 13 e 14, quando a população reagiu, morreram 65 e 417 ficaram feridos. Por incrível que pareça pouco se fala desses assassinatos. “Não havia intenção de saquear nada, mas como a polícia não nos deixava descer o morro e atirava de forma indiscriminada, decidiu-se arrombar as lojas e invadir o comércio como forma de protesto”, relata Davila. O caos estava instalado em Caracas. As tevês transmitiam desenhos animados e as rádios tocavam salsa e merengue.
Elias Fartitian, 60 anos, libanês há oito anos morando em Caracas, foi um dos atingidos pelas manifestações. “Levaram 300 colchões da minha loja, trinta dormitórios, tudo. A loja ficou vazia. Perdi tudo o que tinha”, reclama em tom indignado. Após os saques, os proprietários pichavam a porta de seus negócios com a frase: já fui saqueado. Na tentativa de impedir novo ataque.
Às 16h15 minutos do sábado, quando já ficava claro que não haveria como segurar o clamor popular pelo retorno de Chávez, a Polícia Metropolina deixou as ruas. “Nesse momento descemos todos para Miraflores. Acho que éramos uns 2 milhões. Ficamos lá querendo notícias”, conta o taxista Mata. “Lembro de um dado curioso desse sábado, ilustrativo de como as tevês se comportaram. Apareceu um apresentador de um programa jornalístico e falou: ‘A situação na Venezuela, neste momento, é de plena tranqüilidade, e o governo provisório alerta que está tomando as medidas necessárias para que essa tranqüilidade permaneça. Mas orientamos a população a evitar sair de casa’. Eles estavam tão entorpecidos que não se davam conta do que estavam falando”, relatou o presidente da Assembléia Nacional, Willian Lara. “Assisti a algo inimaginável, vi populares cercando o jornal (El Universal) e gritando ‘queremos informação” ’, relata Clodovaldo Hernandez.
Maximilien Arvelaiz, 29 anos, assessor de imprensa do presidente Hugo Chávez aponta: “A imprensa foi a grande arma do golpe, para ter uma idéia, na manifestação do dia 11 eles não interrompiam as transmissões nem para os anúncios comerciais. Ficavam no ar sem parar, meio que convocando as pessoas a ir para a rua protestar”.

Os bastidores
O que começa a ser apurado em relação ao golpe é impressionante. Como é sabido, Pedro Carmona Estanga não estava na linha da sucessão. Não era vice-presidente, presidente da Assembléia, do judiciário ou de qualquer outra instituição. Mas, então, por que ele? Ele responde a essas e outras perguntas em entrevista exclusiva que se pode ler no sítio www.revistaforum. com.br. Mas a jornalista Patrícia Polleo, do jornal El Nuevo Mundo, tem versão diferente da de Carmona. Segundo ela, Carmona foi o nome do golpe por ser da confiança de Isaac Peres Recao, um jovem de 32 anos, acionista da empresa na qual Carmona trabalha. Mas o que Recao tem a ver com isso? Sua família vendia armas para o governo venezuelano antes de Hugo Chávez, que rompeu o contrato. Contrariado, o jovem passou a organizar a resistência no interior das Forças Armadas, inclusive bancando os advogados de defesa de militares insubordinados. Após a dissolução do governo provisório, a casa de Recao foi inspecionada pelo Exército. Nela foram achadas armas e bombas de todos os tipos. Boa parte do ministério de Carmona, ainda segundo Polleo, teria sido indicação de Recao, que iria ser o diretor de Operações da Casa Militar.
Isaac Perez Recao é um dos nomes do golpe. O seu braço armado mais visível. Mas, no sábado, dia 13/4, funcionários da embaixada norte-americana foram ao Forte Tiuna, principal quartel do exército e onde ocorreram as negociações do governo golpista. O assessor de imprensa da embaixada dos EUA reconhece o fato e justifica: “tratou-se de uma visita de rotina”. Há ainda indícios de que a marinha e aeronáutica norte-americanas tenham feito movimentos nas imediações do espaço marítimo e aéreo do país. “Rezo para que os EUA não tenham nada a ver com isso”, dizia Hugo Chávez ao ser indagado sobre o assunto. A estratégia do governo da Venezuela é a de tentar melhorar a relação com o “importante parceiro comercial”, como disse Willian Lara.

O futuro e a conspiração
Há dez anos, em 1992, Hugo Chávez Frias entrava para a cena política de forma desaconselhável. Liderou uma rebelião militar, golpe, contra o governo do então presidente Carlos Andrés Péres, do partido da Ação Democrática (AD). A ação foi sufocada e, Chávez, condenado. Em 1995, foi perdoado pelo presidente de então, Rafael Caldeira, da Copei. Na Venezuela política era algo “civilizado” desde 1958. Ação Democrática, socialdemocracia, e Copei, democracia-cristã, revezam-se no poder. O que ganhava compunha e entregava importantes nacos do poder ao outro. Pouco mudava. Principalmente para uma imensa população carente, estimada em 86% pelo Banco Mundial.
Para ter uma idéia do nível democrático que inebria os partidos históricos da Venezuela, por convite do cientista político Aníbal Romero, a reportagem de Fórum participou de encontro da Ação Democrática (AD). Num dos momentos da reunião, Romero traçava três cenários possíveis para o país após os acontecimentos daqueles dias. Um deles era que poderia ocorrer algo semelhante ao Chile da época de Salvador Allende. Romero lembrou que quatro meses antes do golpe que derrotou o projeto socialista no Chile, ocorrera um movimento que ficou conhecido como Tagnazzo, sufocado por um general de nome Augusto Pinochet. “Acredito que o que vivemos aqui em 12 de abril foi um Tagnazzo, ainda vai haver outro movimento”, disse. Foi interrompido por uma estridente comemoração da platéia, composta de senhores engravatados e senhoras muito bem-vestidas. É preciso fazer justiça: Romero lembrou que depois o Chile viveu tempos de escuridão política. Mas fez questão de afirmar que considerava importante a AD dizer que não reconhecia como legítimo o governo Chávez e que deveria discutir todas as possibilidades de derrubá-lo.
Vilma Petraski, professora universitária e estudiosa em questões internacionais, falou depois de Romero e disse que havia conversado com “uma pessoa da embaixada americana” para reclamar de que o país poderia ter tido uma postura “mais clara em defesa do governo provisório”. Segundo Petraski essa pessoa teria dito que os EUA “ficaram decepcionados com a postura adotada pelos governos da América Latina e que isso pôs os EUA na defensiva”. Vale ainda lembrar que Otto Reich, encarregado dos assuntos para a América Latina no Departamento de Estado dos EUA, confirmou à Newsweek que durante as horas em que esteve no governo, Pedro Carmona Estanga conversou duas ou três vezes com o megaempresário das comunicações Gustavo Cisneros. “Era só para buscar informações, não tivemos nada a ver com isso”, garantiu. “Esse governo foi armado no escritório de Gustavo Cisneros”, afirmou o deputado de oposição a Hugo Chávez, Pedro Pablo Alcântara (Ação Democrática).

E agora?
Os interesses que moveram o golpe de Estado na Venezuela são comerciais e ideológicos. Não foram enterrados no dia 14 de abril. Os golpistas perderam uma batalha, mas não desistiram da guerra. Nas TVs venezuelanas só se fala na ilegitimidade do governo e na necessidade de um referendo para Chávez, que precisará de extrema habilidade para lidar com essa situação. Terá de resgatar antigos aliados e abrir espaços na classe
média e na sociedade civil. Também vai ter de aprender a engolir sapos. Não poderá fazer tudo o que deseja (e que pensa ser justo) de uma vez e deve descentralizar as ações do governo.

A relação com a mídia também precisa ser tratada com urgência. Ele tem arestas a aparar nas Forças Armadas, afinal, foi traído por muitos militares, mas a arma mais poderosa apontada para o seu governo é a da informação sensacionalista e distorcida. Aliás, algo precisa ser feito em relação a um controle mais democrático da informação. E não só na Venezuela



No artigo

x