O anfitrião

O Fórumzinho reuniu mais de 2.500 crianças e foi um laboratório para começar a pensar um novo mundo a partir do desejo e da visão de quem vai habitá-lo Por Luciana Ackermann  ...

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O Fórumzinho reuniu mais de 2.500 crianças e foi um laboratório para começar a pensar um novo mundo a partir do desejo e da visão de quem vai habitá-lo

Por Luciana Ackermann

 

Num fim de tarde, pouco antes da passeata contra a Alca da qual iria participar, o governador Olívio Dutra recebe a reportagem da Fórum para uma entrevista exclusiva em seu gabinete no Palácio Piratini. A simplicidade do local chama a atenção. Móveis antigos, bem conservados, sem luxo. A simplicidade do governador também chama a atenção. Olívio trajava camiseta e sandálias de couro. Nada de pompas ou afetações que caracterizam a maioria daqueles que detêm algum poder no país.
Mesmo atrasado para a passeata, não deixou sem resposta nenhuma das perguntas. Num tom calmo, mas de maneira eloqüente, falou do Fórum Social Mundial, do governo e de sua reeleição, das possibilidades de vitória de Lula, dos atentados ao PT, da relação conflituosa como os grandes meios de comunicação e de problemas de segurança que afetam o Rio Grande do Sul.
Governador, até que ponto os objetivos deste Fórum foram alcançados, principalmente a criação de propostas para um outro mundo como tanto se disse aqui?
Olívio Dutra – Primeiro, falo como anfitrião, não como organizador. O governo do Estado e a prefeitura são anfitriões, com muito gosto e também toda a responsabilidade, pois temos sintonia com a convocatória tanto em sua primeira edição, quanto na segunda. E nos honra muito a decisão do comitê internacional de realizar também no Rio Grande do Sul, em Porto Alegre, o terceiro encontro. Este segundo Fórum foi uma grata revelação de que a humanidade tem reservas enormes de solidariedade, uma visão aberta, plural, e ao mesmo tempo unitária, de construção da paz, com justiça social, de um mundo sem guerras, que o neoliberalismo não conseguiu destruir. Avançou-se bastante no aprofundamento de temas do primeiro Fórum, como a questão da dívida externa dos países mais pobres, dos paraísos fiscais, da taxação do capital financeiro etc. Fomos mais longe sem perder aquela base.
Numa conjuntura em que vivemos no globo, de centralização de poder político e bélico, as delegações de vários países responderam com outra alternativa. Acho isso muito positivo. Evidente que o Fórum Social não é uma instância resolutiva, não são executivos de governo que se reúnem para tirar coisas e colocar em prática, movimentando máquinas. É um momento de reflexão, avaliação, crítica, demandas e cobranças de indignação com o sofrimento de milhares de pessoas. Mas também é um movimento de muita consistência na formulação de alternativas. O fato de termos em conjunto o Fórum de Autoridades Locais, o Fórum dos Parlamentares, a questão do meio ambiente e também da segurança, tudo isso são temas que estão na pauta do mundo inteiro e aqui foram trabalhados junto com a questão dos gastos de guerra, que são 800 bilhões de dólares. Se a humanidade, as populações dos países, tivesse o direito de democraticamente decidir a destinação desses recursos, que alternativa escolheria. Isso se debateu e os participantes votaram as destinações prioritárias. Houve uma superação das expectativas.

Qual o balanço para o anfitrião, o Estado, valeu a pena?
Claro. Só para repetir o Fernando Pessoa, quando a alma não é pequena… e a alma do povo daqui está longe de ser pequena, como a alma de todos que aqui vieram, sonhando com os pés no chão para que se construa um mundo de justiça, igualdade, fraternidade, sem guerra e de paz.
Valeu o primeiro, valeu este, certamente será importantíssimo o terceiro. Circulou riqueza aqui, milhares de pessoas ocuparam os hotéis, restaurantes, hospedarias num raio que foi a 200 quilômetros. Além do que as manifestações culturais, os produtores culturais, os artistas, todos também puderam se apresentar, ser vistos, enfim fazer intercâmbio e enriquecerem-se, portanto.

Além dos softwares livres, do orçamento participativo, que o governo já adota, quais outras práticas sugeridas pelo Fórum são ou serão executadas por seu governo?
Todas as coisas que foram discutidas aqui têm a ver com cotidiano de milhares de pessoas, com as possibilidades de qualificar suas vidas, de ter um controle cidadão sobre a ação dos governos. Desde as discussões que a juventude fez, no acampamento, às discussões dos povos indígenas e das mulheres, dos negros, das ditas minorias, todas podem e devem transformar-se em políticas públicas. Evidentemente que isso é um processo, e o Rio Grande do Sul não é o sal da Terra nem tem a pretensão de ser uma ilha separada do Brasil e do mundo.

Como o senhor mesmo diz que o Rio Grande não é uma ilha, vamos falar do país. A candidatura de Lula a presidente é viável?
Nos 22 anos de existência do PT, esta é a eleição que apresenta as condições mais propícias de uma vitória de Lula e do programa democrático e popular, não só do PT. O PT tem uma responsabilidade enorme, é o partido da esquerda mais estruturado no país, mas não pode ter uma posição hegemônica. Nós estamos trabalhando bem, o Lula tem essa compreensão, a construção do programa é também da articulação política com as forças dos movimentos sociais, compromisso com um Brasil com desenvolvimento econômico sustentável, de inclusão social, de protagonismo político. Um Brasil que se relacione pluralmente com o mundo, mas que tenha direção nessa construção, uma cultura de base, articulação dos povos mais oprimidos, mais excluídos.
O país tem problemas hoje na sua política interna e externa, com uma economia subordinada às relações com o grande capital internacional. Mas precisa ter um desenvolvimento auto-sustentável e uma relação aberta com o mundo. As condições para os investimentos que precisamos aqui não podem ser as que vêm caracterizando as políticas neoliberais, como a privatização do Estado. Temos que ter outra relação e fazer investimentos grandes naquilo que qualifica a vida de milhões de pessoas e isso significa, claro, infra-estrutura de energia, saneamento básico, estradas, saúde, educação…
Áreas que garantem para o país, seu povo, uma soberania, e também possibilitam atrair investimentos produtivos para o país. As possibilidades de vitória, numa articulação assim, com programas e visão de um Brasil desenvolvido e auto-sustentado, com esse desenvolvimento incorporando as pessoas como sujeitos, não objetos da política, acho que isso dá condições para a vitória. Mas tem muita água a passar ainda pela ponte, os adversários não são marinheiros de primeira viagem, são forças que a rigor se revezam há cinco séculos no aparelho do Estado nacional.

Há vinculação entre essa possibilidade de vitória e os atentados que o partido vem sofrendo?
Não é uma vinculação mecânica, direta. Agora, quando você vislumbra o crescimento de nossa candidatura, de nosso projeto, surgem coisas estranhas que parecem ligar o mundo do crime com o da política, pela direita, criando um caldo de cultura, estigmatizando a esquerda. Pode até ser uma coisa local, mas representa o confronto de projetos, de condutas políticas, pois a nossa é diferenciada, desmonta as negociatas, as facilidades com o dinheiro público, e isso mexe com interesses.

Neste ano o senhor encerra o mandato de governador, qual o balanço desta gestão?
Estamos indo para a conclusão do primeiro mandato, com possibilidade de eleger esse projeto para um segundo período. Temos legitimidade, trabalho para isso. A economia do Estado desde 1999 cresce acima da média nacional. No período anterior o crescimento era vegetativo ou até negativo. E cresce por conta de nossas políticas, com inclusão social. Hoje recuperamos, depois de seis anos, a condição de segundo estado exportador, colhemos a maior safra de grãos da história, reduzimos substancialmente a taxa de mortalidade infantil, que é a menor do país, e a taxa de analfabetismo. É um processo contínuo de melhora dos índices de qualidade de vida. Neste ano também começa a funcionar a universidade pública estadual, sonho de mais de trinta anos da comunidade gaúcha. Trata-se de uma universidade de caráter diferente, ligada ao desenvolvimento regional, para ajudar a diminuir os desequilíbrios e possibilitar que as vocações regionais se modernizem, se enriqueçam. Essa é uma peça importante, mas também aqui vamos ser sede de um centro ibero-americano de alta tecnologia da microeletrônica. Sem subsídios, vamos produzir chips, modernizar o parque industrial e todos os setores da economia, ser uma referência internacional.

E em relação à violência, que os meios de comunicação locais dizem ser uma debilidade de seu governo?
O país é considerado pela ONU o terceiro em grau de violência, e dos 27 estados da Federação nós, do Rio Grande do Sul, somos o 23º. Infelizmente há estados com grau de violência maior. Temos aqui uma política de segurança que trabalha com a formação de pessoas para enfrentar situações adversas sem apelar para a truculência, para a violência, para a repressão. A polícia é muito mais preventiva, com presença ostensiva. Há também uma articulação entre as polícias militar e civil e isso aumentou enormemente a capacidade de desbaratar quadrilhas e prender criminosos. Há ainda uma ação permanente para acabar com as relações promíscuas entre a polícia e a bandidagem, a banda podre, a contravenção. Ajuda muito também a polícia atuar com uma visão de ética, de respeito aos direitos humanos, sem prejuízo de sua eficiência, e estar presente onde a população mais precisa. É uma política de segurança pública respeitadora da dignidade das pessoas, que já foi elogiada pela ONU, mas a grande imprensa daqui não registra isso com o destaque devido.



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