O Fórum tem de ser um processo global

Membro da coordenação do comitê indiano do Fórum, Jai Sen é arquiteto e urbanista de formação. Tem-se dedicado desde os anos 90 ao estudo dos movimentos sociais, especialmente sua internacionalização. Após o III FSM,...

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Membro da coordenação do comitê indiano do Fórum, Jai Sen é arquiteto e urbanista de formação. Tem-se dedicado desde os anos 90 ao estudo dos movimentos sociais, especialmente sua internacionalização. Após o III FSM, já em São Paulo, onde aguardava embarque para seu país, concedeu esta entrevista à Fórum.

Por Anselmo Massad

 

Local do Fórum na Índia É preciso haver condições de acomodação e estrutura para abrigar o encontro, já que não se pode controlar seu tamanho – o que impede a escolha de uma cidade pequena, enquanto em cidades grandes há certa elasticidade de recursos. Alguns lugares estão sendo citados, como Haiova, outros falam do Estado de Kerala – seria em mais de uma cidade, o que nos obrigaria a reconceber o Fórum. As pessoas não poderiam acompanhar o encontro todo, mas todos teriam uma experiência rica. Nova Dehli é citada, mas muitos são contra, porque não é uma cidade típica da Índia, e queremos que as pessoas entendam o que é o nosso país.

Movimentos sociais
Em termos de movimentos sociais, Índia e Brasil são muito similares. Há muitas organizações sociais, mas a Índia tem uma população muito maior e talvez os movimentos não penetrem tão fundo quanto acontece no Brasil. Temos mais de 1 bilhão de pessoas e grande parte é formada de agricultores, a maioria desorganizada. Mesmo nas cidades, muitos trabalhadores não são organizados.

Oposição ao Fórum Um grupo, na Índia, acredita que o FSM não representa a luta de fato contra a globalização neoliberal. É uma declaração e um encontro, enquanto eles acham que os instrumentos para lutar contra o capitalismo são outros, como greves e outras técnicas convencionais. Temos cinco partidos comunistas. Um ou dois têm essa posição. Outras pessoas sentem que seus movimentos e líderes foram marginalizados do poder de decisão. Um terceiro tipo de oposição vem de ONGs e entidades ligadas a elas, assim como cooperativas espalhadas pelo país. Eles acreditam que o Fórum é dominado pelos partidos de esquerda. Tecnicamente, partidos não fazem parte do Fórum, está na carta de princípios. Mas como aqui, organizações de massa ligadas a partidos políticos, eles estão tendo um papel determinante. Para eles, isso é inaceitável.

Fundamentalismo e religião Essa será uma questão central. Em boa parte da Ásia e da África, e mesmo na Europa, o discurso da direita religiosa e fundamentalista está crescendo. Parte por causa do impacto do neoliberalismo, parte em função da guerra contra o “terror”, em que o Islã é o alvo.

O comitê do Fórum precisaria reconhecer o problema do fundamentalismo religioso de direita, que é extremamente grave. Na Índia, especialmente, porque este ano vamos ter enorme desafio – na verdade um enorme conflito, talvez até com muito derramamento de sangue. Ano passado houve incidentes, ataques brutais a muçulmanos por hindus. No Estado de Gujurat, em que isso aconteceu, houve eleições em dezembro. Liberais e progressistas tinham esperança de que o partido que liderou o processo perdesse votos. Mas não, eles venceram. E organizações, muitas delas neofascistas, disseram: a lição é clara, é esse o modelo que devemos seguir em toda a Índia. Em 2003, há oito eleições estaduais. Provavelmente teremos incidentes parecidos. Podemos esperar um ano de violência e também de vitória dos fundamentalistas em muitos locais.

O FSM precisa de mais estratégia O comitê internacional do Fórum ainda é apenas um conselho de gerenciamento, não um partido político, não tem visão global, apenas territorial. A América Latina pensa na América Latina, a África pensa na África e assim por diante. Temos a proposta de internacionalizar o Fórum, e é preciso discutir estrategicamente o que precisa ser feito e como. Há um modelo geral. Na África e na Ásia vive a metade da população do mundo, então devemos ir para lá. Não é uma má idéia, mas não exatamente uma idéia boa. E parece-me claro que o império dos Estados Unidos definiu que a Ásia é o primeiro lugar a ser dominado. Por isso, fazer o Fórum na Índia faz sentido como uma resistência simbólica. Mas para definir como será essa resistência, precisamos ter visão estratégica.

Saída de Porto Alegre A forma como a mudança do Fórum do Brasil para a Índia está sendo encarada é errada. É a forma clássica empresarial de ver as coisas. Em 2002, houve o acordo para a internacionalização, o que é importante. O Fórum tem de ser um processo global, não apenas um evento uma vez por ano. Ir para a Índia faz parte de algo mais amplo, não é só mudar de lugar. Acreditamos que devam existir fóruns por todo o mundo. No comitê também pensam assim, e foi apontada a criação de encontros regionais e temáticos, como os que já ocorreram na Argentina, Palestina, Europa etc.
Mas acho que deveríamos acabar com essa divisão entre Fórum Social Mundial e fóruns temáticos ou regionais. Todos deveriam ser o Fórum Social Mundial. O FSM não está acontecendo agora na Índia, mas em toda parte. Se você pode manter o Fórum Mundial, mantenha. Não é uma franquia dada pelo comitê internacional. Se você quer organizar, organize. Isso daria força ao Fórum, uma organização autônoma ou semiautônoma em diferentes partes do mundo.

Muita gente em Porto Alegre parecia desolada porque o FSM estava indo embora, como um filho que se vai. Não está indo embora, não deveria ser visto assim, mas como uma presença constante que se expressa de formas diferentes em lugares diversos. Eu pretendo escrever ao comitê internacional para sugerir isso. Parte por causa da dor de muitos latino-americanos que sentem que perderam um instrumento de batalha. Por que precisam perder?



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