O inferno africano

Não bastassem demônios como a fome, as disputas tribais e os governos corruptos, a África está sendo violentamente atingida pela Aids. São 28,1 milhões de pessoas que não têm condições mínimas de tratamento. A...

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Não bastassem demônios como a fome, as disputas tribais e os governos corruptos, a África está sendo violentamente atingida pela Aids. São 28,1 milhões de pessoas que não têm condições mínimas de tratamento. A perspectiva é que esse número se multiplique nos próximos anos

Por Glauco Faria

 

No dia 5 de novembro do ano passado, cerca de 3 mil pessoas protestavam na cidade de Upington, ao norte da Cidade do Cabo, na África do Sul. O alvo da ira dos manifestantes eram seis homens que haviam estuprado uma menina de apenas 9 meses de idade. Seria somente um crime bárbaro não fosse o fato motivador. Os criminosos acreditavam que mantendo relações sexuais com uma virgem estariam protegidos do vírus HIV, causador da Aids. Mas esse não é um caso isolado. Em Soweto, outra cidade sul-africana, o ifoli (estupro praticado por vários homens simultaneamente) se tornou algo comum. Temeroso de contrair a doença ou de já estar com ela, um rapaz chama seus amigos para violentar uma garota, que às vezes é a própria namorada. A menina geralmente sai dessa experiência grávida ou com o HIV. Graças a essa prática, a África do Sul tornouse o país com maior índice de estupros do mundo.
Isso é apenas parte do pânico que a Aids vem causando no povo africano. Os números justificam o clima de terror. Uma em cada cinco pessoas da África do Sul tem o vírus e calculase que mais de 500 mil morrerão em decorrência da doença até 2008. Até lá, a expectativa de vida cairá de 60 para 40 anos. Vários países estão em situação semelhante, com mais de 10 % de sua população contaminada, como Botswana, com 35,8%, e Quênia, 13,9%, de suas populações adultas (entre 19 e 45 anos). Na África Subsaariana, região mais atingida, morreram 2,3 milhões de pessoas infectadas em 2001. Ao todo, 28,1 milhões de africanos têm Aids.
Se os países desenvolvidos têm conseguido prolongar a vida dos soropositivos, no continente africano (que em sua maior parte não possui condições sanitárias mínimas) a Aids tem sido devastadora. O virologista brasileiro Amílcar Tanuri trabalhou com uma equipe do Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC) em Moçambique, que tem 13% da população com o HIV. Para tratar de todos os doentes, calcula que seriam necessários cerca de 1 bilhão de dólares por ano. “Não é só de medicação que se necessita, mas também de uma série de exames, como o de carga viral, que não está disponível em boa parte dos hospitais. Se dermos apenas os remédios sem que sejam feitos os exames, poderemos selecionar um vírus mais resistente”, esclarece Tanuri.
A falta de estrutura médica contribui para que a epidemia se alastre. Em Moçambique há pouco mais de 700 médicos para uma população de 18 milhões de habitantes, o que torna o atendimento hospitalar um luxo. “Apenas a elite consegue obter antivirais comprados na África do Sul”, revela Tanuri. Só agora começa a se controlar parte do estoque dos bancos de sangue do país. O de Maputo, capital de Moçambique, possui 13% de seu estoque de sangue contaminado. “O pior de tudo é que o número de transfusões é alto, já que a malária acaba fazendo com que muitas pessoas tenham que receber sangue”, explica o virologista.
As péssimas condições tornam a elaboração de políticas públicas de saúde um verdadeiro jogo de xadrez. A Unaids, Programa Conjunto das Nações Unidas responsável pela questão, comprou uma briga com várias ONGs ao recomendar a amamentação em populações em que o risco de desnutrição infantil é muito maior que o risco de infecção pelo HIV, em função das condições sócioeconômicas. O leite materno é uma das formas possíveis de transmissão, mas o leite em pó, feito com água não-potável, constitui-se numa das maiores causas de mortalidade infantil no continente. É a escolha entre duas desgraças.

A vítima principal
Se a pobreza é um dos principais causadores da epidemia, há outros fatores tão influentes quanto. A estrutura patriarcal da sociedade africana, na qual a mulher tem que se submeter às vontades masculinas, faz com que mais da metade dos portadores sejam do sexo feminino, ao contrário do que acontece na maior parte dos países do globo.
“As mulheres são inábeis para negociar o uso de preservativos. Tradicionalmente, na sociedade africana, quem toma as decisões relativas a sexo são os homens”, conta Catherine Ndashe, editora do AidsChannel, portal da internet que trabalha junto com mais de 100 organizações antiAids. A cultura e o costume fazem com que as mulheres abram mão de proteger a própria vida. “Mesmo sabendo que o companheiro possui a doença, a mulher não consegue dizer não ao marido”, diz Catherine.
Em algumas regiões da África Subsaariana, garotas abaixo de 20 anos têm taxas de contaminação seis vezes maiores que os homens da mesma faixa etária. A organização World Vision publicou estudo a respeito da Tanzânia, chamado Community Mobilization: A Comprehensive Approach to HIV/Aids. Uma das práticas relatadas na pesquisa mostra por que as mulheres são mais suscetíveis à infecção pelo HIV. A tribo Maassai, que é maioria em Mirerani Town, preserva entre suas tradições uma dança cerimonial em que pré-adolescentes, algumas com 10 anos, ficam dispostas em círculo. Os homens formam outra roda em torno delas e, quando a música para de tocar, pegam a menina mais próxima para iniciá-la sexualmente. Dado o sinal, a dança recomeça e os parceiros são trocados. Tudo sem proteção.
Na maior parte dos países da África a poligamia é permitida e, mesmo assim, é comum o homem ter relações extraconjugais e contaminar sua(s) mulher(es). “A poligamia não seria um mal em si, mas acaba dando aos homens, principalmente aos mais jovens, o direito de ter quantas mulheres quiser”, diz Rob Garner, da YFC KZN, ONG que combate a doença no continente. Outra forma comum de contaminação é a de rituais como a mutilação genital, que prepara a mulher para o casamento e resulta na extirpação do seu clitóris. Essas cerimônias são feitas coletivamente e, muitas vezes, usando-se a mesma lâmina em várias garotas.
“As mulheres carregam outro ônus, que é cuidar dos maridos doentes. Sem os rendimentos deles, acabam sendo empurradas para a prostituição”, conta Catherine Ndashe. Aí é praticamente certo que irão contrair o vírus, já que a maior parte dos homens se recusa a usar preservativos. As prostitutas, mais que quaisquer outras mulheres, se submetem a todos os caprichos e desejos masculinos. Como a prática do “dry sex”. “As mulheres usam diversos agentes químicos, como detergentes, sabão e até sal, para ressecar a vagina. A intenção é criar maior atrito e proporcionar mais prazer ao homem”, conta Rob Garner. A prática, além de lesionar o local e facilitar a contaminação, aumenta o risco de danificar o preservativo, caso seja usado.

A viagem do vírus A maior parte do transporte de cargas entre países africanos é feita por caminhões e as longas viagens são uma constante. E alguns dos maiores “clientes” dos serviços sexuais são os caminhoneiros. Em suas muitas paradas acabam se tornando um dos principais vetores da Aids. “É fácil para eles conseguirem sexo, pagando pouco ou simplesmente dando carona para outras cidades. Como a maioria não pratica sexo seguro, acaba espalhando o vírus”, esclarece Catherine Ndashe, editora do AidsChannel. Um estudo do Medical Research Council, realizado em 1999, com 330 caminhoneiros da região da África do Sul, chegou a números assustadores. Segundo a pesquisa, 56% deles eram soropositivos, sendo que 34% declaravam realizar “paradas para sexo” todos os dias. E mais da metade não usava preservativos. Mas, para Rob Garner, esses dados estão desatualizados. “Os índices de contaminação entre caminhoneiros podem superar 80%”, acredita.
Soldados e trabalhadores migrantes também ajudam na expansão da epidemia. Como parte do continente africano ainda vive processo de urbanização, a migração para trabalho em extração de minérios e construção de projetos nas cidades é bastante grande. Em algumas delas, as taxas de incidência da doença chegam até a 50%. Entre os soldados, que são forçados a diversos deslocamentos mesmo fazendo parte de forças de paz, tropas chegam a ter 90% de seus homens contaminados pelo HIV, segundo dados da UnAids.
A epidemia, além de ceifar vidas, começa a ter reflexo nas já combalidas economias africanas. Não apenas o aumento de gastos na saúde, mas a própria produtividade tem sido afetada. Estudo da FAO mostra que a produção de pequenos agricultores no Zimbábue caiu 50% nos últimos cinco anos em decorrência da Aids. Alguns especialistas calculam que na África do Sul o impacto da doença causa redução de 1% no crescimento anual do PIB.

A ação não-governamental
Diante da omissão de vários governantes africanos e de alguns organismos internacionais, a ação da sociedade civil, principalmente das ONGs, tem sido fundamental para elaboração de políticas para a questão. Graças à pressão exercida por elas, países ricos têm começado a olhar com mais atenção para o problema. “Estão começando a ajudar na constituição de fundos de auxílio, como o Usaid, Dfid e Save the Children. Mas ainda não é o suficiente”, constata Yvonne Spain, coordenadora da Cindi, uma rede de ONGs que atua na prevenção e no combate à doença. Embora a ajuda financeira seja importante, ela faz restrições à interferência dos países ricos. “Eles têm sua própria agenda e muitas vezes querem impor suas condições às ONGs que trabalham na África. Além disso, raramente a ajuda vem para projetos de longo prazo, chegando apenas por períodos curtos”, conta Yvonne.
Mas qual deve ser o principal foco das ONGs? Embora elas trabalhem no tratamento, há consenso de que campanhas de prevenção devem ser priorizadas. Já há exemplos de campanhas bem-sucedidas como a realizada em Uganda, que tinha o sugestivo slogan “So Strong, So Smooth” (Tão forte, tão macia), incentivando o uso de camisinhas e que ajudou a diminuir a taxa de contaminação de 15% para 9,7%. Ou como a intervenção realizada na África do Sul. Lá, o presidente Thabo Mbeki, que há pouco tempo contestava que o HIV fosse o verdadeiro causador da Aids, sofreu uma séria derrota na Justiça do país. O governo de Mbeki se recusava a distribuir o antiretroviral Nevirapine, que reduz a quase zero o risco de mulheres grávidas transmitirem a Aids para seus filhos. A alegação era que o remédio poderia ser “perigoso” para a saúde das grávidas. Os ativistas não se conformaram e foram à Suprema Corte Sul-Africana, que sentenciou o governo a fornecer o remédio, decisão confirmada na Corte Constitucional do país. As indústrias farmacêuticas também sentiram a força das ONGs e da concorrência de genéricos produzidos na Nigéria e Tailândia e agora começam a fornecer medicamentos a preços mais baixos. Isso mostra que, embora dramática, a situação da Aids na África, graças aos milhares de ativistas, pode ver uma tímida luz no fim do túnel.

Uma história diferente
Ela foi uma das primeiras africanas a assumir publicamente que tinha Aids. Mãe de dois filhos, não teve medo de se expor e correr o risco de sofrer todo tipo de discriminação. Catherine Phiri adquiriu Aids do marido, já morto, e convive desde 1990 com a doença. Em 1994, resolveu dar uma virada na vida. Demitida do emprego como enfermeira, passou a se dedicar integralmente à luta antiAids. Fundou a Salima HIVAids Support Organization (Saso), na cidade de Lilongwe, em seu país natal, Malawi.
Além de organizar campanhas de prevenção, com distribuição de preservativos e visitas a escolas de primeiro e segundo graus, a Saso dá suporte a mais de 1500 órfãos no país. Graças à militância de Phiri, hoje 90% da população de Malawi conhece os riscos da doença. Ao receber uma premiação da ONU em razão de seu trabalho, Phiri falou a respeito do preconceito que ainda sofre: “Sei que tem gente que me enxerga como lixo. Por isso, às vezes temo pelo futuro dos meus filhos. Mas não vou parar agora”.

Números da tragédia
Segundo dados da Unaids, 16 países da África Subsaariana têm pelo menos 10% da população adulta (entre 15 e 49 anos) infectada pelo HIV. Na Suazilândia, entre as mulheres grávidas as taxas de contaminação chegam a 32,2% nas zonas urbanas e 34,5% nas zonas rurais. Em Botswana, esses números são de 43,9% e 35,5%. A desinformação ainda é grande: 70% das adolescentes jamais ouviram falar de Aids, de acordo com pesquisa feita pela Unicef em 2000. Veja abaixo a taxa de infecção entre adultos em alguns países africanos.

Botswana 35,8%
Suazilândia 25,5%
África do Sul 19,94%
Malawi 15,96%
Moçambique 13,22%

13 milhões de órfãos

Mais que em qualquer outra parte do mundo, a Aids tem deixado na África uma verdadeira legião de órfãos. São aproximadamente 13 milhões, o que corresponde a 95% do total mundial de crianças que perderam os pais ou pelo menos a mãe devido à doença. Em lugares onde o estado não provê o mínimo de assistência, ficam expostas a tudo.

Sob cuidados de parentes, emocionalmente abaladas e sem suporte financeiro, as crianças freqüentemente sofrem abusos sexuais e se prostituem. Em alguns países, devido ao estigma da doença, não podem ter acesso ao sistema de saúde e são barradas na escola.
Na Zâmbia, por exemplo, onde a educação primária não é gratuita, os guardiões geralmente não têm como pagar pelos estudos. Na área rural do país, 68% dos órfãos não têm acesso a nenhum tipo de ensino formal, enquanto entre os não-órfãos esse número é de 48%, segundo relatório da Unaids.
Uma solução para tal situação seria incrementar a rede de assistência dos governos. Mas falta dinheiro. Manter uma criança em uma instituição custa de US$ 300 a US$ 500 ao ano na Etiópia. A renda per capita do país, dados de 1999, é de US$ 100. De três a cinco vezes menor.
“Na África do Sul, que é um país mais rico e estruturado, a capacidade dos orfanatos é de 2,3 milhões. Mas, em 2010, calcula-se que os órfãos da Aids chegarão a 3 milhões, ou seja, mais investimentos serão necessários”, acredita Rob Garner, da YFC.
Para suprir a lacuna deixada pelos governos, várias ONGs têm elaborado programas. Um deles é o de redes de famílias dispostas à adoção. Embora numerosos, os esforços não têm sido suficientes. “Há países que possuem centenas de milhares de garotos que perderam os pais. É impossível dar conta de todos”, esclarece Catherine Phiri, do AidsChannel.



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