O toque desafinado da Marselhesa

A ida de Jean-Marie Le Pen para o segundo turno das eleições presidenciais assusta democratas do mundo todo e se torna um recado duro e claro para a esquerda Por Nicolau Soares  ...

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A ida de Jean-Marie Le Pen para o segundo turno das eleições presidenciais assusta democratas do mundo todo e se torna um recado duro e claro para a esquerda

Por Nicolau Soares

 

A França e o mundo ficaram atônitos com o resultado do primeiro turno das eleições presidenciais daquele país. O candidato de extrema-direita Jean-Marie Le Pen venceu o primeiro-ministro Lionel Jospin, do Partido Socialista (PS), e assumiu o direito de disputar o segundo turno com o conservador Jacques Chirac, do Reagrupamento pela República (RPR). Sua votação no segundo turno foi de certa forma minúscula – mas não importa, ele chegou lá. E o que muita gente se pergunta é: o que aconteceu?

Como um candidato neofascista pode vencer o tradicional e consolidado Partido Socialista francês? Como a França, berço da revolução que simboliza o nascimento do estado moderno, pôde votar em um candidato que, entre outras coisas, chegou a afirmar que as câmaras de gás foram “um detalhe na história da Segunda Guerra”?

Na verdade, parte dos franceses vem votando em Le Pen há algum tempo. Ele está no cenário político desde 1974, sempre com o mesmo discurso, e na década de 90 obteve com constância cerca de 15% dos votos. No último dia 21 de abril teve 16,86%, ou seja, não aumentou significativamente seu rebanho eleitoral. De qualquer forma, alguns fatores explicam sua relativa vitória e a fragorosa derrota do PS.

O aumento da criminalidade foi amplamente explorado por Jacques Chirac como crítica aos socialistas. Isso abriu espaço para Le Pen, que sempre teve como bandeira o equivalente francês a “pôr a Rota na rua”.

Além da violência, o nacionalismo foi outra forte preocupação do eleitorado, segundo observadores. As reformas necessárias para o avanço da União Européia e a adoção da moeda única, o euro, suprimindo o secular Franco (criado no século XIV), foram demais para o orgulho francês. “Houve o fortalecimento desse nacionalismo xenófobo”, explica Rogério Schmitt, cientista político e professor da Escola de Sociologia e Política de São Paulo. “O eleitor sente-se ameaçado pelos estrangeiros e pelos altos índices de violência, o que favorece candidatos com posturas mais nacionalistas, como os fascistas e os trotskistas”, sustenta.

Outro que segue a mesma linha de raciocínio é o jornalista francês Gilles Lapouge, correspondente do jornal O Estado de São Paulo em Paris. Para ele, a população está preocupada com as interferências das decisões na esfera da União Européia na política nacional. Isso cai como uma luva no discurso de Le Pen, que chegou a declarar que a eleição nacional equivale à do estado americano do Kansas, com o último levando vantagem em soberania. “A população caiu nas seduções de Le Pen, que tem um discurso anti-europeu, antiglobalização, antiamericano”, esclarece Lapouge. Schmitt lembra ainda que a França tem tradição nacionalista e sempre rivalizou com a Alemanha na liderança da integração da Europa. “Hoje, a Alemanha leva vantagem, o que acirra os ânimos franceses”, explica. A voz dissonante vem de Christian Lohbauer, cientista político e membro do Grupo de Análise de Conjuntura Internacional (Gacint). Ele não identifica nenhuma influência da União Européia e do Euro no voto em Le Pen. “A moeda única não tem nenhuma relação com o descontentamento francês. O euro é um sucesso e um passo importantíssimo da UE”, assegura.

Lohbauer não acredita que tenha ocorrido uma vitória do fascismo, mas uma derrota do socialismo. “Esse espetáculo de estupidez que foi a divisão da esquerda francesa dispersou os votos que poderiam ter sido de Lionel Jospin”, explica. Além disso, ele vê um fator incontestável: o alto índice de abstenção. Cerca de 28% do eleitorado não compareceram para votar, bem acima do maior índice até então, de 22,41%, que se deu em 1969. Um protesto contra o governo Jospin? Rogério Schmitt não pensa assim. “Não há uma decepção com o governo Jospin, as pesquisas de popularidade mostram uma aprovação elevada”, afirma. “O que há é uma certa apatia: o eleitorado avalia bem o governo, mas não o suficiente para ir votar”, completa.

Esse desinteresse seria fruto do sistema de governo, o raro semi-presidencialismo, existente só em Portugal e na própria França. Criado na constituição francesa de 1958 pelo General Charles de Gaulle, o sistema funciona como o parlamentarismo, em que o chefe do governo é o primeiro-ministro, escolhido pelo Parlamento. Entretanto, mantém a figura do presidente como chefe de Estado, com funções ativas e o poder de dissolver o parlamento, ao contrário do parlamentarismo clássico. Isso torna possível uma coabitação entre um primeiro-ministro de um partido e um presidente de outro, dificultando a governabilidade.

Foi o que ocorreu entre Chirac e Jospin. Os dois protagonizaram a mais longa coabitação da história francesa, que durou cinco anos. Mas não houve grandes conflitos. “A coabitação correu tão bem que pareceu ao eleitorado que os dois partidos se complementam mutuamente, não fazendo muita diferença quem governa”, afirma Schmitt. “É como um casamento que caiu na rotina. O voto em Le Pen foi um protesto contra essa mesmice política.”

Para Lohbauer, a proximidade foi mais que uma aparência. “Para manter a governabilidade, as propostas dos dois partidos se assemelharam muito, gerando desapontamento na população”, afirma. Lapouge concorda: “Os dois decepcionaram muito a França. Chirac é acusado de corrupção e o socialista Jospin foi cada vez menos socialista”. O próprio Jospin afirmou durante a campanha que seu programa de governo não era socialista.
Isso nos leva a uma questão mais geral. A esquerda e a direita estão se aproximando cada vez mais do centro. É um fenômeno natural em política, mas foi ampliado por estarmos em um momento de mudança. “Após o fim do socialismo real, a esquerda ficou sem um programa de governo claro”, explica Lohbauer. “Houve então uma tentativa de modernizar o socialismo na Europa com a chamada Terceira Via. O resultado foi um governo muito parecido com o dos liberais, mas com uma ênfase maior em políticas sociais”, continua.
A tentativa até deu certo do ponto de vista eleitoral. Prova disso é que, na segunda metade dos anos 90, treze dos quinze países da União Européia tinham governos considerados de esquerda, inclusive os quatro maiores, Alemanha (Gerhard Schroeder), Inglaterra (-Tony Blair), Itália (Massimo D’Alema) e França (Lionel Jospin).
Entretanto, um refluxo parece estar acontecendo. Jospin ficou fora do segundo turno. Na Itália, o atual primeiro-ministro é o empresário conservador Silvio Berlusconi, conhecido pelo tratamento que sua polícia dispensou aos manifestantes na reunião do G-8, em Gênova, em julho de 2001, quando Carlo Giuliani foi assassinado com um tiro na cabeça. Na Alemanha, Schroeder não ocupa posição nada confortável nas pesquisas para o pleito de setembro e também já não pode ser apontado como de esquerda. Quanto a Tony Blair, que poderia ser a exceção, suas políticas são classificadas como mais liberais que a de muitos liberais. “As linhas entre esquerda e direita não estão bem definidas na Europa. Na Inglaterra, por exemplo, o ‘esquerdista’ Blair está tão à direita quanto Jacques Chirac”, afirma Gilles Lapouge.
Isso significa uma decepção com a esquerda moderna? Sim e não. “A democracia pressupõe a alternância de poder. Isso é cíclico. Como na segunda metade dos anos 90 praticamente todos os governos eram de esquerda, é natural que ocorra uma onda conservadora”, explica Schmitt. Lohbauer concorda, mas acha necessário que a esquerda encontre opções para se diferenciar mais da direita. “O socialismo francês, por exemplo, está acéfalo, sem lideranças e sem propostas. É preciso que ele renasça com um novo programa”, defende. O mesmo pode-se dizer da esquerda em geral. É importante que encontre novas formas de combater o neoliberalismo, para não abrir espaços para racistas como Jean-Marie Le Pen.
Aliás, falando nele, convém responder a uma última pergunta: o que vai acontecer agora? Em 9 de junho, acontecerá o primeiro turno das eleições legislativas, que definirão a maior bancada e, portanto, o primeiroministro. Apesar de seus 15% de votos históricos, o partido de Le Pen não possui representação no parlamento. Como as eleições legislativas francesas são majoritárias e em dois turnos, partidos com votação dispersa, como a Frente Nacional, são prejudicados. Os analistas, porém, acreditam que Le Pen alavancará votos para seus correligionários, o que deve levar a sua Frente a estrear no Parlamento. “Mas não será nada gritante”, acalma Christian Lohbauer. “Os fascistas vão atrapalhar, mas não vão definir o governo”. Assim seja.

 



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