Os Senhores do Universo e os malucos de Porto Alegre

Para Noam Chomsky, não é novidade o fato de vivemos num mundo de conflitos onde há diversas dimensões e complexidades. Mas, nos últimos anos, confrontam-se de um lado as concentrações de poder estatal e...

214 0

Para Noam Chomsky, não é novidade o fato de vivemos num mundo de conflitos onde há diversas dimensões e complexidades. Mas, nos últimos anos, confrontam-se de um lado as concentrações de poder estatal e privado e, de outro, a população de todo o mundo

Por Edição: Anselmo Massad

 

A exposição do lingüista norte-americano Noam Chomsky foi a mais concorrida da segunda edição do Fórum Social Mundial. Tão disputada pelo público que acabou gerando confusão. Existiam duas salas lotadas e que contavam com telões na PUC-RS e outros telões espalhados na cidade. Na última hora a sala onde Chomsky falaria foi alterada, o que provocou muitos protestos. Depois, veio 1h20 de aula antidominação norte-americana. O que você vai ler aqui é uma seleção, que respeita a ordem do discurso e foi dividida em tópicos para facilitar a compreensão. Para quem não conhece, Chomsky, 73 anos, é judeu-americano e professor do MIT (Massachusets Institute of Technology). É conhecido por suas posições críticas. Considerado por muitos um dos maiores intelectuais de nosso tempo.

Eles que são anti Não é novidade o fato de vivermos num mundo de conflitos, onde há diversas dimensões e complexidades. Nos últimos anos, porém, confrontam-se de um lado as concentrações de poder estatal e privado e, de outro, a população de todo o mundo. O pretexto do conflito muda, mas as políticas permanecem praticamente as mesmas.
E os donos do poder usam de todas as oportunidades possíveis para levar sua agenda adiante. Pode ser um terremoto, uma guerra, ou até mesmo os eventos de 11 de setembro. A crise faz com que seja possível explorar o medo e a preocupação do público para exigir que os adversários sejam submissos, obedientes e distraídos.
O conflito de que falo é simbolizado neste momento pela oposição entre o Fórum Social Mundial, em Porto Alegre, e o Fórum Econômico Mundial, de Davos, que agora acontece em Nova York.
O Fórum de Davos é uma reunião dos ricos e famosos, dos ases do planeta, dos líderes ministeriais e executivos de empresas, dos que realmente tomam as decisões no mundo. Eles dizem que vão pensar profundamente para tentar resolver os problemas da humanidade.
Alguns exemplos: “como vamos incluir valores morais no que fazemos?”. Há um painel chamado “O que devemos comer?”, liderado pelo príncipe da cena gastronômica de Nova York. E os restaurantes elegantes vão estar entupidos pelos participantes de Davos, diz o New York Times.
Há também na mídia americana menções ao Antifórum, no Brasil, onde 50 mil pessoas estão reunidas. Em Nova York são apenas mil pessoas. E vale citar outra frase: “Malucos estão reunidos no Brasil contra as reuniões da OMC”.
São referências interessantes e infantis, é claro. Mas o infantilismo dessa retórica deve ser visto como um sinal de insegurança muito claro. Nós, malucos aqui de Porto Alegre, estamos no Antifórum que se opõe à globalização. Essa é uma qualificação que devemos desprezar.
Isso porque globalização significa integração internacional.
De fato, o Fórum Social Mundial é uma das mais importantes manifestações da esquerda para uma verdadeira internacionalização, vinda de movimentos de trabalhadores e de outros movimentos mais novos. Estamos procurando um programa de globalização que esteja preocupado com as necessidades e interesses do povo e com uma distribuição legítima de poder.
Os magos de Davos, que se consideram modestamente como “a comunidade internacional” (pessoalmente prefiro o termo “Senhores do Universo” usado pelo principal jornal financeiro do mundo, o Financial Times, de Londres), fazem (…) com que a integração internacional seja voltada apenas para seus próprios interesses, enquanto os interesses do povo são apenas incidentes. Com essa formulação ridícula, quem busca uma forma mais justa e decente de globalização é considerado antiglobalização, com estereótipos da Idade da Pedra.

Um mundo sem guerras
Primeiro, temos de lembrar que ou chegamos a um mundo sem guerras ou não haverá mais mundo. Os homens desenvolveram meios para se autodestruir e ficaram bem próximos disso no último século. Para piorar, os líderes do mundo civilizado, numa verdadeira corrida em direção à destruição, parecem dedicados para que isso aconteça.

Mais terrível ainda é que isso foi desenvolvido e implementado em bases irracionais. Para as ideologias e valores dominantes, a sobrevivência é muito menos importante que a hegemonia, e aí está a base fundamental dos programas de militarização do Estado, aprofundados após os eventos de 11 setembro de 2001. As conseqüências de ter a guerra acima de questões como energia, água e outros recursos podem ser devastadoras.

Sabemos que não haverá guerras entre as grandes potências, porque, se essa previsão estiver errada, não haverá ninguém para contar a história. No entanto – e muito mais relevante para nós -, o ativismo popular nas grandes e ricas sociedades não aceita mais agressões prolongadas contra inimigos indefesos. O ataque ao Vietnã, com a morte de milhares de pessoas, causou aumento do ativismo na década de 60 dentro dos EUA, formando uma forte oposição à agressão e ao massacre.

Restou à administração do presidente (Ronald) Reagan recorrer ao terrorismo de Estado internacional, em vez de simplesmente invadir a América Central com tropas, seguindo o modelo Kennedy/Johnson. Além disso, desde então, as guerras têm seguido um padrão definido pela revisão – pouco divulgada pela imprensa – do setor de informações e inteligência ocorrido no governo de George Bush (pai) em 1989. Só pode haver conflitos contra inimigos mais fracos, afinal, são os únicos com quem alguém iria querer combater. Mas nesses conflitos, a vitória deve ser decisiva e rápida. Qualquer outra coisa seria vergonhosa e causaria a perda de apoio popular.

Essa mudança vem num momento em que seria muito difícil deixar de reconhecer que o inimigo soviético estava enfrentando problemas internos muito sérios e que, talvez, não fosse mais uma ameaça crível.
Foi o que levou, na década de 80, a administração Reagan a declarar guerra contra o terror. Era o novo feito da política externa americana, particularmente para a América Central e o Oriente Médio.

O interessante é que os dirigentes militares e diplomáticos da nova guerra contra o terror são os mesmos que implementaram atividades terroristas na América Central e no Oriente Médio.

Por isso, é justo supor que a guerra travada contra o terror vai servir como pretexto para as novas intervenções e guerras que estão por vir na América Latina.

Terrorismo?
A guerra travada contra o terror tem sido o principal foco de atenção dos jornais e do mundo acadêmico. Uma das características interessantes dessa inundação de comentários é que nunca definem o que é de fato terrorismo.

Existem definições bastante simples e diretas que podem ser encontradas em documentos do governo americano dos últimos vinte anos. Uma definição encontrada no manual do Exército é “o uso calculado da violência para atingir metas políticas, religiosas ou ideológicas na sua natureza”. É um conceito bem apropriado, mas (…) a definição oficial do terror é virtualmente igual à das políticas diplomáticas americanas do contra-terrorismo (…), mas felizmente existe uma solução fácil para os donos do poder: “Terrorismo só é terrorismo se for praticado contra nós”. Os generais na América do Sul protegiam a população dos terroristas; os japoneses estavam protegendo sua população do terror da China; os nazistas protegiam os alemães contra o terror e contra a Europa ocupada. Se existe alguma exceção a esta definição de terror, nunca encontrei.

Falso boom americano
A versão da globalização projetada pelos Senhores do Universo tem o apoio da elite nos acordos de livre comércio – honestamente chamados pelo Wall Street Journal de “Acordos de Investimento sem Restrições”. Muito pouco é divulgado sobre o conteúdo desses acordos, porque os Senhores do Universo sabem que muitas pessoas vão se opor (…) se essas informações forem publicadas.

Tanta oposição a esse tipo de globalização parece estranha, já que a globalização levou à “prosperidade sem precedentes” – particularmente nos EUA, em sua economia de conto de fadas. Para a imprensa, durante a década de 90, os EUA desfrutaram do maior boom econômico da história, ainda que alguns fiquem para trás nesse milagre econômico. “Nós, pessoas preocupadas, temos de ajudar esses pobrezinhos”, dizem eles. As falhas do modelo são um dilema para o rápido desenvolvimento trazido pela globalização. Concomitantemente, a desigualdade cresce pela carência de habilidades de alguns em desfrutar as oportunidades maravilhosas desse sistema.

Essa é uma convenção tão aceita que é muito difícil perceber que é falsa. Na década de 90, o crescimento per capita nos EUA foi o mesmo da Europa e menor que em outros períodos – como nos 25 anos posteriores à Segunda Guerra Mundial ou no começo da globalização e, principalmente, durante a Segunda Guerra (este sim o maior boom dos EUA, com a economia comandada pelo Estado).

O que explica a ampla aceitação dessa idéia é que para um pequeno setor da sociedade os anos realmente foram de boom econômico. Esse pequeno setor inclui aqueles que contam ao resto as notícias maravilhosas. Na verdade, eles não podem ser acusados de desonestos, já que não têm nenhuma razão para duvidar do que estão dizendo.

Previsão de mais guerras
Interpretação mais técnica da globalização seria uma convergência do mercado global: preços únicos e salários únicos, o que certamente não aconteceu ainda. Com relação à renda, é o oposto que se vê, com desigualdade entre os países e dentro deles.

Os EUA, juntamente com seus acadêmicos, liberaram um relatório com previsões para os próximos quinze anos. Eles prevêem que a globalização vá seguir o seu curso, com sua condução sendo marcada por uma volatilidade financeira crônica e divisão econômica mundial muito grande, que levará a abalos. Isso significa menos convergência e globalização em seu sentido original, porém mais globalização no sentido doutrinário do termo. A volatilidade significa crescimento econômico mais lento, mais crise e mais pobreza.

Neste momento, há uma clara conexão entre a globalização dos Senhores do Universo e a possibilidade de guerras. O problema é que os planos militares adotam publicamente as mesmas previsões. São essas expectativas que estão por trás da grande expansão de armamentos, mesmo antes do 11 de setembro. (…) Os ataques terroristas foram usados apenas para aumentar esses gastos.

Como guardião da ordem mundial, os EUA precisam ser o líder nessa reação. Torna-se necessário o aumento da militarização do espaço aéreo – que viola o tratado de 1987 (…). Quase nada disso sai nos jornais, e por uma boa razão. Não é sábio permitir aos cidadãos saber das ideologias da alta inteligência.

Anticapitalistas
A gente aprende no curso de economia que o comércio leva à especialização, o que diminui as possibilidades de escolha. A especialização também levaria ao desenvolvimento. (…) Mas se as colônias americanas tivessem sido forçadas a aceitar esse regime há 200 anos, a região de Nova Inglaterra, onde moro, estaria agora exercitando a sua vantagem comparativa, e não exportando produtos têxteis, mas sobrevivendo através de tarifas. E vemos a mesma coisa em outros setores, como o do aço, em que se vê a presença do protecionismo durante o período de Reagan.

As atuais regras da OMC são um entrave para o desenvolvimento. O que agora é proibido pela OMC foi usado por todos os países ricos para prosperar. Nesse sentido, podemos dizer que o Fórum de Davos é até bastante anticapitalista, se capitalismo significa o mesmo que nos últimos 200 anos, incluindo regras que permitiam protecionismo para os ricos. Refiro-me ao sistema de patentes, que oferece proteção às corporações, permitindo acumular lucros absurdos através da imposição de preços monopólicos.

Fraude eleitoral
Mesmo nos países ricos a democracia está sendo atacada. Houve uma mudança no poder decisório, este saiu das mãos dos governos – que de certa forma respondem à população – e passou para as tiranias privadas.

A continuidade da democracia formal na América Latina vem sendo acompanhada de desilusão por parte da população. É uma tendência que vem se perpetuando. Um estudo recente revela que (…) praticamente metade da população não faria objeção a um sistema militar. Há uma tendência que relaciona o declínio das forças econômicas com a falta de fé nas instituições democráticas.
Isso acontece também nos EUA. Nas eleições roubadas de novembro de 2000 houve uma surpresa em relação à reação do povo, que não estava nem aí. Eleição era coisa de intelectual. (…) Na véspera das eleições, três quartos da população já pensavam em todo o processo como uma farsa, um jogo dos grandes contribuintes, dos líderes dos partidos e dos setores industriais. Esses grupos moldam os candidatos para que digam qualquer coisa a fim de serem eleitos, de tal forma que ninguém acreditava no que diziam.

Estudo feito pela universidade de Harvard sobre atitude política verificou antes da eleição que o sentimento de impotência entre os americanos tinha chegado a níveis alarmantes. E isso aumentou durante o período neoliberal.

Propositalmente, o pessoal do marketing dirige as atenções apenas para as qualidades pessoais dos candidatos, e não para as questões principais. O que acontece é que a população rica vota de acordo com os interesses de sua própria classe, enquanto o público em geral acaba votando baseado em vários contextos distantes de seus próprios interesses.

Vemos aqui uma atitude bastante clara em relação aos dois partidos existentes nos EUA. Os líderes empresariais dizem que é preciso impor à população uma filosofia de futilidade e de falta de propósito na vida para que haja concentração da atenção humana em coisas superficiais, que incluem itens de consumo que estão na moda.

Não precisamos aceitar essas razões. E aqueles que se preocupam com o futuro da humanidade podem seguir um caminho muito diferente. Reuniões como o Fórum são extremamente importantes. O futuro está na mão dessas pessoas que fazem esses movimentos que ninguém pode subestimar.

Tradução: Eduardo Karpat



No artigo

x