Tudo na brincadeira

O Fórumzinho reuniu mais de 2.500 crianças e foi um laboratório para começar a pensar um novo mundo a partir do desejo e da visão de quem vai habitá-lo Por Luciana Ackermann  ...

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O Fórumzinho reuniu mais de 2.500 crianças e foi um laboratório para começar a pensar um novo mundo a partir do desejo e da visão de quem vai habitá-lo

Por Luciana Ackermann

 

Habitantes da Terra! Estamos correndo perigo de vida! A eminência de uma catástrofe ecológica está rondando o nosso planeta. O grande acúmulo de resíduos sólidos gerados nos meios urbanos está transformando nosso meio-ambiente num grande cocosão. Mas se vocês não sabem o que fazer, não entrem em pânico, chamem os Reciclo Brothers. Esse foi um dos trechos da peça encenada numa das tardes do Forumzinho. Ali, haviam quatro super-heróis dispostos a varrer todo o chorume espalhado na terra, a proteger o ser humano e o meio-ambiente. O galã Reciclo Power é responsável pelo papel reciclável. Dessa forma, impede que novas árvores sejam cortadas. Gordinha e sensual, a Reciclo Girl tem o corpo preparado para atrair e detectar toda a forma de material orgânico para decomposição. Vencedora de várias batalhas com os sujões, a Reciclo Box mostra onde cada lixo deve ser colocado. Já o Capitão Cain Horrivers é o mentor do grupo, que ensina quais são os tipos de lixo recicláveis e como se livrar de maneira correta de materiais perigosos como vidros cortados e pilhas velhas. Então já sabem: onde houver papel de pirulito melado ou cascas de banana misturadas com papéis, chamem o Reciclo Brothers.
Foi com essas propostas que os heróis conquistaram o público e contagiaram a criançada no Forumzinho, que reuniu mais de 2.500 crianças e 800 oficineiros no FSM 2. Lá se buscou, como anuncia a carta de princípios, “permitir que as crianças participem efetivamente da construção de um outro mundo possível, numa forma de organização que lhes é própria, sem linhas de pensamento, divisões étnicas, econômicas e geográficas ou movimentos organizados de luta. Crianças unidas na pura e simples troca de experiências, com possibilidade de manifestarem suas idéias por si mesmas”.
O evento teve dois eixos: o meio ambiente e a pluralidade social. E não foi realizado com o objetivo de formular conclusões sobre os temas trabalhados, mas com a intenção de colher frutos das oficinas e brincadeiras, onde as crianças apontaram como percebem e se relacionam com o mundo.

Projeto pedagógico Valéria Viana uma das educadoras que idealizou e coordenou o Forumzinho diz que “a partir do produto gerado pelas crianças, os educadores e teóricos deverão pensar estratégias para melhorar o ensino e o trabalho com a arte-educação. Aprendendo como tratar melhor a infância. Muitas crianças disseram como a escola deveria ser: um ambiente lúdico e de aprendizagem, em que se trocam experiências e conhecimentos. No que depender da gente, faremos o possível para atendê-las”.
Fotos, resumos dos trabalhos e seus produtos estão sendo organizados para serem expostos no sitio do Forumzinho (www.forumzinho.pale gre.com.br), que está sendo reestruturado, para que um maior número de pessoas tenha acesso aos trabalhos realizados e conheça como cada oficina foi pensada. Também será formado um grupo de estudos para analise e discussão das questões que surgiram no evento. “O trabalho de arquivo e memória, o grupo de estudo e novos projetos serão a nossa resposta ao que foi feito lá pelas crianças”, resume a educadora.

Menos violência
Olhares curiosos, perguntas ingênuas, risadinhas diante da descoberta e o prazer de estar naquele espaço pra lá de lúdico eram perceptíveis. De alguma forma, todos mostraram o forte desejo de viver um mundo melhor. Questionado sobre como seria, André, 7 anos, após alguns segundos de silêncio, respondeu: “Um mundo sem violência e sem criança morando na rua”.
Outro que dá sinais de que está insatisfeito com a violência é Jonatan, 10 anos. Filho de uma das voluntárias que trabalhou como copeira durante o encontro, diz que escolheu a oficina de capoeira para não apanhar dos grandes. “Eu não quero ser briguento, não, mas agora aprendi a me defender. Mais tarde vou participar da oficina de dobradura, acho que vai ser legal. Ô, isso até parece um sonho, viu tia?”
O espaço realmente parecia mágico. De um lado tinha a Tia Sucatia, em sua linda casinha toda construída com materiais recicláveis. De outro, o Bamboneco fazia as honras da casa e recebia as crianças com uma série de ensinamentos sobre o meio ambiente, respeito e paz. Ele carregava um Bamboneco miniatura todo feito por pedaço de embalagens já utilizadas como garrafa de água sanitária. Ali, conduzia as crianças à Árvore dos Protestos. Cada criança aprendeu o significado da palavra protesto e manifestou o que mais lhe desagradava.
Também havia o palco, onde rolava muita festa, um enorme circo de lona, montado no pátio externo, o Cantinho da Tatto e as mesas de pingue-pongue e pebolim. As feiras do livro e de brinquedos artesanais, o anfiteatro, o espaço com computadores e a cantina.
Cada um embarcava na proposta que lhe parecia mais interessante. Odara, 6 anos, em plena sintonia com a discussão sobre meio ambiente, deliciou-se em meio às tintas verdes e às árvores enormes desenhadas em um lençol estendido no chão que após sua confecção foi usado como cenário de uma peça teatral. Firme, avisava: “As minhas árvores e as da minha amiga e de todos que estão aqui pintando ninguém vai derrubar”.

Intercâmbio e voluntariado Foram muitos os momentos de enorme beleza e riqueza vividos no Forumzinho, como o em que crianças em situação de rua contavam sua história enquanto outras ouviam atentas os relatos. Mesmo sem compreender os porquês da crueldade do fato, percebiam que muitas pessoas não têm o básico para viver e de que algo precisa mudar.
Valéria Viana avalia que no Forumzinho foi possível comprovar a força do voluntariado. “Por e-mail e telefonemas organizamos um evento que mobilizou cerca de 800 pessoas, entre oficineiros, voluntários e artistas. A expectativa de público era, no máximo, de 2.000 crianças, tivemos mais de 2.500 cadastradas e no último dia, não cadastramos mais nenhuma porque já não tínhamos crachás! O Forumzinho foi todo pensado e feito por um grupo de apenas cinco pessoas. Nossos monitores, que foram fundamentais, vieram nos últimos vinte dias. O resultado foi extremamente positivo: mobilizamos as pessoas, as crianças compareceram e mostraram, sem sombra de dúvida, que elas estão mais que dispostas a construir juntas o outro mundo possível que todos queremos.”



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