Niemöller para nosso tempo

Primeiro rifaram os índios. Não me importei, pois não sou índio. E a indústria precisa da energia Em seguida, as mulheres e seus direitos reprodutivos. Não me importei,...

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Primeiro rifaram os índios.

Não me importei, pois não sou índio.

E a indústria precisa da energia

Em seguida, as mulheres e seus direitos reprodutivos.

Não me importei, pois não sou mulher.

Era meio impopular, defender aborto.

Depois foi a vez dos negros.

Não me importei, pois não sou negro.

E o que é um livro racista na escola ante a eleição na cidade maior?

Daí rifaram os lavradores.

Não me importei, pois moro na cidade.

E as exportações de soja me subsidiam a gasolina.

Na sequência foram os jovens geeks e hackers.

Não me importei, pois uso Windows.

E devíamos mesmo uns favores à classe artística.

Largaram os sobreviventes e enlutados.

Não me importei, pois não perdi ninguém na ditadura.

E alguns aliados tinham lá seus ossos no armário.

Daí rifaram gays e lésbicas.

Não me importei, sou hétero.

E afinal, o que era a lei ante a multidão de eleitores conversos?

Quando me rifaram

Não havia mais quem (se) importasse.



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13 comments

  1. Claudio Roberto Basilio Responder

    Genial, Professor Avellar!

  2. Vila Vudu Responder

    Professor,

    Veja o livro que está em http://boatfire.blogspot.com/2011/04/beach-beneath-street.html e em http://www.versobooks.com/books/980-the-beach-beneath-the-street — o Pepe Escobar fala dele, hoje.

    Quem sabe você traduz? Será que nenhuma editora brasileira se interessaria? (Eu sei que é possível que não, eu sei, mas… estou sempre tentando).

    Abs. Vila Vudu

    1. Idelber Responder

      Camaradas, deu até água na boca, mas traduzir livro inteiro tá um pouquinho além das minhas possibilidades no momento… Traduzo uma ou outra coisinha aqui pra Fórum, mas livro inteiro fica difícil.

      Mas valeu a dica, eu vou dar o toque num par de editoras com as quais tenho contato, quem sabe rola. Abração.

  3. hugo perpétuo Responder

    Muito Bom!

  4. Gustavo Rabello Responder

    É possível escrever longos textos com argumentos perfeitos e encadeados sobre o assunto, mas sem conseguir produzir essas imagens que explicam. Mandou bem. Isso sem contar a referência histórica…

  5. aiaiai Responder

    Puxa mestre,

    Levar a discussão para a comparação com o nazismo, não é algo q eu esperava de você.

    1. Idelber Responder

      É sério que você acha que este texto compara o Brasil de hoje com a Alemanha nazista? É sério mesmo que você acha isso?

      Referências intertextuais não pressupõem igualdade entre o contexto da citação e o contexto do texto citado, aiaiai.

      1. aiaiai Responder

        Fico feliz em ver que eu estava errada. Obrigada pelo esclarecimento, mestre.

        1. Idelber Responder

          Eu só peguei um gancho mesmo, aiaiai. Um beijo pra você :)

  6. Elton Flaubert Responder

    Ao invés de tentar convencer os Evangélicos do Acre de que o Estado é laico, e deve ser assim, preferem agradá-los criando com dinheiro público um Parque Gospel. Política exige uma dose de pragmatismo. Mas quando o que importa é SÓ conseguir o voto, a democracia transforma-se na igualdade abstrata do valor. Ou seja, política para consumo: modele o produto (candidato) de acordo com os desejos do consumidor (eleitor). Claro que importa saber os desejos da maior parte da população, do mesmo jeito que importa também convencer sobre sua posição.

    Isto diz muito sobre o abandono ao trabalho de base no PT: “Ideias? Para que tentar convencer assim? O que convence mesmo é emprego, dinheiro, etc.”. Não deixa de ser importante a melhoria das condições mínimas materias da população (não joguemos o bebê junto com a água suja). Mas os princípios do partido são meramente econômicos? Construir com dinheiro público parque gospel para agradar eleitores de determinada religião significa ferir os princípios do partido e do Estado. Quando o pragmatismo não tem limites, “age por si mesmo” (agradar o eleitor pura e simplesmente), vira fetiche. A lógica vem de fora e o partido perde substância. E o que é pior: trata política como mercado, e democracia como igualdade abstrata do valor (político).

  7. Nivaldo Lemos Responder

    Belo poema, Avelar. Mas, por justiça, o título mais apropriado – se me permite – poderia ser “Eduardo Alves da Costa para nosso tempo”, visto que inspira-se nitidamente em “No caminho com Maiakóvski”, algumas vezes atribuído ao poeta russo, outras ao pastor Martin Niemöller, mas que na verdade foi escrito pelo poeta niteroiense. De qualquer forma, o poema é ótimo e todos o assinariam com orgulho, tenho certeza. Abraços.

  8. fm Responder

    Muito bem adaptado, Idelber,
    Só por curiosidade, não há um fragmento do poema ‘No caminho’ de Maiakowski que é bem parecido com o poema de Niemöller? E também tem aquele ‘Intertexto’ de Bertold Brecht.

    Abs

  9. delley landal Responder

    Ótimas linhas de reflexão!!! Muito bom, parabéns pelo texto.


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