A ausência de um projeto de nação

O desenvolvimento de uma estratégia econômica que tenha como missão incluir os milhões de sub-cidadãos barbarizados socialmente pela incúria do Estado deve priorizar um modelo de auto-sustentação nacional Por Helio Santos  ...

903 0

O desenvolvimento de uma estratégia econômica que tenha como missão incluir os milhões de sub-cidadãos barbarizados socialmente pela incúria do Estado deve priorizar um modelo de auto-sustentação nacional

Por Helio Santos

 

A história republicana brasileira desconhece a existência de um projeto consistente que cuide de sanar o que a escravidão construiu aqui com zelo ibérico: a exclusão. O que tem prevalecido é a tese pasteurizada do mudancismo. No Brasil, os governos se sucedem prometendo mudança. Mudança pelo desejo de mudar, o que nunca se efetiva, porque não se sabe efetivamente o que, como e para quem as mudanças devem fluir.

Nossos problemas estruturais continuam sendo de cunho político. Todavia, a complexidade e o tamanho deles alteraram de tal monta o ambiente social que fez com que a escolha do modelo operacional – aspecto tão caro aos cientistas da administração – passasse a ser o elemento chave do teorema da governança pública. Portanto, chegou a hora de dizer adeus à velha desculpa que aponta para a “falta de vontade política”, jargão que se revela insuficiente e que é repetido às escâncaras. Além de vontade política é crucial desenvolver o modus operandi que dê conta de romper com uma assimetria secular representada pela exclusão renitente de um terço dos brasileiros.

Por outro lado, chama a atenção a dificuldade da intelectualidade em desmascarar a falta de um projeto nacional autóctone que seduza e inspire o país a desenvolver e construir uma democracia substantiva. Um projeto que tome em conta nosso imenso potencial geoeconômico e humano, onde o vetor étnico e cultural possam fornecer a energia que possibilite aquela construção.

O mundo intelectual não propõe, porque lhe falta vocação para decifrar nossas ambigüidades estruturais. Observa-se aí uma espécie de anestesia que contamina um setor que, por dever de ofício, deveria se esmerar em decodificar os sinais que desmontam a exclusão no Brasil. Tem-se na maioria das vezes uma simplificação patética que aponta a dependência externa, a globalização, a crise sistêmica do capitalismo volátil, a corrupção, a baixa escolaridade, a violência e outros componentes críticos que nos barbarizam. Efeitos e causas se amontoam aleatoriamente numa clara evidência de falta de densidade.

Omitem-se sempre os consensos internos de nossa exclusiva responsabilidade, os quais consolidam uma exclusão já cristalizada. Falar em desenvolvimento puro e simples sem formular antes uma nova cultura do desenvolvimento a ser empreendida, soa como um sofisma num país onde uma em cada três pessoas vive abaixo das condições mínimas de sobrevivência. Esquece-se que por cerca de 50 anos o Brasil foi um dos países que mais cresceu no século XX, saiu de uma economia modesta e rural nos anos 30 para uma industrialização que o colocou entre os mais ricos do mundo. É bom lembrar: o Brasil cresceu excluindo, o que revela uma atipicidade compreensível por se tratar de ex-colônia ibérica, onde a manutenção dos privilégios é regra de ouro, fundada sob o signo da escravidão.

Não reconhecer ainda que o desemprego estrutural que temos exige uma política econômica nova, que seja capaz de impulsionar quem foi historicamente desvalorizado, é máfé ou desconhecimento do que sempre fomos. Bater prego com serrote e serrar madeira com martelo vem sendo a tônica adotada no Brasil, cuja pobreza não se confunde com aquela que um dia existiu na Itália ou na Inglaterra. As ferramentas não se ajustam ao trabalho a ser empreendido.

Um projeto de nação brasileira requer que a inclusão passe a ser um ideal obsessivo a ser conquistado. Para tanto, falta desenvolver o que denominamos tecnologia da inclusão, constructo multidisciplinar que envolve mais do que tecnalidades de cunho econômico, considerando também as de ordem psicológica e cultural. A ausência de um projeto de nação se vincula ainda à identidade nacional, tema não debatido em profundidade porque esbarra nos ideais étnico-culturais inconfessos de uma elite imersa num mega-complexo de inferioridade, resultante de uma miscigenação não integradora, iniciada nove meses após abril de 1500.

O desenvolvimento de uma estratégia econômica, que tenha como missão incluir os milhões de sub-cidadãos barbarizados socialmente pela incúria do Estado, deve priorizar um modelo de auto-sustentação nacional. Não nos referimos a uma espécie de mutirão social, tão ao gosto da gestão pública “meia-boca”, ditada pelo oportunismo e filha dileta da breguice política, que campeia solta como praga sistêmica. A falta de paixão observada no opaco cenário político brasileiro – hiato presente desde a campanha das Diretas-Já e se agrava cada vez mais – parece decorrer da incapacidade das lideranças (políticas, sindicais e intelectuais) em induzir uma sinergia nova capaz de despertar o sonho que embalou a minha geração: o de construir um país justo.



No artigo

x