A casa do Hamas

Quarta-feira, dia 14 de abril, em Washington, capital dos EUA. O primeiro-ministro israelense Ariel Sharon anuncia um novo plano para a paz na região. O desengajamento – retirada unilateral de tropas e assentamentos –...

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Quarta-feira, dia 14 de abril, em Washington, capital dos EUA. O primeiro-ministro israelense Ariel Sharon anuncia um novo plano para a paz na região. O desengajamento – retirada unilateral de tropas e assentamentos – da Faixa de Gaza. O anúncio é feito em Washington para os ouvidos receptivos do presidente George W. Bush.

Por Anselmo Massad

 

Quarta-feira, dia 14 de abril, em Washington, capital dos EUA. O primeiro-ministro israelense Ariel Sharon anuncia um novo plano para a paz na região. O desengajamento – retirada unilateral de tropas e assentamentos – da Faixa de Gaza. O anúncio é feito em Washington para os ouvidos receptivos do presidente George W. Bush.
Sábado, dia 17 de abril, em torno das 20h30, cidade de Gaza. O Subaru branco, pelo qual Abdul Aziz Rantissi transita, cruza a rua Al-Lababidi, próximo ao centro de Gaza. Um míssil disparado de um helicóptero Apache do exército de Israel acerta o automóvel em cheio. Dois guarda-costas morrem na hora. O pediatra egípcio de 57 anos, co-fundador do Hamas, morre no hospital pouco tempo depois. Quatro civis que passavam pelo local ficam feridos. Três dias depois, no local da explosão, restam manchas escuras e pedaços da borracha dos pneus incrustadas no asfalto. Nos 10 dias que se seguiram, quase três dezenas de pessoas foram mortas.
Foi uma declaração clara de que o plano de desocupação unilateral nada tem que ver com fraqueza, mas com uma decisão política. Estima-se que pelo menos 4 mil soldados israelenses mantenham a região sob controle, o que torna permanecer ali uma operação cara demais, em termos econômicos e humanos. Mesmo assim, o Likud, partido do governo, rejeitou a proposta num referendo interno, com quase 60% dos votos. Ainda que a maioria da população fosse favorável à cassação do mandato de Sharon por denúncias de corrupção (já arquivadas), pesquisas apontaram que 60% da população aprovou o assassinato de Ahmed Yassin, líder espiritual do Hamas em 28 de março.
A Faixa de Gaza é um território separado da Cisjordânia e por isso fica isolado do restante dos territórios palestinos. Há três saídas: o Mar Mediterrâneo, o Egito ou Israel. Para o último caso, sair dali exige tempo e disposição. O controle da fronteira é extremamente rigoroso. O ministro das Relações Exteriores da Palestina Nabel Shaath mora em Rafah, ao sul da região, e tem de ir até Ramallah pelo menos uma vez por semana. Dois dias após o assassinato de Rantissi – e a promessa de retaliação 100 vezes maior feita pelo Hamas sem novo líder – o desafio aumentou ainda mais. Shaath conta que chegou às 7h para atravessar a fronteira. Duas horas de espera depois, foi informado de que a passagem estava fechada e que seria avisado por telefone assim que o desbloqueio ocorresse – uma atenção especial para um ministro de Estado. Quando foi contatado, às 10h, esperou outras duas horas para passar. O dado curioso é que ele circula entre os soldados e é cumprimentado por vários deles, conhecido do lugar. E o simples fato de ele, sendo palestino, conseguir passar, mostra que detém grande regalia.
Situação ainda pior vive Sofyan Abdallah Al-Agha, prefeito Prefeito da cidade de Rafah. Ele foi até Ramallah, na Cisjordânia, para compromissos oficiais, na semana em que antecedeu o assassinato de Rantissi e, por causa das medidas de segurança e restrição de trânsito para acessar a Faixa de Gaza e mesmo circular por ela, teve de esperar por mais de 10 dias antes de poder retornar ao gabinete. “Se Israel mantém (Yasser) Arafat, que é o presidente (da Autoridade Nacional Palestina) na condição em que está, o que não fariam com um prefeito?”, indigna-se Al-Agha.
Até a ONU tem dificuldades para levar pessoas e alimentos à região. Ela promove assistência humanitária em toda a Palestina, mas com mais intensidade em Gaza. Desde o assassinato de Yassin, o exército israelense não permite que os alimentos cheguem à região, alegando que extremistas estariam se escondendo em contêineres da ONU para entrar em Israel. Por falta de abastecimento, a ajuda foi suspensa no final de abril.
O grupo de brasileiros, acompanhado do embaixador do país em Israel (sediado em Tel-a-Viv e com jurisdição sobre toda a região), levou quase duas horas para passar. Uma carta enviada pelo Ministério das Relações Exteriores de Israel avisava dos riscos de se entrar em Gaza, especialmente para os jornalistas. Ao conseguir a aprovação do grupo, um soldado recomendou que, por garantia, a delegação não chegasse ao posto depois das 17h, quatro horas antes do encerramento das atividades. E completou: “a partir daqui, não garantimos mais nada”.
Gaza vive sob tensão. Há mais ataques israelenses, crise econômica mais profunda e mais extremismo religioso. As plantações de laranja – financiadas pela União Européia – e outras áreas de cultivo agrícola foram destruídas mais de uma vez. “Replantar essas árvores é a maior forma de resistência dos palestinos aqui”, orgulha-se Izzedin Abusafiya, diretor-geral do parlamento palestino em Gaza.
O exército de Israel não concorda, e dá mais atenção aos grupos extremistas – sem deixar de destruir as áreas de cultivo antes da colheita. O muro ainda não chegou lá, mas são 19 barreiras de controle restringindo a circulação de 1,4 milhão de pessoas. A crise econômica atinge mais fortemente a região do que a Cisjordânia. O desemprego beirou os 50% em 2002 e fechou 2003 em 31,5% (segundo o Palestinian Central Bureau of Statistics) e 75% da população está abaixo da linha de pobreza (dados de 2003 do Banco Mundial).
São 7,5 mil assentados só na Faixa de Gaza. Por toda a região, bandeiras verdes (do Hamas), pretas (da Jihad Islâmica) e amarelas (da Brigada dos Mártires de Al-Aqsa) com inscrições em árabe se revezam ou coexistem sobre mastros posicionados a cada 10 metros nas calçadas de algumas ruas. Cada cor representa um dos movimentos extremistas e sua presença indica que o local é reduto de um ou outro grupo. Na torre de cada mesquita, uma bandeira identifica qual a linha do Imã local. A maioria é claramente do Hamas. Nas paredes e muros das cidades, cartazes trazem fotos de mártires (muitos deles com armas em punho) e um texto em árabe explicando sua ação e sobre o alvo dos ataques.
Ao entrar na Faixa de Gaza, o grupo foi informado de que não poderia ir a Rafah, ao sul, conhecer o bairro Brasil – nomeado em homenagem aos funcionários de uma empreiteira brasileira que moraram no local durante a construção de uma estrada. A cidade estava sob ataques de helicópteros Apache e o próprio bairro estava já em ruínas. O mesmo valia para Beyt Hania, ao norte da Faixa de Gaza.
Uma escolta de 12 carros e pelo menos 20 homens foi formada para conduzir a delegação brasileira. A cada parada, policiais armados com fuzis se espalhavam pelo local para garantir a proteção dos estrangeiros. O motorista de um dos carros, membro da inteligência da polícia de Gaza e candidato assumido a mártir (ou homem-bomba), explicou que todo o corpo policial era voltado para proteger o grupo de eventuais ataques de extremistas islâmicos. O risco era baixo, segundo ele, já que as lideranças do Hamas ou da Jihad Islâmica não têm interesse em atacar observadores internacionais e mesmo membros da Autoridade Palestina, mas sempre pode haver membros (armados) “descontrolados”. “Mas se um F-16 ou um Apache quiser nos atacar, não poderemos fazer nada”, antecipou. Felizmente, o exército israelense esperou a saída da delegação.

Cemitério de mártires
O cemitério de Gaza – o único que restou após o bombardeio do cemitério de mártires na cidade por caças F-16 – abriga todos os líderes e membros do Hamas, assim como civis mortos pelas forças de ocupação israelenses. Dois dias antes da visita, Rantissi havia sido enterrado por um cortejo de dezenas de milhares de pessoas. Seu corpo enrolado na bandeira verde do Hamas percorreu a cidade numa demonstração retratada pela mídia do mundo todo, num misto de revolta e festa, com militantes exibindo armas pesadas e prometendo vingança.
O governador da província, Abusafiya descreve os túmulos, aponta o de Ahmed Yassin (líder espiritual do grupo, paraplégico, assassinado no dia 22 de março, com três mísseis disparados de um Apache ao sair de uma mesquita após as orações matinais) e o de Rantissi, um a quatro metros do outro.
Na região, os muçulmanos costumam plantar mudas nos túmulos logo após o enterro como forma de homenagear o falecido. Na maioria dos túmulos (de pessoas comuns, ou melhor, que tiveram morte natural, em sua maioria) a característica é semelhante à dos jazigos cristãos, uma pedra moldada identifica o local do enterro e há inscrições relatando o nome, data de morte e nascimento. Eventualmente, no caso dos mártires (homens-bomba ou pessoas mortas por Israel), há dados sobre a forma de morte.
Na sepultura de Rantissi, duas mudas encharcadas de água. No de Yassim, apenas uma disputava lugar com uma pedra de mármore. A cada grupo de estrangeiros que se aproxima, crianças que regam e cuidam das plantas se aglomeram para posar para fotos e saber do que se trata. Os representantes da Autoridade Palestina dão explicações sobre os túmulos. Apontam um no qual, em julho de 2002, três pessoas (dois homens e uma mulher) foram enterradas juntas porque estavam dentro de um prédio bombardeado por caças F-16. Como restaram apenas pedaços dos corpos e partes grudadas, eles foram colocados num mesmo sepulcro.
Depois de cerca de 15 minutos de observações, o grupo sai dali por segurança. Uma multidão se aproximava para o enterro de 11 pessoas mortas nas 36 horas anteriores em Gaza. A quantidade de pessoas era certeza de desencontros. Como quem saúda a retirada, quatro caças F-16 sobrevoavam o cemitério, indo para o sul da região, possivelmente para Rafah que estava sob ataque.

Onde está o Hamas
Em Gaza, o desafio era encontrar uma liderança do Hamas. Depois da morte de Rantissi, o grupo anunciou que o nome da nova liderança não seria divulgado, já que isso representaria uma sentença de morte ao indicado.
– Onde encontro alguém do Hamas?
– Você quer alguém do Hamas? – devolve um membro da inteligência da polícia palestina em Gaza. – Eu sou do Hamas. Ele também, e aquele outro – apontando para vários integrantes da escolta que acompanhava a comitiva de deputados.
Apesar de os líderes do grupo extremista não falarem, não é difícil encontrá-los. Apesar de ser uma organização inimiga e perseguida por Israel, os líderes do grupo não vivem na clandestinidade, têm endereço e hábitos conhecidos pela população – que atualmente não os revela facilmente para estrangeiros. A popularidade do Hamas e dos outras milícias é muito alta na área. Na saída de uma universidade para mulheres, uma estudante de Física, toda coberta com uma burca azul escura e um véu preto, tenta explicar o que pensa.
Falando um árabe refinado, e admitindo que a guerra também passa pela questão da terra, ela considera Bush e Sharon os maiores expoentes de uma guerra do Ocidente contra o Islã. “Na Palestina o conflito é mais forte porque a questão é mais antiga”, garante. Assim, os mártires não morrem, apenas vão desta vida material, que nada vale e é cheia de sofrimentos, direto para o lado de Deus (ou Alá). E ainda que os governos dos outros países árabes, por não terem força, submetam-se aos EUA, ela diz com segurança que o povo apóia a luta e a resistência dos palestinos.
A tensão e a violência de ambas as partes na região ela atribui à ocupação israelense e garante que os árabes são um povo pacífico e tolerante. Ela não vê obstáculo em ter amigos judeus ou cristãos, mas não descarta a missão de todo muçulmano de levar o Islã a todas as pessoas do mundo, uma das obrigações religiosas (ao lado das cinco orações diárias, do jejum no Ramadã, da peregrinação a Meca, entre outras). “Se Israel sair, vem a paz, porque somos um povo de paz”, sustenta.
Mas se a desocupação não vier ela poderia tornar-se uma mulher-bomba? “O futuro cabe a Deus, não sei. Mas quero ter uma vida normal, me casar, ter filhos. Uma vida normal mesmo”. Ela não pertence a nenhum grupo extremista, mas afirma não ser contra nenhum deles, já que são iguais – com apenas diferenças técnicas entre si.

Ruínas
Entre 1994 e 98, depois do acordo de Oslo, a Faixa de Gaza aspirou um desenvolvimento econômico que poderia trazer importantes mudanças na vida da região. Banhada pelo Mar Mediterrâneo e dona de belas praias, várias cidades poderiam explorar o turismo e trazer recursos e crescimento.
A ocupação foi intensificada novamente a partir de 1998 e depois entre 2001 e 2002, selando de vez essa possibilidade. Próximo ao mar, na cidade de Gaza, hotéis prontos estão abandonados. Estruturas de prédios deixados pela metade abrigariam franquias de hotéis de redes internacionais. O porto passava por reformas e, com recursos da União Européia, o principal aeroporto do Oriente Médio já começava a funcionar.
O plano de desocupação da área de Sharon prevê que as fronteiras e entradas da região permaneçam sob controle israelense, o que inclui a proibição de manter portos ou aeroportos na área. Toda a circulação de bens tem de passar pelo aval de Israel. Ainda não foram anunciados os planos para os assentamentos israelenses na região – que devem ser retirados como parte da desocupação.
Até a delegacia central da polícia palestina foi bombardeada. Restam apenas blocos de concreto retorcidos, mantidos pelos vergalhões de aço que sustentavam a estrutura. Só resta pó. Na prática, é a desestruturação da Autoridade Palestina. Sem sede para a polícia, prender extremistas fica ainda mais difícil – além da falta de equipamentos e treinamento. E à medida que eles ficam soltos, mais ataques se articulam.
Os policiais que faziam a escolta fizeram questão de mostrar sua delegacia, apesar do receio do grupo de chegar depois das 17h na fronteira, seguindo as orientações do soldado israelense. O horário não foi problema. Mas depois de 30 minutos esperando a liberação dos passaportes para retornar ao território israelense, Apaches se dirigiram à Gaza e, após alguns minutos mais, rajadas de metralhadora puderam ser ouvidas. Era mais um ataque que começava.



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