A gente não quer só dinheiro

Num cenário em que grande parte da população é excluída do sistema financeiro, a economia solidária no crédito tem poder para transformar a realidade de milhões de pessoas Por Dennis Barbosa e Karine Mueller  ...

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Num cenário em que grande parte da população é excluída do sistema financeiro, a economia solidária no crédito tem poder para transformar a realidade de milhões de pessoas

Por Dennis Barbosa e Karine Mueller

 

Oliveira dos Brejinhos, a 596 quilômetros a oeste de Salvador, na Bahia, é berço de gente simples, que vive da terra. Francisco Antônio de Oliveira é um desses sertanejos, tem cinco filhos e, até 2002, trabalhava na roça e fazia alguns serviços como pedreiro para ajudar a manter a casa. No final daquele ano, sofreu um acidente de moto e perdeu uma das pernas, o que o deixou sem condições de continuar fazendo serviços braçais. Aos 41 anos, tinha poucas opções para continuar a sustentar a si e à família. Para encontrar outro meio de sustento, Francisco foi à cooperativa de crédito rural solidário da cidade, da qual é sócio-fundador. Ele tomou 200 reais emprestados para comprar quatro leitões e outros 250 reais para comprar o mi­lho da engorda. Criou os animais e os vendeu, por mil reais. Saldou sua dívida com a co­operativa e ainda sobraram mais de 500 reais. Hoje, vive disso: engorda porcos, bezerros e cabritos, com dinheiro que toma emprestado, e os revende.

Esse é um exemplo do modo como algumas cooperativas de crédito têm operado no Brasil. Dentro de uma perspectiva de desenvolvimento solidário, a comunidade reúne recursos para garantir a democratização do acesso ao crédito e às finanças. A Cooperativa de Crédito Rural de Economia Solidária de Oliveira dos Brejinhos tem 260 associados que investiram a partir de 100 reais para participar. Eles têm o direito de tomar emprestado até cinco vezes o total investido, desde que o empréstimo não ultrapasse quatro salários mínimos. O saldo devedor é pago em parcelas com 2,85% de juros mensais, bem abaixo do que cobraria um banco comum ou uma financeira – os juros de cheque especial e empréstimos pessoais, por exemplo, não são inferiores a 5% mensais, segundo dados do Procon. Os depositantes da cooperativa recebem juros de 0,80%, remuneração mais vantajosa do que a caderneta de poupança.

Empréstimos como os tomados por Francisco pouco interessam aos bancos. Segundo dados do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), 70% da população está fora do sistema financeiro. Não é preciso ser banqueiro para saber que é mais fácil e lucrativo administrar dois empréstimos de 5 mil do que 20 de 500 reais, por exemplo. Além disso, a estrutura do banco – por vezes nacional ou até multinacional, com muitos equipamentos e pessoal – e principalmente as gordas margens de lucro tornam o microcrédito pouco interessante.

Em agosto de 2003, ao reduzir o compulsório – percentual dos depósitos à vista que os bancos são obrigados a depositar no Banco Central (BC) – de 60% para 40%, foi criada a possibilidade de se liberar até 2% desses recursos que normalmente ficam sem remuneração, desde que eles fossem destinados ao crédito pessoal a 2% de juros ao mês. A oferta, porém, não aumentou.

As altas taxas de juros praticadas pelos bancos incentivam a formação de cooperativas. Em 1996, elas eram 965. No ano passado, o número já chegava a 1.454. Os cinco maiores sistemas do país (Sicoob, Unicred, Sicredi, Cresol e Ecosol) têm, juntos, cerca de 1,9 mi-lhão de associados. Nem todos praticam o crédito solidário, aproximando-se de práticas de banqueiros. Isso representa 24% do patrimônio líquido do sistema financeiro nacional (5,7 bilhões de reais em depósitos e outros 5,2 bilhões em operações de crédito).

“Elas partem do princípio da cooperação, não do lucro dos associados”, esclarece Paulo Wataru, coordenador executivo da Cooperativa Central de Crédito e Economia Popular Solidária (Ecosol). “Por isso, não as vejo apenas como o complemento do serviço dos bancos, já que os cooperados precisam ter em mente que sua participação não é devida apenas às vantagens financeiras”, observa.

A Ecosol, criada em 2002 a partir de iniciativa da CUT, mostra que o movimento sindical está engajado no crédito solidário. A explicação começa na legislação que vincula as cooperativas a uma categoria profissional nas cidades com mais de 100 mil habitantes.

Um exemplo bastante conhecido é o da Credi Chapecó, cooperativa dos funcionários públicos municipais de Chapecó, em Santa Catarina. Com 750 associados, a Credi Chapecó é exemplo de avanço no setor, porque desenvolveu um cartão de crédito próprio, aceito no comércio local, com limite equivalente à metade do salário do funcionário. “No começo, os grandes lojistas não quiseram aceitar o cartão, mas hoje eles vêm pedir para ter a máquina em seus estabelecimentos”, orgulha-se Mafalda Wermuth, presidente do empreendimento.

Outras categorias seguiram o exemplo, como os bancários de São Paulo, com a Bancredi – também filiada à Ecosol –, que está perto de chegar a 3 mil associados em cinco anos de existência. Além das operações convencionais, o grupo criou uma aplicação para ajudar no financiamento da produção. Deyvid Leite, presidente da cooperativa, explica que o montante investido será emprestado para essas cooperativas do sistema Ecosol. “Conforme a cooperativa for pagando seu empréstimo, a sobra obtida com juros e mora será repassada para os rendimentos dos cotistas do Fundo”, afirma.

Outro projeto é do Sindicato dos Metalúrgicos de Osasco e Região, filiado à Força Sindical, que mesmo sem um programa sistemático da central, montou sua cooperativa, a Credimetal, filiada ao Sicoob. Em parceria com o projeto Eremim, ONG mantida pelo Sindicato e que atua com crianças carentes da cidade, a Credimetal ajuda a financiar cooperativas de mães dessas crianças. O próprio Eremim ajuda no financiamento. “Quando a cooperativa tiver condições, elas terão de se organizar para devolver esses recursos para garantir o desenvolvimento de outros projetos”, explica Maria Francisca Palma Pinto, a Kika, socióloga que coordena as atividades da Associação.

Em Oliveira dos Brejinhos, na maioria das vezes, os empréstimos da cooperativa servem para ajudar na produção agrícola dos associados. Na região, predomina a criação de caprinos. Alcisso de Oliveira, presidente da co­operativa e irmão de Francisco, conta que, como muitos cooperados não se sentiam à vontade para fazer dívida em dinheiro, foi criado um sistema de cobrança em quilos de carne. “O associado, em vez de dever um valor em reais sobre o qual paga um certo juro, fica com uma dívida em quilos de carne de animal vivo”. Outros tipos de mercadorias também são aceitos quando o devedor tem dificuldade de pagar, mas o fato é que a cooperativa encerrou o ano passado sem inadimplência. “Às vezes alguém deixa de pagar, mas nós conversamos, conscientizamos”, conta o presidente.

O mecanismo encontrado pelos agricultores se aproxima do conceito de moeda social. Seja em feiras ou pequenos povoados, o real perde espaço para outras moedas. O exemplo mais avançado vem da periferia de Fortaleza, capital do Ceará. Os moradores do Conjunto Palmares, construído na década de 70, reuniram-se em 1997 num seminário, para buscar soluções contra a pobreza e o abandono da região.
Inspirados nos clubes de troca argentinos, em que milhares de pessoas se articularam para negociar produtos artesanais ou de revenda para fugir da crise, começaram o projeto do Banco Palmas.

O que diferenciou o empreendimento das cooperativas foi a criação de duas moedas, o Palmares e o Palmas, que correm paralelas (na cotação de um para um com o Real). Enquanto o primeiro hoje é usado apenas para fins educativos, o segundo é corrente em qualquer loja. “Percebemos que havia uma demanda muito forte por alimentos e insumos no clube de trocas”, relata Sandra Magalhães, assistente social e coordenadora de projetos do Banco Palmas. “Daí surgiu a idéia de uma outra moeda – o Palmas – que transformou o bairro num grande clube de trocas, com as atuais três mil pessoas trocando todos os dias”, completa. Além disso, um cartão de crédito em Palmas é garantia de boas compras no bairro.

O sucesso do circuito de desenvolvimento local fomentado pela moeda social levou a comunidade a dar novos passos. Uma escola de economia solidária, a Palmatec, foi criada para formar produtores e comerciantes. Alguns de seus alunos já organizam cooperativas, como a Palmalimp (de serviços de limpeza), a Palmarte (de artesanato) e a Palma Fashion (de costureiras). A economia solidária, que deu certo nas finanças, vai virando uma boa opção de organização também para outros setores.

Trabalho como lastro A economia solidária aplicada às finanças e ao crédito tem capacidade de inclusão social. No Quilombo da Serra, em Teresópolis, a 92 quilômetros da capital do Rio de Janeiro, os 80 remanescentes da comunidade aboliram o Real e só negociam em Tupi – exceto nas operações externas à comunidade. A iniciativa surgiu há cinco anos, mas ganhou força na primeira edição do Fórum Brasileiro de Economia Solidária (FBES), em uma oficina de redes de troca.

Ary Moraes, produtor rural e fitoterapeuta é um dos participantes do projeto. Ele conta que já havia na comunidade todo um processo orgânico de se pensar em alternativas de geração de trabalho e renda. “Depois da oficina, as pessoas começaram a perceber que o grande barato era produzir para trocar”, comemora.

O dado mais curioso é que a moeda social tem um mecanismo contra o acúmulo. A cotação da moeda é de quatro reais ou uma hora de trabalho. A referência da mão-de-obra explica-se. O objetivo não é acumular Tupis, mas fazê-los circular, por isso, no Ecobanco, instituição comunitária que regula a moeda, foram estabelecidos juros negativos. Em outras palavras, se o dinheiro ficar parado no banco por mais de 30 dias, o depositante perde 10%.

adler@intercall.com.br
karine@revistaforum.com.br

Colaborou Cristina Uchoa



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1 comment

  1. Paulo Wataru Responder

    Um bom resgate do Cédito em Economia Solidária. Continuo defendendo que todas as instituições de microfinanças adotem o juros simples e ao invés do juros compostos, por questão de principio da não usura ou do anatocismo.


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