A Índia de verdade

O FSM foi fundamental para revelar que a história que se conta da Índia é muito mais motivada por interesses econômicos do que por fatos e dados reais

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O FSM foi fundamental para revelar que a história que se conta da Índia é muito mais motivada por interesses econômicos do que por fatos e dados reais

Por Renato Rovai

Faz mais de uma década que a economia indiana cresce em média 6% ao ano e que os investidores obtêm resultados bastante positivos no país. Em 2003, por exemplo, o principal índice local da bolsa de valores subiu 40% e o lucro médio cooperativo das empresas inclusas nele foi de 50%. Notícias como essa tornaram o projeto de desenvolvimento indiano a nova menina bonita do mercado mundial. Hoje ele é apresentado nas passarelas da mídia-bussines como padrão a ser seguido.

Desde 1951, a Índia realiza planos qüinqüenais. O atual, que vai até 2007, é uma radicalização do penúltimo. Entre outras coisas, amplia o projeto de privatizações, abre setores econômicos estratégicos (portos e energia, por exemplo) para o capital internacional e se compromete a respeitar as diretrizes da Organização Mundial do Comércio (OMC) e os acertos com o Fundo Monetário Internacional (FMI).

Na Índia, o “novo regime” vem sendo implementado com um pouco mais de cuidado do que na América Latina, mas seus conhecidos resultados não tardaram. O PIB indiano é incrementado por 29,1% da agricultura, que gera 67% dos empregos. A agricultura, contudo, só tem diminuído nos últimos anos sua participação no PIB. Esse foi um dos aspectos que levaram o país, no último relatório do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), publicado em 2003, passar da 94a posição para a 127a. Os muitos lugares perdidos no Índice de Desenvolvimento Humano global se deram exatamente no período da festa do crescimento e durante o governo da coalizão política construída pelo atual primeiro-ministro Atal Bihari Vajpayee, do partido nacionalista hindu Bharatiya Janata (BJP). Desde fevereiro de 1998, ele está no governo, onde atua com mão firme e misturando projeto neoliberal com fundamentalismo religioso. Além de programas de privatização de setores estratégicos, faz uso político do sentimento antimulçumano e estimula valores machistas, racistas e elitistas do conservadorismo hindu.

Entre outros costumes asquerosos, que ao invés de serem combatidos têm se ampliado no seu governo, está o do dote. Muitos casamentos do país ainda são negociados e a família da noiva assume uma dívida com a do esposo. Além de reduzir a mulher à condição de mercadoria, o sistema de dotes gera violência doméstica e assassinatos. Caso venha a acontecer algo com a mulher, o marido pode casar de novo e obter novo dote. Como estamos tratando de um país miserável, o assassinato da esposa pode acabar se tornando um bom negócio. “No Rajastão (um dos estados do país), a cada dia uma mulher é assassinada”, denuncia Kavita Srivastava, da Peoples Union for Civil Workers. “E a justiça raramente se envolve em tais casos”, explica.

Os novos empregos Mesmo sendo empurrada pelo atual governo para uma radicalização do projeto neoliberal, a Índia ainda mantém uma independência maior do que quase todos os países latino-americanos. Lá, por exemplo, os juros atuais estão em 6% ao ano e não houve nenhum plano maluco de paridade da moeda com o dólar. Isso faz com que, ao contrário do Brasil, o valor da dívida externa em porcentagem do PIB só venha diminuindo. Era 38,7% em 1992 e em 2001 bateu em 22,3%. Entre os países em desenvolvimento essa é uma das relações mais baixas de dívida e PIB.

Além disso, até porque era imenso, o Estado indiano ainda controla muitos setores da economia. Também ainda é necessário ter licenças especiais para que o capital externo realize certos investimentos industriais. É verdade que o governo atual já se mexe para acabar com essa exigência. Tudo em nome da abertura econômica e de uma suposta maior geração de empregos.

Mas é fato que muitos empregos têm caminhado em direção à Índia. A questão a ser esclarecida é que isso não ocorre porque o país tem investido pesado em alta tecnologia. Para sustentar essa tese, entre outros números costuma-se alardear que a Índia forma anualmente 300 mil cientistas, matemáticos, engenheiros etc. Não é nada demais. No Brasil (que não é padrão nessa área), são 64 mil por ano. Acontece que a Índia tem 1,04 bilhão de habitantes e o Brasil 170 milhões. Proporcionalmente aqui e lá são produzidas a mesma quantidade de cientistas.

Os empregos que rumam para a Índia não estão à caça de talentos, mas interessados na miséria que obriga o indiano a trabalhar muito mais horas por semana, ganhando salários bem inferiores aos do país sede da empresa e não tendo nenhuma proteção da legislação. A quase totalidade dos universitários indianos não está em grandes multinacionais da informática, como se diz. Na verdade, trabalham em telemarketing de bancos e grandes companhias comerciais que aproveitam do inglês fluente deles para operar esse serviço. Há inclusive treinamentos desses engenheiros, matemáticos etc. para que corrijam seu inglês e falem com sotaque semelhante ao país que irão se comunicar.

Evidente que a Índia tem algumas escolas de excelência, entre elas o Indian Institute of Technology (IIT). Acontece que mais da metade dos que lá se formam lá em ciências da computação, por exemplo, não ficam no país. Emigram em busca de melhores salários.

Mas fora os tão propalados universitários, a grande massa trabalhadora indiana está no mercado informal. As grandes cidades estão apinhadas de ambulantes que vendem todos os tipos de produtos. E não só vendedores, mas também prestadores de serviços instalam-se nas calçadas. Ver chaveiros e cabeleireiros trabalhando nas ruas é comum.

O risco da ilusão O crescimento indiano dirigido a uma fatia minoritária da população pode tornar a situação do país muito mais dramática do que já é atualmente. As grandes cidades, como Mumbai, por exemplo, têm atraído diariamente milhares de pessoas oriundas do interior do país que chegam em busca da vida que é apresentada pelos filmes dos estúdios de Bollywood, que produz mais películas por ano que Hollywood.

Mas as cenas da Mumbai real não têm toque romântico. Muitas das ruas da cidade que é apontada como o porto de oportunidades do país não dispõem de calçadas, pois elas estão completamente ocupadas por favelas que se amontoam umas sobre as outras. O destino desses migrantes acaba sendo o de juntar aos que já vivem ali e com eles freqüentar as ruas para mendigar. A miséria é tão chocante que o líder comunitário do Rio de Janeiro, Angelo Márcio da Silva, que esteve no FSM a convite da Comcat, escreveu num depoimento publicado no site (www.comcat.org) da entidade: “A gente é feliz e não sabia: que saudades do nosso feijão com arroz, da nossa cervejinha gelada, do futebol, do nosso carisma e jeito de levar a vida, do nosso trânsito e até de nossas lutas, de nossa família e de nosso amor. E olha que só saí do Rio ha 5 dias! Mas tirando a saudade as coisas estão caminhando. Ainda estou impressionado com a pobreza e as favelas daqui. Companheiros, vocês tinham que ver para crê. É uma mistura do complexo da Maré há uns 25 anos com a parte mais pobre do Nordeste.”
A esquerda indiana é muito dividida. Há movimentos e partidos que representam os mais diversos segmentos e a rivalidade entre eles é grande. Para se conseguir organizar o FSM em Mumbai foi necessária uma grande negociação anterior. Havia quem duvidasse que ele pudesse dar certo. Mesmo com todas as dificuldades a grande vitória do FSM foi essa, a de conseguir fazer com as entidades da sociedade civil local chegassem a acordos e levassem o evento a cabo. Nesse processo, houve um grande amadurecimento.

Segundo Vinod Raina, um dos organizadores do FSM de Mumbai, o quadro político-partidário do ponto de vista da esquerda não é muito animador. As principais forças existentes nesse campo têm o mesmo nome: O PCI, o PCI (marxista) e o PCI (marxista-leninista). O último é de tendência maoísta e já defendeu abertamente a violência como método de tomada do poder. Já o PCI e o PCI (marxista), por outro lado, sempre mantiveram participação nos processos eleitorais. O PCI (marxista) chegou a ter sucessos eleitorais nos estados do centro do país.

Prakash Karat, membro do Birô Político desse PCI, acredita que mesmo tendo sempre uma posição secundária no cenário político, já que a disputa atual se dá entre o Partido do Congresso, que foi hegemônico até a década de 90, e o BJP, do atual primeiro ministro, “os partidos políticos de esquerda são de certa forma afortunados por não terem sofrido nenhuma erosão significativa na sua base de massas depois das profundas mudanças na cena mundial com o colapso da União Soviética”. Segundo ele, os que se proclamam comunistas somam hoje mais de 1,5 milhão, em vários partidos. Só para lembrar, a população da Índia é de 1,04 bilhão de habitantes.

A herança do “primeiro mundo” Até 15 de agosto de 1947, a Índia era colônia inglesa. Durante a primeira década do século 20, o Partido do Congresso começou a lutar pela independência. Duas tendências se destacaram: uma representada por Mahatma Gandhi e Jawaharlal Nehru, que viria a ser o primeiro-ministro do país, e a outra por Allí Jinnah, que buscava preservar os interesses dos muçulmanos.

A partir de 1940, Jinnah começou a defender a criação de um Estado muçulmano independente. Em 1947, quando se obteve a independência do subcontinente, nasceram Índia e Paquistão. Gigantescas massas humanas foram de um canto para o outro. A maioria hindu ficou na Índia. E os muçulmanos, no que é atualmente o Paquistão. Dali em diante, começaram os conflitos entre essas duas nações. Um deles, a criação da Caxemira, logo depois da independência, por decisão unilateral do marajá governante. Isso desencadeou uma guerra que se estendeu até 1949, quando a ONU estabeleceu a divisão da província. Como parte do acordo, a Índia se comprometeu a realizar um plebiscito na região. Que nunca ocorreu. Ao contrário, em 1957, esse território foi anexado à Índia. Em outro conflito, em 1971, a banda oriental do Paquistão se tornaria independente para formar um novo país, Bangladesh.

Só para relembrar, toda aquela região foi colonizada pela Inglaterra, não por portugueses ou espanhóis. E a África também, com a ajuda dos franceses.

rovai@revistaforum.com.br



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