A invisibilidade do negro

A meia cidadania é imediatamente notada pelos estrangeiros que nos visitam Por Helio Santos   Nada é pior em uma batalha do que não saber por onde...

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A meia cidadania é imediatamente notada pelos estrangeiros que nos visitam

Por Helio Santos

 

Nada é pior em uma batalha do que não saber por onde vem o inimigo – a sua verdadeira posição. Uma das maiores invenções do arsenal de guerra dos Estados Unidos é o avião bombardeiro B-2 Stealth (furtivo), que não é notado pelos radares. O poder bélico desse avião é imenso, pois chega de forma invisível até o território inimigo, sendo temido pelos estragos que pode causar aos adversários.

O negro brasileiro enfrenta em seu cotidiano um oponente deste porte. Poucos têm um radar que consiga captar de maneira precisa de onde partem as dificuldades que os bombardeiam continuamente. A invisibilidade da questão racial do negro brasileiro é incontestável. Inúmeros estudiosos a confirmam em seus trabalhos.

De todas as grandes questões nacionais, nenhuma outra é mais dissimulada. O negro não está ausente apenas dos meios de comunicação em geral, mas também não comparece como uma entidade importante da vida nacional. O mesmo acontece nas novelas, nos filmes e nos comerciais de TV onde a sua presença não se dá de forma qualificada e na dimensão correta.

Os historiadores oficiais, quando retratam os negros, atuam como se fossem contadores de histórias. Os cientistas sociais e economistas, quando falam em miséria, desemprego, falta de moradia, analfabetismo, concentração de renda, violência e outros tópicos relacionados ao barbarismo social brasileiro, raramente identificam os protagonistas dessa tragédia tendo como referencial a origem racial e étnica.

É como se quiséssemos todos – negros e brancos – fugir do assunto. De um lado, os brancos que fingem não discriminar e, de outro, os próprios negros fingindo não serem discriminados. “Elimina-se” o problema não o encarando. Essa política de avestruz foi e continua sendo eficaz no sentido de manter a maioria negra onde sempre esteve: à margem da cidadania. Estudo recente, desenvolvido na Universidade Cândido Mendes, revela que a chance de um homem negro morrer de forma violenta é 87% maior do que a de um homem branco. O fato de ser negro no Brasil pode fazer com que a pessoa esteja mais propensa a morrer violentamente – convenhamos, não se trata de uma diferença qualquer.

A invisibilidade da questão racial deve ser interpretada aqui como um fato que não se nota, não se discute e nem se deseja notar ou discutir. É como se não existisse. A história narrada nas escolas é branca. A inteligência e a beleza mostradas pela mídia também o são. Assim, o que se mostra é que o lado bom da vida não é e nem deve ser negro.

O que deve ser desvelado é o seguinte: o que leva tanta gente, no Brasil, a não notar o que realmente acontece? É certo que há uma grande dose de hipocrisia. Contudo, existe também muita dor, e de vários tipos. Dor, de quem tenta enganar a si mesmo, de quem tem consciência, mas não sabe, precisamente, o que fazer, ou daquela pessoa que sofre e, conscientemente, não sabe que está sofrendo.

Contudo, a meia cidadania do negro é imediatamente notada pelos estrangeiros que nos visitam. Ocorre que, para os de fora, o que salta aos olhos são os agrupamentos raciais alojados em cada um dos dois brasis. No Brasil moderno e desenvolvido, que ostenta a gloriosa marca de possuir a segunda frota mundial de jatinhos executivos, a ausência do negro é quase absoluta. Por outro lado, no Brasil das chacinas e da miséria, que nos reduz a um dos países mais atrasados do planeta, a presença do negro é sólida, vigorosa, majoritária e dramaticamente consistente.

Além da complexidade que esse tema tem no Brasil restam aspectos cruciais a serem abordados, como o da identidade nacional, por exemplo, sob pena de se cair num texto linear que a academia brasileira especializou-se em produzir. Evidentemente, que tal caminho, ao retardar uma compreensão efetiva, fez com que só no albor do terceiro milênio o tema ganhasse força e consistência para um verdadeiro debate nacional; o qual, apenas, se avizinha. Aos poucos, a invisibilidade que o assunto sempre teve entre nós começa a ser, de fato, quebrada. Trata-se de algo da maior relevância para o país, pois os negro-descendentes (pretos e pardos) formam um contingente de 45% do conjunto nacional (IBGE, 2000), quase 80 milhões de pessoas.

 

Helio Santos é professor da Universidade São Marcos (São Paulo) e Fundação Visconde de Cairu (Salvador) e autor do livro A busca de um caminho para o Brasil – a trilha do círculo vicioso (SENAC, 2001). A partir desta edição, ele terá coluna mensal na Fórum.



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