A música como forma de resistência

Emerson Facão levamúsicaàs favelas do Rio de Janeiro Por Italo Conrado MOnteiro Nogueira   Um livro no lixão é o símbolo do descaso frente à cultura. Mas...

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Emerson Facão levamúsicaàs favelas do Rio de Janeiro

Por Italo Conrado MOnteiro Nogueira

 

Um livro no lixão é o símbolo do descaso frente à cultura.
Mas para Emerson Facão, ex-morador do Complexo da
Maré da cidade do Rio de Janeiro, foi essencial para o início
de suas reflexões. Com nove anos, Facão encontrou O nascimento da tragédia, de Friedrich Nietzsche, e começou seus estudos em filosofia. A partir daí, conheceu o rock através de discos de Joy Division e de outras bandas, também encontradas
no lixo, e levou uma vida diferente de
alguns amigos de infância que seguiram o mundo
do tráfico. Hoje ele passa sua experiência de
vida e seu conhecimento de produção musical
para moradores do Complexo do Alemão, Parada
de Lucas, Vigário Geral e da comunidade de
onde saiu na oficina “Técnicas e inspirações”,
oferecida no Sesc Ramos. O contato com o rock fez com que Facão procurasse desenvolver suas habilidades musicais.
Em uma comunidade pobre, o músico teve que improvisar para poder produzir sua arte, se tornando um autodidata. Criou artesanalmente instrumentos e aprendeu um pouco de eletrônica para conseguir gravar suas
produções e iniciar seu projeto musical, que culminou com a banda de rap Ciência Rimática. É este aprendizado que Emerson passa nas
aulas técnicas da oficina. – Todo meu conhecimento sobre métodos
caseiros, alternativos, foi maravilhoso porque foi um boom na minha criatividade. Eu acabei, por causa da situação, ficando muito mais
criativo. Então nada mais justo do que eu passar todo esse conhecimento para pessoas que foram e que são de comunidades carentes, que
vivem uma vida tão difícil quanto a que eu vivi
quando nasci no Complexo da Maré.
O projeto oferece uma alternativa de acesso
à cultura, área em que o Poder Público não
tem investido bem no Rio de Janeiro, principalmente nas favelas. Assim, além de facilitar este contato, também ensina outras formas de
se fazer música e divulgá-la sem a necessidade
de grandes investimentos. A oficina ensina os alunos a gravar uma fita demo, inventar
instrumentos com copo, cadeira ou qualquer outro objeto comum, tudo sem depender da tecnologia de alto custo, que está fora do alcance
de muitos brasileiros. Ao assistir uma aula no Sesc, percebe-se que a improvisação
já virou parte do cotidiano musical dos alunos: é só um grupo começar a ensaiar que cadeiras fazem o papel de baterias.
– Esse negócio de que para fazer música tem que ter dinheiro é uma ideologia da classe dominante. Quando a Legião Urbana era só voz e violão, quebravam tudo. Porque vocês não podem?
– questiona Facão em uma de suas aulas. Além da técnica, a oficina também trabalha
com a criação poética. Em sua “pequena fábrica de revolução” (como se refere à oficina), Facão oferece recursos para que os jovens desenvolvam
sua criatividade e também reflitam sobre a situação em que vivem. Depois da apresentação de vídeos e leituras, o grupo discute temas que cercam a vida nas comunidades, como desigualdade social e drogas. A partir destas conversas, os alunos expõem suas reflexões sobre o assunto através de textos e poesia, que depois
são transformados em música, utilizando muito o recurso da metáfora.
Morador do Complexo da Maré, Luiz Eduardo Cruz, um dos alunos do projeto, já viu
alguns colegas entrarem para o mundo das drogas e até para o tráfico. Esta é uma realidade em muitas comunidades onde a falta de opção é constante e a vida do crime pode se tornar uma alternativa. No entanto, projetos como este oferecem mais uma oportunidade para estas pessoas que sofrem com a desigualdade social.
Luiz, de 19 anos, parte das reflexões em sala para trabalhar em suas músicas a grande diferença que existe entre as camadas sociais. – É o tema que a gente mais vê na mídia e é o melhor de abordar. Pego experiências de meus colegas que ficaram viciados, que entraram no tráfico, e trabalho as minhas músicas
em cima disso, explica Luiz Eduardo. A leitura de jornais e de outros textos tem
ajudado bastante no desenvolvimento da percepção dos alunos deste projeto. Facão sempre chama a atenção para as notícias que
aparecem todos os dias e procura incentivar a reflexão sobre os assuntos. Tenta estimular que seus alunos vejam sempre além do que
está escrito, para saberem o que provocou a situação que está nos jornais, e o que aquilo pode ter como conseqüência. Através deste trabalho de pesquisa, Facão explica que “fica muito mais fácil saber qual o tipo de linguagem
que vai ser usada para exteriorizar as coisas que iremos escrever. Só através de muita
leitura e escrita”.
A oficina gerou diversos grupos de diferentes estilos: rock, rap, gospel, MPB… O que menos interessa para Facão é o estilo desenvolvido.
“Acho fantástico, porque acaba com o preconceito musical que existia no começo. Trabalhei isso de uma forma agradável, mostrando diversos estilos e suas fusões”. O importante é que motive a reflexão. Luiz Eduardo
e mais dois parceiros formaram o grupo “Acorda moleque!”, que toca uma mistura de
rock com rap. O acesso a atividades culturais é usado em diversos projetos como instrumento de resgate social. Luiz considera que a música atrai
os jovens e pode ser usada como uma arma benéfica contra o mal que atingiu alguns de seus colegas. – A música pode servir como uma arma e ser usada para um bom motivo. Serve para conscientizar e trabalha com a emoção dos
jovens. A arte sendo entendida como “tudo que se insere na categoria de bens simbólicos como dança, teatro, escrita, pintura, escultura, e até certos produtos da indústria cultural” pode servir para ampliar ainda mais os horizontes destes jovens. Esta é a avaliação da professora Ilana Strozenberg, pesquisadora do Programa
Avançado de Cultura Contemporânea da UFRJ (PACC/UFRJ): – É possível pensar na produção cultural como via de acesso a uma maior fluência, a maiores recursos de conhecimento, a um melhor controle da linguagem, a um espaço de trocas mais diversificado. Neste sentido, atividades associadas a determinadas expressões culturais, sejam elas consideradas arte ou não podem ser uma estratégia interessante e eficaz de “resgate”. A pesquisadora, ao mesmo tempo, questiona a utilização desse termo. “Não gosto da palavra resgate. Prefiro a idéia de ampliação de perspectivas e de horizontes de escolha. Ao invés da idéia de trazer de volta, melhor a de
abrir novos caminhos.” Emerson Facão pretende com esta oficina compartilhar sua experiência de vida com seus alunos para que outros possam ver na
música a mesma chance que ele viu há 20 anos. Além disso, pretende conscientizar seus alunos da importância da leitura e incentiválos
a divulgar suas idéias para modificar o sistema que causa o ambiente de pobreza em
que vivem. – Fazer a revolução sem armas, essa que é a
minha idéia. Arma é o papel e a caneta. Assim a gente pode expressar nossos pensamentos, nossos desejos. É um meio de reivindicar mudanças de forma diferente que o sistema coloca. O sistema quer que a molecada na favela
pegue em um fuzil para ter motivo para mandar a polícia matar. Quando você começa agir ao contrário, você acaba atacando um alicerce. Isso acaba enfraquecendo toda a máquina que envolve este sistema. O trabalho completa três meses em dezembro
e será finalizado no dia 18 com a apresentação no Sesc Ramos dos grupos formados. Ano que vem Facão continuará com a oficina, estendendo a duração para seis meses.
Matéria vencedora do 1º Concurso Fórum de Reportagem

Concurso termina com mais de cem inscritos
Facão: “Esse negócio de que para fazer música tem que ter dinheiro é ideologia da classe dominante” foi o grande vencedor do 1º Concurso Fórum de Reportagem. Ele é estudante de jornalismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e tem 20 anos. A segunda colocada foi Tadzia de Oliva Maya, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), e o terceiro foi Samuel
Bizachi, da Unisinos, de São Leopoldo (RS). Para Italo, esse tipo de premiação é importante por dar espaço para que estudantes possam produzir reportagens, já que durante a formação acadêmica essa possibilidade é reduzida. Ele irá compor a equipe da Fórum durante a cobertura do 5º Fórum Social Mundial, em Porto Alegre, de 26 a 31 de janeiro. O objetivo da premiação é incentivar
a formação de jornalistas autênticos, dispostos a produzir reportagens
a partir de outros princípios. Fórum buscou se aproximar dos estudantes e dar espaço a esse tipo de prática jornalística. No total, foram quase cem inscritos, dos quais, 28 enviaram reportagens. Os dez finalistas foram definidos
por uma avaliação da redação da revista Fórum e o vencedor, foi estabelecido por um grupo de sete jurados. Os jurados da fase final são Renato
Rovai, editor da Fórum, Anselmo Massad, editor adjunto da
Fórum, Paulo Lima, diretor da Rede de Informações para o Terceiro Setor
(Rits), Antonio Biondi, do Coletivo Intervozes, Antonio Martins, do
Planeta Porto Alegre, Marco Frenette, editor da revista Bravo, e Daniel
Merli, da imprensa do Fórum Social Mundial. Quase três quartos do total de inscritos são estudantes de jornalismo. Metade é do Estado de São Paulo, seguido do Rio Grande do Sul, Minas Gerais e Rio de Janeiro, com 9% cada. Entre os finalistas,
há uma diversidade de localidades. Dos dez finalistas, quatro são de São Paulo, dois do Rio de Janeiro, dois de Minas Gerais, um do Paraná
e outro do Rio Grande do Sul. Seis são homens e quatro mulheres.
No que diz respeito às temáticas, o Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra foi o mais recorrente. Projetos sociais ligados à educação e ao movimento Hip Hop também tiveram boa presença.



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