A simplicidade de quem descobre a beleza

Mais do que apenas uma poesia militante ou partidária, a obra do poeta Pablo Neruda revela a magia da terra e da história da América Latina Por Anselmo Massad  ...

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Mais do que apenas uma poesia militante ou partidária, a obra do poeta Pablo Neruda revela a magia da terra e da história da América Latina

Por Anselmo Massad

 

Dia 23 de setembro de 1973. Doze dias tinham se passado desde a deflagração do golpe militar que tirou Salvador Allende do poder. O que circulava de boca em boca era que o poeta se fora. Entre os jornalistas estrangeiros recém-chegados ao país para cobrir os desdobramentos políticos pós-golpe, estava o então repórter do Estado de S.Paulo, José Maria Mayrink. Nefatli Ricardo Reynes Bosoalto, conhecido como Pablo Neruda, havia morrido de câncer e o velório na sua casa, em Santiago, reunia poucas pessoas. Tão poucas, segundo Mayrink, a ponto de terem dificuldade de levar o caixão até o carro fúnebre, por conta de um riacho formado no quintal da casa pelo rompimento de uma represa próxima. Aos poucos, à medida que o cortejo avançava, mais de mil pessoas foram se juntando à multidão. Começou-se a ouvir palavras de ordem lembrando Neruda e Allende, com a Internacional Comunista ecoando em toda parte. Era a primeira manifestação pública depois do golpe.

Essa história apenas ilustra como o poeta havia se tornado emblemático para a esquerda chilena e mesmo latino-americana. No entanto, Neruda era muito mais. O escritor argentino Julio Cortázar – amigo e admirador – escreveu no ensaio Neruda entre nós (compilado na obra Julio Cortázar – Obra crítica 3, organizada por Súl Sosnowski), que os textos do chileno produziam resultados, além do enriquecimento natural que vem da leitura de qualquer grande poesia. Cortazar fala em um contato direto com matérias, formas, espaços e tempos no continente. “Quem poderá chegar ao litoral chileno e se debruçar sobre o Pacífico implacável sem que os versos de Barcarola retornem da já remota Residência na Terra; quem subirá a Machu Picchu sem sentir que Pablo o antecede na interminável teoria de degraus e colméias?”, resume.

Esse era um dos diferenciais de Neruda: sua inspiração e seu trabalho estavam ligados ao chão e à natureza da América Latina. Para Cortázar, “[Neruda é] o poeta que bruscamente nos devolvia ao que era nosso, arrancava-nos da vaga teoria das amadas e das musas européias para nos atirar nos braços uma mulher imediata e tangível e nos ensinar que um amor de poeta latino-americano podia se dar e se escrever hic et nunc [aqui e agora], com as palavras simples do dia, com os cheiros das nossas ruas, com a simplicidade de quem descobre a beleza”.

A juventude do poeta se passou em Temuco, região de fronteira ao sul do Chile. “Começarei por dizer, sobre os dias e anos de minha infância, que meu único personagem inesquecível foi a chuva”, relata Neruda logo nas primeiras linhas de seu livro de memórias, Confesso que Vivi (Cia. das Letras), escrito pouco antes da morte. “A grande chuva austral que cai como uma catarata do Pólo, desde o céu do Cabo de Hornos até a fronteira. Nesta fronteira (…), nasci para a vida, para a terra, para a poesia e para a chuva”. E a relação com a natureza não se restringia às águas. “A natureza ali (na fronteira) me dava uma espécie de embriaguez. Atraíam-me os pássaros, os escaravelhos, os ovos de perdiz. Era milagroso encontrá-los nas quebradas, brônzeos, escuros e reluzentes”, conta.

O resultado do intenso contato com a natureza teve um papel determinante em toda a carreira do poeta, mas mais intensamente na primeira fase de Neruda. “Quando Neruda começa a escrever, surge o debate do surrealismo”, resgata Mariluci da Cunha Guberman, professora de Literatura Hispano- Americana da UFRJ. A supra-realidade buscada pelos europeus nos sonhos estava disponível na América Latina de forma muito mais intensa e presente nos mitos indígenas e africanos. Para Neruda, que tem nessa fase uma característica de difusor da vanguarda, a supra-realidade vem do contato com a matéria orgânica, com as forças naturais.

“Neruda é talvez o maior representante de uma literatura baseada em forças telúri-cas do Chile”, aponta Amalho Pinheiro, professor de Literatura Hispano-Americana da PUC-SP. “Ele se sentia como árvore e seus livros eram como madeira. Era a carne viva que se confundia com terra e suor humano ligado às fontes naturais que devia se tornar poesia”, completa.

Pinheiro chama essa poesia de “orgânicomitológica”, trazendo o contato direto com os elementos da natureza. Não se trata apenas de uma questão de conteúdo ou de temática, mas sim de forma de construção poética. “Ele queria ser um primitivo, detestava as academias e as análises científicas sobre a obra.” Assim, o professor de literatura – como diversos críticos literários – considera Residência na Terra como a sua melhor obra, por transformar esses elementos em ritmo poético, como se as sílabas se tornassem gotas de água.

Lado político

O crítico literário e professor da USP, Davi Arrigucci Jr., indica em seu ensaio Contorno da poética de Pablo Neruda (publicado em Outros Achados e Perdidos, Cia. das Letras), que a semente da transição do poeta para a fase política já se encontrava em sua poesia primitiva. Para Arrigucci, a poética de veio romântico e de base irracional do primeiro período traz já um caráter político, empenhado em mudanças sociais. No entanto, o engajamento foi tornando- se mais e mais político-partidário, em defesa dos ideais comunistas.

A mudança começou no contato do escritor com a Espanha. Tendo iniciado carreira diplomática no Extremo Oriente, Neruda foi transferido em 1934 para a embaixada de Barcelona e depois para Madri. “O contato com a Espanha tinha me fortificado e amadurecido”, narra em sua autobiografia. “As horas amargas de minha poesia deviam terminar. O subjetivismo melancólico de meus Vinte poemas de amor (e uma canção desesperada) ou a comoção dolorosa de Residência na Terra chegavam ao fim. Pareceu- me encontrar um veio enterrado, não sob as rochas subterrâneas, mas sob as folhas dos livros. Pode a poesia servir aos nossos semelhantes? Pode acompanhar as lutas dos homens?”.

O poeta, acusado por críticos de ser inacessível em Residência na Terra, começou a querer ampliar seu alcance, a falar para os trabalhadores, para as massas. De certa forma, ser acessível ou não para o grande público é uma das questões mais presentes nos debates sobre arte durante o século XX. Neruda enveredou na direção da linha adotada por boa parte dos movimentos comunistas, de voltar sua arte às massas. E tornou- se uma referência. “Simplesmente tinha que escolher um caminho. Foi o que fiz naqueles dias e nunca me arrependi da decisão tomada entre as trevas e a esperança daquela época trágica”, aponta em Confesso que Vivi, a respeito da aproximação definitiva com o comunismo.

As circunstâncias favoreciam a tomada de posição. Grande parte dos intelectuais ligados às vanguardas latino-americanas era comunista – muitos deles estiveram na Espanha durante a Guerra Civil e chegaram a pegar em armas. O envolvimento de Neruda com o movimento de defesa das forças republicanas na Espanha lhe custou o posto de embaixador no país, por faltar com a imparcialidade exigida pelo cargo. Mesmo tendo de se retirar para Paris, continuou guerreando a seu modo. Sem dinheiro nem para comprar sapatos, como ele mesmo recorda em suas memórias, chegou a organizar em 1937 um Congresso de Escritores Antifascistas reunindo nomes consagrados e outros nem tanto na época – como o francês André Malraux, o mexicano Octavio Paz, o chileno Vicente Huidobro e o peruano César Vallejo.

Para a Espanha, escreveu Espanha no Coração. “Com esse livro, Neruda assume seu dever de poeta que ele mesmo chama de utilidade pública”, opina Juan Agustín Figueroa, presidente da Fundación Neruda no Chile. “O poeta tem agora uma visão diferente do mundo ao entregar seu memorável hino às glórias de um povo em guerra. Assim, o mundo mudou e sua poesia também”, completa.

Em 1945, Neruda, já consagrado, foi a um comício organizado em comemoração à libertação de Luís Carlos Prestes declamar, em espanhol, em pleno estádio do Pacaembu, um poema escrito para o homenageado. “Aqueles aplausos tiveram profunda ressonância em minha poesia. Um poeta que lê seus versos diante de cento e trinta mil pessoas nunca mais será o mesmo, nem pode escrever da mesma maneira”, escreveu.

Amalho Pinheiro afirma que a poesia política é mais conhecida, primeiro pelas circunstâncias muito fortes da época e depois por ser de mais fácil compreensão, pois falam de necessidades básicas e são mais simples e diretos. “A dimensão político-partidária é um limitante para ele. Outros poetas resolveram melhor essa questão. [Vladimir] Maiakovski, César Vallejo, no Peru, Oswald Andrade, no Brasil são exemplos. Em Neruda, o lado político foi um impedimento porque ele dicotomizou demais a luta política, permanecendo muito fiel aos ditames comunistas, mesmo depois que eles naufragaram, quando Stálin começou a matar gente”, opina Pinheiro. Isso não quer dizer que não haja poemas preciosos dessa fase. Em muitos textos de temática político-partidária ele retoma os elementos orgânicos, a terra, a água, as pedras.

Mas se agradava a alguns, o lado militante do poeta desagradava a outros tantos. Haroldo de Campos, por exemplo, não poupava críticas à fase política de Neruda. “Ele acabou desenvolvendo uma espécie de dispositivo retórico que tornava sua poesia muito previsível – embora tivesse momentos excelentes. De fato, tal dispositivo, sobretudo quando manipulado pelos epígonos, era bastante monótono e pouco interessante”, disse em entrevista a Rodolfo Mata, do Centro de Estudos Literários da Universidad Nacional Autónoma de México.

História da América Latina

A obra mais conhecida de Neruda – considerada como a mais importante por ele mesmo – traz elementos tanto telúricos quanto da luta partidária. A obra foi publicada em 1950 no México e clandestinamente no Chile. Neruda estava exilado na Europa, perseguido pelo governo de González Videla, a quem criticava duramente pela violenta repressão aos movimentos de mineiros de estanho.

Canto Geral é uma compilação de 250 poemas divididos em 15 partes. “É uma epopéia moderna de toda a América Latina, incluindo o Brasil”, aponta Mariluci Guberman. “Normalmente, as epopéias começam pela parte histórica e depois trazem o mito, o herói. No Canto Geral, ele começa com o mito, falando do índio, que remete a uma idéia romântica do bom selvagem. Faz da história uma apologia do homem primitivo das Américas.”

Um trecho bastante conhecido da obra é Alturas de Machu Picchu. Ele foi concebido em uma viagem à região peruana em 1940, quando Neruda voltava para o país, desistindo da carreira diplomática. “Senti-me infinitamente pequeno no centro daquele umbigo de pedra, umbigo de um mundo desabitado, orgulhoso e eminente, ao qual de algum modo eu pertencia”, começa Neruda Neruda em suas memórias. “Senti que minhas próprias mãos tinham trabalhado ali em alguma etapa distante, cavando sulcos, alisando penhascos. Senti-me chileno, peruano, americano”, completa.

Em outra parte, descreve a brutalidade dos conquistadores espanhóis e o massacre de diversos grupos indígenas. Em seguida, faz uma louvação aos libertadores (entre os quais figuram o poeta Castro Alves e Luís Carlos Prestes), seguindo assim a história da América Latina. As oligarquias, as multinacionais, diversos grupos de trabalhadores também têm espaço na história. “Ele assume um eu coletivo, toda a identidade latino- americana. É um canto único para a América”, sustenta Mariluci. “Essa obra é uma monstruosidade anacrônica (…), e por isso é uma prova de que a América Latina não apenas está fora do tempo histórico europeu como tem todo direito e, mais, a penetrante obrigação de estar”, defende Julio Cortázar. Sobre a vastidão de temas abordados, Cortázar compara a obra a “uma loja de ferragens em que tudo se encontra, de um trator a um parafuso; com a diferença que Neruda rejeita olimpicamente o pré-fabricado no plano da palavra”



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