A transformação começa assim

A partir de técnicas simples, baratas e que podem ser reaplicadas em outras comunidades, grupos excluídos ou esquecidos adquirem instrumentos de geração de emprego e renda. A Fundação Banco do Brasil apóia projetos desse...

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A partir de técnicas simples, baratas e que podem ser reaplicadas em outras comunidades, grupos excluídos ou esquecidos adquirem instrumentos de geração de emprego e renda. A Fundação Banco do Brasil apóia projetos desse tipo e colaborou com a realização desta reportagem

Por Glauco Faria

 

Jamaraquá é uma das comunidades tradicionais que fica ao longo do Rio Tapajós, no interior do Pará, e vive um novo processo extrativista. À primeira vista, um visitante, dos muitos que começam a descobrir o turismo ecológico na selva amazônica, pode ter a sensação de que ali o tempo parou. No vilarejo, não há qualquer meio de comunicação que não seja o rádio, o chão é de terra e as casas são feitas de madeira, às vezes com teto de sapê. São 20 famílias que vivem no lugar, um total de 94 pessoas. Chamados de ribeirinhos ou caboclos, eles são descendentes dos primeiros migrantes que chegaram à Floresta de Tapajós para a extração da borracha, que, no fim do século XIX e no início do século XX, era uma das principais atividades econômicas do país.

Um pouco mais distante da vila, em meio à floresta, Donildo Lopes dos Santos continua o rito praticado por seus antepassados há mais de cem anos. Corta a seringueira com uma técnica aprendida com os pais, tomando cuidado para não fazer cortes profundos demais na árvore. “Se a gente erra, a seringa pode levar mais de um ano pra se recuperar”, explica. Embora seja uma atividade típica da região, repleta de imensos seringais, a extração do látex vinha perdendo importância na comunidade e em toda a região. O baixo preço da borracha e a concorrência de grandes produtores de São Paulo prejudicaram os traba­lhadores que não conseguiam viabilizar sua produção, já que o processo rudimentar não permitia concorrer em condições de igualdade, além de a borracha obtida não ter um alto valor agregado.

O ânimo de Donildo para trabalhar com a borracha, assim como de outros membros da comunidade, voltou graças ao projeto Tecbor, Tecnologia Alternativa para Produção de Borracha na Amazônia, desenvolvido por pesquisadores da Universidade de Brasília (UnB). O programa dá cursos de treinamento e capacita seringueiros para que, através de técnicas que podem ser facilmente manipuladas, seja produzida uma borracha de alto valor agregado e com maior segurança, sem afetar o meio ambiente.

Antes, o processo de defumação do látex era feito em buracos no solo forrados com sementes nativas, o que era extremamente prejudicial à saúde dos trabalhadores. Agora, a defumação é feita pelo banho de ácido pirolenhoso, que reproduz as propriedades químicas da fumaça. Assim, o processo de produção fica mais rápido e a bor­racha sai limpa e resistente a fungos. Com a nova tecnologia, os seringueiros podem organizar melhor a extração e negociar um preço mais alto.

Edinélson Fonseca dos Santos, líder comunitário, não esconde sua satisfação ao falar do projeto. Ele acredita que a extração da borracha é a vocação natural da região. “Desde que me entendo como gente, minha família trabalha com seringal”, lembra Edinélson, que aprendeu a cortar seringueiras aos nove anos de idade com sua mãe, conta que seis famílias participam do projeto na comunidade, mas a expectativa é de que esse número aumente. “Como o programa está dando certo, já tem mais gente interessada em participar”, comemora. Alguns já chegaram a garantir uma renda de R$ 400 por mês, quantia significativa para os moradores do local, que até então dispunham de poucas opções de renda, mais voltados para a agricultura de subsistência.

Por causa do Tecbor, a borracha produzida não precisa passar por outros processos, como o beneficiamento em usinas, para se tornar um produto mais rentável. Com a Folha de Defumação Líquida (FDL), o nome dado à tecnologia desenvolvida pelo projeto, os seringueiros conseguem preços que chegam a quatro reais por quilo da borracha, quando antes vendiam apenas o sernambi (látex coagulado nas tigelas que recolhem a seiva da seringueira) a aproximadamente 1,30 reais por quilo. Na comunidade de Jamaraquá, também se produz a borracha pelo método Folha Semi-Artefato (FSA), que serve, por exemplo, para a confecção de mouse pads. “Embora a demanda pela borracha feita a partir da FDL seja alta, já que se destina à produção de pneumáticos, optamos por trabalhar com FSA este ano, porque tivemos demanda”, esclarece Vanda de Souza Ferreira, assistente técnica do projeto.

Para reaplicar essa tecnologia nos quatro estados da região amazônica, a Fundação Banco do Brasil conta com a parceria do Ibama, que dá suporte no acesso às comunidades, que vivem nas florestas. Atualmente, mais de 300 famílias de seringueiros nos estados do Acre, Rondônia, Pará e Amazonas estão utilizando o processo de beneficiamento Tecbor para beneficiar a borracha e aumentar a renda.

Cajueiro Muito consumido na Europa e nos Estados Unidos, o caju, e principalmente sua casta­nha, têm movimentado o comércio interno, a indústria e as exportações no Brasil. Como o terceiro maior exportador do produto, o país produz 200 mil toneladas de castanhas ao ano e exporta 90% desse volume. Nesse processo estão envolvidas 300 mil pessoas, dos quais 255 mil são de agricultores familiares.

Apesar dos números, a produção enfrenta problemas. Em primeiro lugar, a demanda impede que se espere o tempo adequado para a co­lheita, o que gera perdas tanto do pseudofruto (o nosso caju conhecido) quanto da castanha. Apenas 65% das castanhas permanecem inteiras e 15% da polpa do caju são aproveitadas para fabricar doces, sucos, bebidas fermentadas.

A saída para esse desperdício está sendo desenhada agora, com uma parceria da Fundação Banco do Brasil, Embrapa, Sebrae e entidades locais. São as mini-fábricas de castanha de caju. Delas, 38 serão revitalizadas, e 12 novas serão instaladas. Para aproveitar a polpa do caju, serão instalados também 10 módulos agroindustriais, recolhendo em condições ideais a matéria-prima para sucos, rapaduras, ameixas de caju, refrigerantes e vinhos. Ceará, Piauí, Maranhão, Rio Grande do Norte e Bahia são os Estados beneficiados. Ao todo, serão investidos 9 milhões de reais.

Pascoal é um pequeno lugarejo, distrito do município de Pacajus, distante cerca de 60 quilômetros de Fortaleza, no Ceará. Tem uma praça, uma igreja e as ruas não têm nem calçamento. É terra batida mesmo. A população não passa de 2.500 habitantes. Uma comunidade pobre e carente, que tinha no esporádico trabalho rural ou na venda artesanal de bordados as únicas fontes de renda. Mas a vida dos moradores desse pequeno lugarejo está mudando.

A revitalização da mini-fábrica de castanha de caju já permite me­lhores condições de trabalho a cerca de 100 famílias de Pascoal. E vem beneficiando, direta e indiretamente, a vida de todos. “Tudo melhorou. Continuo vendendo fiado, mas agora o pessoal paga direitinho. E estão comprando muito mais produtos”, comemora o comerciante Assis Maia, dono do mercadinho local, que contabiliza um aumento nos lucros em cerca de 40% com a revitalização. A expectativa é de que o projeto possa gerar 166 postos de trabalho diretos e 240 indiretos.

A minifábrica de Pascoal, no distrito de Pacajus, existe na verdade, desde 1989. Ele surgiu com o envolvimento da Associação de Moradores de Pascoal, quando a Embrapa lançou o Programa de Processamento da Castanha de Caju em modo artesanal, mas não vinha funcionando bem, a ponto de só abrir e gerar empregos nos períodos de safra. O projeto da Fundação Banco do Brasil para revitalização e expansão das minifábricas de castanha de caju, que teve início em 2003, garantiu novo fôlego. “Desde então, estamos vendo a coisa andar. O produto poderá ficar estocado e garantir renda o ano inteiro”, comenta ex-presidente da Associação, Francisco José Chagas. A entrada de mais dinheiro fez com que a fábrica se renovasse. Foram comprados equipamentos novos e construídos galpões de estoque.

“A minha vida era mais difícil porque o dinheiro que eu ganhava vinha apenas da venda de bordados, que era muito pouco. Agora, te­nho emprego o ano inteiro e ainda dá pra estudar”, conta Márcia Nogueira de Oliveira, 19 anos. Até então, a única perspectiva de futuro para ela e outras mulheres de Pascoal era migrar para Fortaleza para trabalhar como doméstica em alguma casa de família. Agora, elas são as maiores geradoras de renda do lugarejo, já que 70% dos trabalhadores da mini-fábrica são do sexo feminino.

Reciclagem e inclusão social
Desde os oito anos de idade, Maria das Graças Marçal, mais co­nhecida como Dona Geralda por conta do santo de devoção da sua mãe, tem como trabalho catar papel. Nascida em Cerro, no interior de Minas Gerais, a vida ficou difícil desde que a família foi tentar a sorte na capital mineira, Belo Horizonte. Vítima das mais diversas discriminações e mesmo de perseguições policiais, mãe aos 16 anos, sempre teve que lutar muito pela sobrevivência e a de seus nove filhos.

Hoje, aos 54 anos, dona Geralda é considerada um símbolo. É sócia-fundadora da Associação dos Catadores de Papel, Papelão e Material Reaproveitável de Belo Horizonte (Asmare). Por causa de sua trajetória, em 1999, foi agraciada como representante dos catadores junto à Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (Unesco), com menção honrosa pelo trabalho desenvolvido, além de ter recebido o prêmio Mulher do Ano da revista Cláudia. Mesmo com todo o reconhecimento, dona Geralda ainda trabalha firme e tem um sonho. “Queremos transformar a Asmare em uma indústria de reciclagem e, assim, fechar todo o ciclo produtivo. Catar o material na rua, fazer a triagem, pesagem e, por último, reciclar.”

Esse sonho parece estar perto de se realizar. Por meio da Fundação Banco do Brasil, Ministério do Trabalho e Emprego e da Brasilprev, Belo Horizonte abrigará um projeto piloto de fortalecimento da rede de economia solidária da região. Com um investimento de 2 milhões de reais, as instituições e a Asmare já iniciaram a construção de uma indústria de reciclagem de plástico na região metropolitana da capital. Será a primeira indústria do país de propriedade dos catadores, onde serão processados os materiais coletados pelos associados da Asmare e de mais sete cooperativas da região, beneficiando mais de 3.200 pessoas, direta e indiretamente. Assim, os próprios catadores poderão reciclar seu material, que hoje é vendido para dois grandes depósitos.

Os catadores da Asmare estão animados. A expectativa é de que, em dois anos, consigam elevar seus rendimentos em 70%, graças à transformação do plástico em pellets (grânulos) e ao comércio desse material. É mais um importante passo para uma associação que nasceu a partir do trabalho da Pastoral da Rua de Belo Horizonte, em 1990. O objetivo era estabelecer um processo de organização social e produtiva que permitisse aos participantes o acesso à cidadania.

Os dez catadores que acreditaram na idéia viram surgir de suas mãos a Asmare. Maurício Antônio Rodrigues, que é o associado de número 2 (o número 1 é o seu padrasto), lembra do início como um momento especial em sua vida. “Foi ali que a gente decidiu trabalhar para uma coisa comum”. O primeiro esforço foi reunir material reciclável durante seis meses para trocar pelo dinheiro necessário para começar a associação. Em 1993, a prefeitura começou a investir em programas ambientais, como a coleta seletiva, e estabeleceu uma parceria com os catadores, abrindo caminho para o seu reconhecimento como agen­tes ambientais.

Hoje a Asmare tem 350 associados e beneficia indiretamente 1.500 pessoas. Recolhe por mês aproximadamente 450 toneladas de papel, papelão, plástico, PET e latinhas de alumínio. Alfredo de Souza Matos, de 47 anos, o Índio, já foi ajudante de padeiro, confeiteiro e cabeleireiro, morou na rua por muitos anos e há cinco é associado. Ele não pára, percorrendo os galpões onde o lixo passa por uma triagem para ser pesado e vendido, mas não tropeça na hora de explicar o projeto.

É ele quem diz que um associado precisa separar 1.500 quilos de papel ou 550 quilos de plástico por semana para receber 56 reais na sexta-feira. A média mensal de rendimentos é de um salário e meio a dois salários por catador. Mas Índio conta que há gente que trabalha muito e ganha até 300 reais por semana. “O que cada um recebe é compatível com sua produção. Quem quer trabalhar mais, recebe mais, não é? E também tem catador que trabalha num ponto melhor de coleta que outro”.

Além desse ganho, o associado participa dos lucros da associação. Trimestralmente, as “sobras” – que seriam equivalentes ao lucro numa empresa capitalista – são divididas entre todos. O administrador João Carlos Oliveira Caetano esclarece que 60% da produção é de papel e a sua venda cobre o total de despesas. “Os outros 40% vem do plástico e o dinheiro é capitalizado e dividido entre os associados conforme a sua produção no trimestre”, pontua.

Transformação social
O presidente da Fundação Banco do Brasil, Jacques Pena, fala sobre o trabalho da entidade sobre tecnologias sociais. Desde 2001, um Banco de Tecnologias Sociais e um prêmio são mantido pela Fundação.

Quantas pessoas são atendidas pelos projetos da fundação?
Se juntarmos o público de todas as ações, podemos afirmar que em 2003 foram atendidas mais de três milhões de pessoas. Apesar das ações e dos resultados alcançados, temos consciência de que ainda é preciso fazer muito mais. Além de divulgar e investir na reaplicação de tecnologias sociais, a Fundação Banco do Brasil também desenvolve ações nas áreas de educação e cultura e geração de trabalho e renda.

Como tem sido o impacto das tecnologias sociais nas populações locais?
A implementação de soluções sociais dirigidas ao aproveitamento das potencialidades locais para gerar trabalho e renda está revolucionando algumas comunidades. O associativismo, o cooperativismo e a sustentabilidade estão construindo uma nova mentalidade, mostrando às pessoas que é possível ganhar em grupo, que é possível melhorar a renda e a qualidade de vida da comunidade a partir da capacitação profissional e da articulação social.

O senhor poderia citar exemplos do efeito multiplicador desses programas?
Com certeza. A tecnologia social das minifábricas de castanha de caju, desenvolvida pela Embrapa Agroindústria Tropical, é um deles. Outro projeto é o sistema Mandalla. Essa tecnologia foi identificada no ano passado pelo Prêmio Fundação Banco do Brasil de Tecnologia Social. Ela consiste na construção de um sistema alternativo de irrigação, que proporciona às famílias de baixa renda da região do semi-árido, condi­ções de cultivar verduras, frutas e raízes, além de criar peixes e aves para o consumo interno. Em parceria com o Sebrae e com o Ministério do Desenvolvimento Social, estamos levando essa técnica para tribos indígenas do Mato Grosso e para famílias que vivem em regiões semi-áridas, como o interior da Paraíba e o Vale do Jequitinhonha.

glauco@revistaforum.com.br

Com reportagens de Fabíola Colares e Max Gonçalves.



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