Antena da Raça

A África é um horizonte sem fim. São mais de 30 milhões de metros quadrados. São 53 países. São 850 milhões de pessoas. A África também é um poço infindável de sofrimento Por Marco Frenette...

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A África é um horizonte sem fim. São mais de 30 milhões de metros quadrados. São 53 países. São 850 milhões de pessoas. A África também é um poço infindável de sofrimento

Por Marco Frenette

A África é um horizonte sem fim. São mais de 30 milhões de metros quadrados. São 53 países. São 850 milhões de pessoas. A África também é um poço infindável de sofrimento. São mais de 800 milhões de africanos vivendo com menos de um dólar por dia. Doenças, fome, subnutrição, guerras civis e analfabetismo imperam largamente. Em meio ao caos político e social, o continente consegue responder por apenas 2% do PIB mundial. A África é o coração das trevas. E para o imaginário europeu e sul-americano, a escuridão negra revelou-se em todas as suas nuances políticas, culturais e sociais não a partir da exposição midiática das crianças famélicas da Nigéria ou das guerras civis na Somália, mas sim a partir da luta obstinada e metódica do sul-africano Nelson Mandela contra o regime de segregação racial de seu país.

Filho de um chefe tribal, Mandela nasceu em 1918 e formou-se em direito em 1944, quatro anos antes do início do regime do apartheid, que direcionaria todos os esforços do Estado para a segregação baseada nas leis. Sua preocupação com os rumos de seu país e as condições dos negros são antigas, pois no mesmo ano em que se tornava advogado, ajudava a fundar a liga juvenil do Congresso Nacional Africano (CNA), partido da maioria negra do país. Praticamente todo o movimento negro de combate ao racismo apostava em estratégias de não-violência para protestar. Boicotes, manifestações e demonstrações públicas pacíficas davam a tônica das ações do movimento negro.

No dia 21 de março de 1960, a história do povo negro sul-africano mudou. Entre 5 e 7 mil pessoas, na melhor tradição de não-violência, se agrupam diante da delegacia de polícia da cidade de Sharpeville. Nos planos dos líderes, era o primeiro dia de uma série de cinco de manifestações pacifistas contra a Lei do Passe, que restringia a circulação dos negros a certas áreas das cidades e horários do dia. A população foi convocada a deixar seus passes em casa e se deslocarem até a delegacia de polícia para se entregar. Com prisões superlotadas e nenhuma força de trabalho nas fábricas, a economia minguaria, forçando governo a ceder.

O que se seguiu entrou para a sangrenta e triste história do país como o Massacre de Sharpeville. Mais de 50 pessoas foram mortas por tiros disparados aleatoriamente por 300 policiais. A covardia dos oficiais, os 154 dias de estado de emergência declarado nove dias depois e a cassação do registro do CNA e de outros partidos mudaram os rumos da militância de Mandela. Cansado dos meios pacíficos para a libertação de seu povo, ele radicaliza, passando à clandestinidade para fundar o braço armado da CNA, a Umkhonto weSizwe (“Lança da Nação”). Em 1961, viaja para vários países africanos, como Etiópia, Marrocos e Argélia, para pedir apoio à Umkhonto. Mas já no ano seguinte, após participar de uma greve, vai preso e é condenado (em um processo arrastado até 1964) à prisão perpétua.

O batismo de fogo

A condenação foi o batismo de fogo, o rito de iniciação e o desvio do caminho de um arremedo de guerrilheiro para o de um futuro líder pacifista. Foram 27 anos de reclusão, período em que demonstrou uma fibra e uma firmeza de caráter e propósito ímpares. Ironicamente, o governo sul-africano deu-lhe algo precioso: tempo de sobra para pensar.

E pensou bem, e cada vez melhor. A partir em 1986 – em seu cárcere na prisão da ilha de Robben, na Cidade do Cabo – inicia as conversações com o governo branco do Partido Nacional, e vai conquistando rapidamente mais posições na negociação. Pressionado pela comunidade internacional cada vez mais intensamente, o governo sul-africano oferece a Mandela a liberdade no exílio. Ele recusa, levando a público sua frase moral e taticamente brilhante: “Minha liberdade é indissociável da liberdade de meu povo”.

Os movimentos de consciência negra vinham tornando a situação cada vez mais tensa, especialmente em Soweto, distrito de Joanesburgo, onde quase toda a população negra da cidade vivia. A partir de 1976, com o levante dos estudantes contra a determinação de que as aulas fossem dadas em afrikaner (idioma dos brancos do país, que consiste de uma mistura de alemão e holandês), que terminou com jovens mortos pela polícia, os confrontamentos beiravam a explosão.

O líder daquele povo estava preso. Ele sempre fora um político, mas agora era um político da paz e da reconciliação. Pregava contra o ódio. Criticava as divisões tribais de seu país, com os intermináveis – e muitas vezes sangrentos – desentendimentos entre zulus, chosas, pedis, nebebelis e suazis, que obliteravam a verdade maior da opressão branca. O notável, porém, era sua postura contra o apartheid, mas não contra os brancos. Em certos momentos, ao falar com sinceridade da importância do perdão para a África do Sul achar seu caminho de prosperidade e justiça social, assemelhava-se a um Cristo negro. Ou a um Buda de ébano. Era um vingador sem vontade de ferir, que oferecia a outra face para não ter que ver mais derramado o sangue do negro. Sabia das pressões do outro lado da mesa e negociava com inteligência.

Libertado em 1990, já septuagenário, com a pele enrugada, cabelos brancos e postura um tanto encurvada, trazia no rosto a simpatia e a aura dos sábios. Para os negros sul-africanos, deve mesmo ter parecido que ele viera dos céus para conduzir a “nação arco-íris”, como o país passou a se definir mais tarde na embriaguez esperançosa do pós-apartheid.

Como vice-presidente do CNA, visita diversos países para propagar e defender a causa anti-apartheid, pedindo a manutenção das sanções econômicas à África do Sul. No ano seguinte, está à frente da delegação da CNA para as primeiras negociações multipartidárias da África do Sul. Em 1993, Mandela participa ativamente da criação do Conselho Executivo Transitório, um organismo multirracial de ajuda ao governo, e de negociações tensas e delicadas para a transição que ocorreria com as eleições marcadas para 1994. É em 1993 que Mandela recebe, juntamente com Frederik de Klerk, então presidente da África do Sul, o Prêmio Nobel da Paz. No ano seguinte, a luta constante e quase sobre-humana de Mandela é recompensada: torna-se o primeiro presidente negro da África do Sul, na primeira eleição multirracial depois de 350 anos de dominação branca.

A vitória da realidade

Com uma trajetória tão espantosa, não se admira que Mandela tenha sido alçado à condição de um semideus. Nunca houve na África Negra um nome tão forte e tão carregado de simbolismos como o dele. Mesmo os que criticam a falta de mudanças mais profundas, a remediação da pobreza e das crises sociais não ignoram a importância do líder. Mandela é uma verdadeira instituição.

No momento em que ele é transformado em uma espécie de Salvador, obscurece-se uma realidade de lutas intermináveis do povo negro sul-africano, envolvendo inúmeros líderes e inúmeras ações políticas que varreram o país no mesmo período em que Mandela se fortalecia como líder negro (ver box). A rigor, poderíamos dizer, que não foi Mandela quem livrou a África do Sul da vergonha do apartheid. Ele fez muito mais: não se tornou, como queria em um período de desespero, a “lança da nação”, tornou-se a “antena da raça”, para transferir para o plano político a expressão literária do poeta Erza Pound. Com sua fibra, capacidade de liderança, inteligência política e amor, catalisou de modo admirável o sentimento negro e as lutas que se travavam para a queda do apartheid. Mandela foi a cabeça do dragão.

Porém, ao abandonar o terreno dos simbolismos e esperanças, os fatos se mostram aterradores. Uma década após a queda do regime segregacionista, a África do Sul continua a sofrer de males terríveis (ver pág. 10). Como presidente, Mandela não conseguiu implementar todas as mudanças que o país precisava para acabar com a relação entre a cor da pele e a pobreza. Cansado, desiste de disputar a reeleição em 1999, deixando espaço para seu vice, Thabo Mbeki assumir o cargo.

Mesmo tendo desiludido parte da população, Mandiba (avozinho) Mandela ainda é querido pelo povo e respeitado mesmo pelos críticos de seu governo. Depois de ter anunciado sua aposentadoria e passado a evitar a imprensa para preservar a saúde aos 85 anos, permaneceu como um dos principais líderes mundiais do século. E não há na África do Sul sucessores com sonhos e estratégias de ação à altura dos dele.

Mais de um negro

A queda do regime racista sul-africano teve Mandela como figura máxima, mas a militância de tantos outros líderes negros não foi menos importante

Onde há opressão, há reação. Mas nem sempre ela torna-se mundialmente conhecida ou devidamente famosa. Quando Mandela co-fundou a Liga Juvenil da CNA, por exemplo, estava acompanhado por dois outros importantes líderes negros, Walter Sisulu e Oliver Tambo. Sisulu (1912-2003) teve papel de destaque nas atuações do grupo militante Lança da Nação, e foi também secretário geral do CNA. Ele foi libertado em 1989, após 26 anos de prisão. Tambo (1917-1993) também foi secretário geral do CNA, e militante incansável da causa negra. Mesmo antes da fundação da Liga Juvenil, ambos já se mostraram importantes na vida política de Mandela.

A primeira atividade política de Mandela ocorreu por ter conhecido Tambo – em 1940 foram expulsos da Fort Hare University por participarem de uma greve estudantil. Mais tarde Mandela conhece Sisulu, que é quem conseguirá para ele um trabalho em uma firma de advocacia, garantindo um rendimento financeiro, fundamental para seu engajamento nas lutas políticas. Bem mais jovem que Mandela, e com a vida e um histórico de lutas mais curtos, foi Steve Biko (1946-1977), assassinado numa prisão, e por isso mesmo transformado em mártir do povo negro sul-africano. Biko foi o fundador e o primeiro presidente da South African Student´s Organisation e presidente honorário, em 1972, da Black People´s Convention. Quem discursou durante o funeral de Biko, foi o bispo Desmond Tutu, outro importante líder negro, e este com relativa proeminência internacional. Foi a morte de Biko que fez Tutu perceber a importância do engajamento político da Igreja Anglicana para combater o apartheid. Primeiro negro a ocupar o posto de bispo anglicano em Joanesburgo e prêmio Nobel da Paz em 1984, Tutu também teve papel de destaque na campanha para o boicote econômico internacional ao regime racista sul-africano, além de presidir a famosa Comissão Verdade e Reconciliação da África Sul organizada por Mandela. Vê-se que a luta incomparável do grande líder negro, Madela, foi árdua, mas ele nunca esteve sozinho.



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