As duas caras de Kerry

Kerry fez sua carreira política oscilando entre as frações liberal e conservadora do Partido Democrata Por Newton Carlos   Um jornal do establishment, do Boston Globe, estado...

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Kerry fez sua carreira política oscilando entre as frações liberal e conservadora do Partido Democrata

Por Newton Carlos

 

Um jornal do establishment, do Boston Globe, estado natal de Kerry, chamou-o de camaleão. Não se expõe com tonalidades imutáveis, joga com as circunstâncias. O Village Voice, da intelectualidade liberal, foi mais direto. Acusou-o de evitar definições, de ser escorregadio, de tentar driblar os fatos. O Counterpunch, mais à esquerda, disse que dentro dele convivem um doutor Jekyl e um senhor Hyde, ou seja, um médico e um monstro. “Não pode ser encarado como alternativa a Bush”, é a sentença do coordenador da maior coligação pacifista dos Estados Unidos, inconformado com a pouca clareza de Kerry quanto à retirada das tropas americanas do Iraque.

A expectativa entre os que se opõem à guer­ra de modo militante era a de promessa de um gesto à espanhola, vitória nas urnas e saída imediata. Frustração. Será que isso significa que John Kerry, candidato presidencial democrata, de oposição a Bush, não merece o voto dos que querem mudar o rumo dos Estados Unidos? Os eleitores que procuram simplesmente acabar com Bush, e não são poucos, segundo as pesquisas, parecem não se importar com esses tipos de indagações. Mas Kerry tem uma biografia, e ela não pode ser esquecida no momento em que é um dos dois protagonistas numa das eleições mais dramáticas da história americana.

Kerry fez sua carreira política oscilando entre as frações liberal e conservadora do Partido Democrata. Escolhido candidato de oposição, como o mais viável por situar-se no “centro” – aceitável à esquerda e sem meter medo na direita – prometeu que, caso vença, faria Bush prestar contas como responsável pela guerra do Iraque. Ao mesmo tempo, de olho nos críticos republicanos que o acusam de fraqueza em questões de segurança, lembrou ter votado a favor do maior orçamento militar já transitado pelo Congresso. Eleito senador pela primeira vez em 1984, Kerry apoiou a criação de armas de alta tecnologia, como os bombardeiros B-1 e B-2, os foguetes Patriot e os helicópteros Apache, usados no Iraque.

Defende-se hoje dizendo ter sido mal assessorado. Em 1983, ainda aspirante a senador, criticou Reagan por ter mandado invadir a ilha de Granada, mas voltou atrás alegando que não havia compreendido a “majestade” da decisão de Reagan de subjugar pelas armas meia dúzia de gatos pingados metidos a bestas. “Nunca me opus publicamente”, desculpou-se. Negou apoio à resolução do Congresso autorizando o uso de força contra o Iraque em 1990. Diante do triunfo militar rápido, aplicou nova reviravolta e tornou-se partidário da guerra. Os próprios assessores de Kerry já se mostraram descontentes com esse “camaleonismo”, porque não é fácil administrá-lo.

Em outubro de 2002, Kerry, como todo o Senado americano, apoiou a invasão do Iraque. Tornou-se depois contra a guerra. Em 2001 votou a favor da aprovação do “Patriot Act”, conjunto de leis antiterroristas duramente criticado por entidades de defesa dos direitos civis. Mudou. Não quer a prorrogação do “Patriot Act”, com o argumento de que “somos uma nação de leis e liberdades e não de murros na noite”. Em seus 19 anos de Senado Kerry assumiu posições nada liberais. Em conferência na Universidade de Yale, onde estudou e integrou um grupo de jovens conservadores, o “Skul and Bones” (literalmente, Caveira e ossos), culpou as “permissividades” dos anos 60 por “desintegrações sociais” nos Estados Unidos.

Em 1994, quando os republicanos deram um banho nos democratas em eleições parlamentares, Kerry disse que seu partido fora punido por “excesso de liberalismo”, como por exemplo defender um sistema de saúde universal. Ele é o parlamentar mais rico, segundo a Forbes, com fortuna estimada em 550 milhões de dólares. Isto se deve, em boa parte, à herança recebida por sua mulher, Teresa Heinz, viúva de um senador bilionário. Quando Kerry lançou seu programa de política externa, o analista Rob Watson, da BBC, concluiu que é difícil encontrar muita diferença entre o candidato de oposição e Bush. Questão de ênfase, não de conteúdo. Como prioridade, Kerry citou a guerra contra o ter­rorismo.

No problem para Bush, com prioridade igual. Os Estados Unidos, segundo Kerry, devem continuar sendo soberanos em poder militar. Ele promete, no entanto – e isso é algo que pode ser pinçado como diferença – que só usará força “depois de esgotada a diplomacia” e que reconstruirá alianças ao redor do mundo. Sobre o Iraque falou pouco. Apelou para que Bush procure mais ajuda internacional, mas foi omisso quanto à retirada das tropas americanas. Muitos democratas se sentem frustrados com a ausência de críticas duras à ocupação do Iraque. Kerry e os seus jogam com a convicção de que a falta delas não fará com que os eleitores votem em Bush.

É a estratégia. Aglutinar o “antibushismo” sem alienar o centro. Na questão da guerra, dos jogos patrióticos, Kerry joga com a condição de herói condecorado do Vietnã. Vai ser longa e dura a jornada até as eleições presidenciais nos Estados Unidos em novembro, algo como um overkill, segundo o New York Times. A palavra em inglês foi muito usada no auge da corrida armamentista, quando os Estados Unidos e a ex-União Soviética construíram arsenais capazes de destruir o mundo várias vezes. Uma supercanificina, em termos políticos, ou até de retaliações pessoais, seria a imagem adequada para o que se avizinha já carregando nuvens pesadas.

Há confiança, entre os seus, de que Kerry sairá vitorioso nos “jogos patrióticos” lançados pela campanha de Bush, a segurança nacional como tema central. Herói da guerra, e depois pacifista, ciente da tragédia que era o Vietnã, Kerry foi convidado a depor no Congresso americano. As conversações de paz se estendiam, à procura de uma saída menos desonrosa o possível. A derrota era favas contadas. “Cometemos um erro invadindo e não é justo pedir a alguém que seja o último a morrer, porque há gente morrendo enquanto se conversa indefinidamente”, disse Kerry a deputados e senadores, depoimento que se tornou histórico e é relembrado a todo momento.

Outro aparente trunfo de Kerry são os “Bush-haters”, os que não suportam Bush, sua voz, arrogância, ignorância, olhares, jeitão de capataz e até o modo como anda. Para os que “odeiam Bush”, tudo no presidente americano é insuportável. Caso de uma senhora de 87 anos, mãe de um senador, que se voltou para o filho com a pergunta: “Como você consegue trabalhar com esse cara?”. O fato existiu, foi publicado em jornal com a omissão – é fácil entendê-la – do nome do político que engoliu em seco depois de repreendido em casa.

A tribo dos odiadores cresce e se torna mais agressiva. As armas de destruição em massa no Iraque, justificativa da invasão, não foram encontradas e o caos tomou conta do país ocupado. Documentação digital de violência contra presos iraquianos foi amplamente divulgada. Em Cannes, o grande vencedor foi um documentário ferozmente anti-bush, na linha dos “haters”. Um concurso intitulado “Bush in 30 seconds” (Bush em 30 segundos) premiou os melhores videoclipes de televisão antibush. O ganhador foi homenageado numa cerimônia pública em Nova York. Um dos clipes mais festejados carrega na ironia com o lema: “não deixemos nenhum bilionário abandonado na estrada” – alusão a um dos slogans eleitorais de Bush, “não deixemos nenhuma criança abandonada na estrada”.



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