As receitas do doutor Felisberto

Crônica de José Roberto Torero Por José Roberto Torero   O sinal estava vermelho. Então o doutor olhou para o lado e viu um homem estranhíssimo pedindo...

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Crônica de José Roberto Torero

Por José Roberto Torero

 

O sinal estava vermelho. Então o doutor olhou para o lado e viu um homem estranhíssimo pedindo esmolas. E o pior é que o estranho ser falou com ele como se o conhecesse:

— Como vai, doutor?

Ele abaixou o vidro e perguntou: — O senhor me conhece?

— Claro. O senhor é o doutor Felisberto da Matta Innocenti. Até lembro da placa no seu consultório: “Dr. FMI, clínica geral, cirurgias e contabilidade”.

-Isso mesmo. Mas eu não estou reconhecendo o seu rosto…

-Sou seu paciente. O senhor tem cuidado de mim nos últimos anos, não se lembra? Atchim!

— Saúde!

— Quem me dera…

— E quando eu comecei a tratá-lo?

— Ali pelos anos oitenta. Foi quando eu peguei esse resfriado. Atchim!

— Saúde!

— Não perca seu tempo…

— E até hoje você não se curou?

— Não, e olhe que eu segui fielmente cada uma das suas instruções. Mas fique tranquilo. Hoje em dia eu nem ligo mais para os espirros. Com licença, preciso tomar o meu vasodilatador… (glub, glub) Ah, agora sim! Mas eu falava que as suas prescrições me eram mais sagradas que a bíblia. Eu dizia para mim mesmo: Se o doutor Felisberto mandou eu fazer assim, eu vou fazer!

Sem saída, o doutor Felisberto sorriu meio sem jeito.

— Ops, já ia esquecendo, está na hora do meu moderador de apetite…

— Mas você já está tão magro…

— Foi o senhor que me receitou.

— Bem…

— E se o senhor falou, tá falado! Sabe, nem todo mundo confiava no senhor como eu. Na minha família, por exemplo, teve gente que disse que eu era um homem mais ou menos sadio, só que, depois dos seus tratamentos, eu fui ficando cada vez mais doente.

— É uma opinião…

— Uma opinião idiota! Essa gente não vê que o senhor é um especialista. Um especialista internacional!

— Ora, ora…

— Sim, essa idéia de virar meu nariz para cima, por exemplo, foi ótima. Assim eu respiro mais ar fresco. Só é ruim quando chove.

— Para isso servem os guardas-chuvas.

— É verdade. Eu só não tenho como segurá-los. O senhor cortou minhas mãos, lembra. Disse que era o jeito mais seguro de acabar com aquela cutícula encravada.

— Bem…, talvez…

— Atchim!

— Saúde.

— Um dia, um dia… Sim, eu tenho certeza de que mais cedo ou mais tarde eu vou ficar bom. Ainda mais com os seus tratamentos radicais. O senhor sempre me dizia: “Vamos ter de fazer alguns sacrifícios”, lembra?

— Vagamente…

— Sim, o senhor falava: “Vamos apertar o cinto mais um pouquinho, que logo as coisas vão melhorar!” E eu me empenhava em cumprir as metas estabelecidas, doutor, eu me empenhava como poucos.

— Que ótimo…

— Xi, me desculpe. Molhei as calças. É que uma das seqüelas da cirurgia da operação de troca de sexo foi essa incontinência urinária. Tudo bem, é um preço razoável, afinal de contas eu estou aqui vivo e vendendo saúde!

— Na verdade…

— Claro que eu tenho de fazer quimioterapia semanalmente e gasto dois terços do meu salário com remédios, mas imagine se eu fosse fazer o tratamento seguindo outros métodos. O resultado teria sido bem pior, não é, doutor?

O doutor Felisberto da Matta Innocenti coçou a cabeça, respirou fundo e sussurrou:

— Talvez eu tenha cometido um ou outro erro no seu tratamento…

— Cometer erros? O senhor? Imagine! O senhor não cometeu erro nenhum! Aliás, eu estou pronto para uma nova experiência. Que tal colocar minhas orelhas embaixo dos meus sovacos? Ou então minha boca no umbigo. Ei, doutor, por que o senhor está fugindo de mim? Vamos conversar mais um pouco. Não acelere, por favor!, não é fácil correr com uma perna só! Doutor…, atchim!



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