Biodiesel brasileiro: alternativa real

O único problema ainda é o preço. Hoje, o biodiesel fabricado não sairia por menos de 2,40 reais para o consumidor. Com isenção de alguns impostos e o aumento da produção em larga escala,...

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O único problema ainda é o preço. Hoje, o biodiesel fabricado não sairia por menos de 2,40 reais para o consumidor. Com isenção de alguns impostos e o aumento da produção em larga escala, o valor pode tornar-se competitivo

Por Valdecir Marvulle

 

A partir de novembro, o brasileiro passará a conviver com uma nova palavra no seu vocabulário: o biodiesel. A ministra de Minas e Energia, Dilma Roussef, anunciou em agosto que até lá será regulamentado o B2 para produção e comercialização, ou seja, o óleo diesel comercializado terá, em sua composição, 2% de biodiesel, a exemplo do que ocorre com a gasolina (que conta com 25% de álcool etílico proveniente da cana-de-açúcar).

Todo um esforço do governo federal e de alguns Estados está sendo rea­lizado para a implantação do Probiodiesel, programa lançado em 2002, com o intuito de desenvolver novas tecnologias para a produção de combustível utilizando como matéria-prima vários tipos de óleos vegetais.

Na Europa, o processo de industrialização do biodiesel se iniciou no início dos anos 90. A Alemanha é hoje a principal produtora e consumidora européia, com capacidade em torno de um milhão de toneladas por ano. A principal matéria-prima utilizada é o óleo de canola transesterificado com metanol. Lá, o biodiesel é cerca de 12% mais barato que o diesel mineral, resultado da isenção de tributos em toda a cadeia produtiva. Os ônibus urbanos franceses chegam a funcionar com misturas de até 30% de biodiesel.

O biodiesel é formado por meio de uma reação química (transesterificação) utilizando como reagentes um óleo vegetal ou gordura animal e um álcool. Todos os países que hoje fabricam o combustível utilizam o metanol como álcool nessa reação. Entretanto, o metanol possui algumas desvantagens em relação ao etanol: o primeiro é tóxico e obtido de derivados de petróleo, ao passo que o segundo é um biocombustível, sem quase nenhum impacto sobre o meio ambiente.

Para o Brasil, há ainda outra vantagem, já que o país é o maior produtor mundial de etanol, enquanto ainda importa o metanol. A substituição, além de gerar mais empregos (são 10 na produção de biodiesel para cada um no ramo do petróleo), o país reduziria sua dependência externa ao petróleo – já que importa 20% do consumo de diesel.

Vários grupos de pesquisas espalhados pelas universidades federais e estaduais do país, bem como em centros de pesquisas de empresas interessadas no assunto, conseguiram novas rotas para que esse processo acontecesse. Em relação ao funcionamento dos motores, todas as especificações do biodiesel dispensam modificações nos motores a diesel hoje existentes. Alguns testes demonstraram que o desempenho do motor melhora quando se usa uma mistura de até 20% de biodiesel no óleo mineral.

Necessidade Combustíveis de origem vegetal têm duas vantagens comparativas. Tanto o álcool à base de cana-de-açúcar quanto o biodiesel – a partir dos óleos de soja, de mamona, de palma e de algodão, entre outros – emitem menos poluentes. Além disso, as plantas absorvem uma quantidade de gás carbônico praticamente equivalente àquela produzida pela queima dos combustíveis, o que reduz muito o impacto ambiental. O biodiesel é ainda biodegradável, não é tóxico e não é considerado uma substância inflamável, pois o seu flash point é maior que o do diesel mineral, tornando o transporte, armazenamento e manuseio mais seguros.

O único porém ainda é o preço. Hoje, o biodiesel fabricado não sairia por menos de 2,40 reais para o consumidor. Com isenção de alguns impostos – conforme a proposta do governo – e o aumento da produção em larga escala, o valor pode tornar-se competitivo. Vale dizer que um dos subprodutos do biodiesel é a glicerina, que, devidamente purificada, atinge altos valores no mercado.

Primeira patente mundial Na década de 80, o trabalho pioneiro de Expedito Parente, professor da Universidade Federal do Ceará, obteve a primeira patente mundial de biodiesel, mas apenas nos últimos cinco anos o assunto despertou o interesse da comunidade científica. Hoje, há vários processos desenvolvidos para a obtenção do material. Fábricas pioneiras de produção estão sendo instaladas por todo o Brasil. Entretanto, isso cria um grande problema: o controle da qualidade desse combustível, o que colocaria o programa em xeque.

O programa no Brasil não restringe a produção a nenhum tipo de óleo ou álcool, apenas define índices de qualidade final do biocombustível. Mas percebe-se que os produtos mais utilizados devem ser o óleo de palma na região Norte, a mamona na região Nordeste, a soja na região sudeste e centro-oeste e a canola na região sul. O algodão também se apresenta com grande potencial, principalmente na região centro-oeste. Quanto ao álcool, o próprio governo incentiva que seja utilizado o etanol derivado da cana-de-açúcar.

O governo lançou, dentro do programa do biodiesel, incentivos à agricultura familiar. Segundo o Ministério de Desenvolvimento Agrário, cerca de 150 mil hectares de terra deverão ser usados para a produção de oleaginosas, beneficiando 30 mil famílias e gerando cerca de 1,35 milhão de novos empregos.

Inicialmente, a idéia era lançar o B5 até 2005, aumentando-se gradativamente a porcentagem de biodiesel na mistura até se chegar ao B20, em 2010. Dadas as dificuldades de se implementar um programa de grandes proporções, o governo decidiu introduzir inicialmente 2% de biodiesel e, em 2010, chegar a 5%.

O Brasil que deu exemplo na década de 80 utilizando o álcool como combustível, pode dar outro exemplo incentivando o uso de um combustível completamente limpo e ecológico como substituto do diesel mineral.

Valdecir Marvulle é professor de Energias Renováveis da Universidade Federal de Itajubá-MG – marvulle@unifei.edu.br



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