Corpo de Mulher

Por trás da violência cotidiana que atinge mulheres em todas as partes do mundo, há uma profunda mentalidade machista construída através de séculos de preconceitos religiosos e sexuais Por Marco Frenette  ...

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Por trás da violência cotidiana que atinge mulheres em todas as partes do mundo, há uma profunda mentalidade machista construída através de séculos de preconceitos religiosos e sexuais

Por Marco Frenette

 

Assim como antigamente o corpo do escravo era propriedade de seus senhores – e portanto passível de troca, mutilação, uso sexual e assassinato sem que recaísse sobre o criminoso o peso das leis ou da revolta geral – as mulheres continuam sofrendo até hoje todo o tipo possível e imaginável de abuso, em todas as partes do mundo. Na Índia, há cremações de viúvas, cujo crime foi ter tido a infelicidade de perder o marido; no mundo muçulmano, elas são mutiladas genitalmente, apedrejadas e mortas com o aval do Estado; na China, bebês do sexo feminino são mortos ao nascerem.

Por debaixo deste circo de horrores tragicamente aparente, há um tipo específico e subterrâneo de mentalidade, que vê a mulher, fundamentalmente, como propriedade e objeto de prazer dos homens. Esta convicção íntima da maioria é fruto de uma longa construção histórica, a despeito de muitos a acharem tão natural quanto a chuva.

Os registros mais interessantes para começar a compreender este tipo de mentalidade são os mitos da criação da mulher, sobretudo o de Pandora, da tradição grega, e o de Eva, da tradição judaico-cristã. A professora francesa de história antiga, Pauline Schmitt-Pantel, analisa estes dois mitos em um dos artigos do livro O Corpo Feminino Em Debate. “Pandora é plasmada com terra e água por Hefaístos; ou seja, é uma invenção técnica, uma obra de arte, um artifício. É tudo enfim, menos um ser natural. É uma vingança ardilosa de Zeus em resposta a outro ardil: o roubo do fogo divino por Prometeu. Conseqüentemente, sua natureza de mulher é ser um mal – por mais fascinante que seja sua beleza – enviado aos homens para arruiná-los.”, diz ela sobre o mito grego.

Para sintetizar o que significa o mito cristão, ela recorre às conclusões da teóloga francesa Phylis Trible, cujo raciocínio é o seguinte: “Um Deus masculino criou o primeiro homem e depois a mulher. Contrariamente à natureza, a mulher nasce do homem. Essa ordem assinala a superioridade do homem. A mulher é criada para as necessidades do homem. A mulher induz o homem a transgredir. É, portanto, a responsável pelo mal e pela infelicidade. Não é fidedigna; ela é pobre de espírito. O deus dá ao homem o direito de dominar a mulher”.

Este tipo de mentalidade advindo do Gênesis, “o prato principal de todos os apetites antifeministas e um dos textos fundadores do sexismo cristão”, segundo as palavras do estudioso francês Jean-Marie Aubert, servem também para as convicções judaicas, muçulmanas e para todo um aparato cultural disseminado pela sociedade capitalista contemporânea.

No entanto, não se deve atribuir apenas à estupidez religiosa a visão consolidada da mulher como uma pessoa de segunda classe. A ignorância laica sempre deu forte contribuição e demorou para ser refutada. A historiadora brasileira Lígia Bellini, em artigo sobre as concepções do corpo feminino no Renascimento, também no livro acima citado, analisa a obra Da Universa Mulierum Medicina (1603) do médico português Rodrigo de Castro, e dá informações interessantes sobre o estágio do conhecimento sobre a mulher naquela época: “Uma questão herdada da Antigüidade pelo saber renascentista é a de que o útero seria um animal com movimento independente, proposta por Platão (428 – 347 a.C.)”. Com Castro, esta noção de animalidade é novamente refutada, em concordância com o médico romano Galeno (131-201). Além da mulher ser vista como uma entidade quase inumana, acrescentou-se à sua mítica, qual Alien primevo, um monstro em suas entranhas.

Outro aspecto importante que compõe a redução de humanidade da mulher é o controle sobre sua sexualidade. Basicamente, sua transformação em objeto sexual se dá em dois níveis: como posse particular de um único homem e como posse coletiva. Para preservar aquelas consideradas propriedade particular, desenvolveu-se através dos séculos uma economia de repressão da sexualidade feminina: “Os peitos, as pernas, os tornozelos, a cintura são, cada qual por sua vez, objeto de censuras que traduzem as obsessões eróticas de uma época, e se inscrevem nas imposições da moda”, resume a historiadora francesa Michelle Perrot.

Bom exemplo disto é o uso do véu em várias culturas. Muito comum no Mediterrâneo antigo e adotado pelo cristianismo para proteger suas religiosas virgens, o véu, tão utilizado pelo Islã, tem, segundo Perrot, um significado bem mais amplo: “Ele é o instrumento e símbolo da invisibilidade e silêncio impostos às mulheres em virtude do perigo que se crê que elas representam. O véu exprime o medo que os homens têm das mulheres e sua vontade de apropriar de seus corpos.”

Paralelamente a esta necessidade de recato e encobertamento do corpo da mulher, há outra dinâmica social e cultural para aquela destinada, digamos, ao consumo coletivo. Nesse caso, é o inverso: pouca roupa, modos nada contidos e total disponibilidade. Os ícones deste mercado de carne são os programas de TV com suas dançarinas semi-nuas, as garotas das propagandas e a enxurrada de material pornográfico que circula pelo mundo. E, naturalmente, nesse campo destaca-se o mercado da prostituição, e em especial o do pornoturismo, no qual o Brasil é um dos principais expoentes, ao lado de outros países atrasados como Tailândia e Indonésia.

E o desprezo pela mulher, assim como o racismo, não respeita classe social ou nível cultural, e acontece tanto em países atrasados quanto nos adiantados. Os números provam isto. A ONU estima que na Colômbia pelo menos 20% de suas mulheres já foram vítimas de violência física ou sexual. Na Índia, o patamar é de 75%. No Canadá, 25%; e nos Estados Unidos, 28%; e aí a cada 18 minutos uma mulher é espancada e a cada 6 outra é estuprada. No Brasil, 50% dos assassinatos de mulheres são cometidos pelo companheiro ou marido, e 80% desses assassinos alegam o motivo de “defesa da honra”. Outros dados da ONU mostram que nos países árabes há apenas 4% de mulheres em suas assembléias legislativas. Na América Latina são 10%; na Ásia 19%; e 30% nos países europeus. No mundo muçulmano, para pararmos por aqui com os números, mais de 115 mil mulheres e crianças sofrem mutilação sexual.

A manutenção da condição inferiorizada da mulher através dos séculos – tanto na esfera privada quanto na pública – constitui-se, no campo da história das mentalidades e como fator cultural, um dos grandes – embora nocivo – feitos de manipulação cultural da humanidade. É incrível imaginar como foi possível que a idéia da mulher como cidadã de segunda classe tenha se espalhado por todo o planeta, e tenha se tornado uma íntima convicção das pessoas, a ponto disto tornar-se, digamos, quase uma segunda natureza do homem.

No entanto, nada há de natural neste modo de conceber a mulher. Simone de Beauvoir, em sua obra fundadora do feminismo contemporâneo, O Segundo Sexo, de 1949, escreveu a frase óbvia e libertadora: “Ninguém nasce mulher, torna-se mulher.” Esta era a síntese do mesmo pensamento que passava pela cabeça de Madeleine Pelletier, psiquiatra do início século 20, quando afirmou que a mulher precisa ser “um indivíduo antes de ser um sexo”. A despeito do feminismo, este tempo de igualdade continua muito distante



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