Crônica de uma tragédia anunciada

Os instantes que prenunciaram uma das maiores demonstrações de força popular dos últimos anos na América Latina, o levante que derrubou o ex-presidente boliviano Sanchez de Lozada Por Luis A. Gómez  ...

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Os instantes que prenunciaram uma das maiores demonstrações de força popular dos últimos anos na América Latina, o levante que derrubou o ex-presidente boliviano Sanchez de Lozada

Por Luis A. Gómez

 

No domingo, 12 de outubro, no meio da tarde, o rugir das balas e o choro dominavam as ruas da cidade de El Alto. O locutor de uma rádio local, com a voz entrecortada, contava que muitas esquinas dessa cidade, que fica a 4 mil metros de altitude, estavam manchadas de sangue. Os hospitais o chamavam para solicitar remédios e ambulâncias para as dezenas de feridos transportados em automóveis, carrinhos de mão e em macas improvisadas. “Isso não é um enfrentamento, é um massacre”, dizia o radialista. Nas ruas do bairro Santiago II, uma estudante chorava: “Mais quantos mortos querem? Nós, bolivianos, nos uniremos”.

Pouco depois das 5 da tarde, uma chuva de granizo lavou o asfalto e os militares se recolheram a seus quartéis. Às 8 da noite, depois de terem sido perseguidos até dentro de suas casas pelos soldados, os alteños – como são chamados os habitantes daquela região do país – haviam voltado a tomar as ruas e reiniciaram os bloqueios. O saldo agora seria de 26 mortos, com mais de cem feridos. Era o quinto dia de paralisação em El Alto contra a venda do gás boliviano aos Estados Unidos por meio de um porto chileno. E ainda faltavam vários capítulos dessa história a serem escritos.
Os massacres daquele mês em El Alto são mais um episódio da história de milhões de seres humanos que nunca tiveram rosto nem voz na Bolívia. Homens e mulheres para quem a palavra “governo” significa roubo, corrupção, saque e morte. Tudo isso no mais pobre dos países da América do Sul, com 62,7% de sua população no limite da pobreza e um Produto Interno Bruto (PIB) per capita de US$ 2.300 anuais, com 52% da população de indígenas.

Falar da Bolívia é falar de um país rico em recursos no qual os índios têm direito a votar apenas há meio século. É também dizer que cerca de 40% das famílias bolivianas vivem com US$ 2 diários, sentadas sobre a maior reserva de gás natural do continente. Ser índio e pobre nesse contexto é um paradoxo. Mas os grandes capitalistas do gás e do petróleo não previram que a desigualdade poderia ser um fator decisivo em seus negócios no país.

Um negócio total Em 1998, três importantes multinacionais do petróleo (British Gas e British Petroleum, do Reino Unido, e a espanhola Repsol) formaram o consórcio Pacific LNG. Seu principal interesse era vender gás líquido para o estado norte-americano da Califórnia para a geração de energia elétrica. A Pacific LNG firmou um contrato de distribuição exclusivo com a Sempra, a empresa que distribui energia para essa região dos EUA e o fornecedor de matéria prima devia ser a Bolívia.

Pela perspectiva empresarial, isso deveria ser o chamado negócio total. As duas empresas com maiores direitos de exploração e reservas de gás na Bolívia são justamente a Repsol e a British Gas. A frota encarregada de transportar o gás liquefeito opera sob controle de seu consórcio, o Pacific LNG. E, nos primeiros meses deste ano, uma subsidiária norte-americana da British Gas adquiriu a usina de transformação de gás em eletricidade mais importante do sul da Califórnia, La Paloma. Em poucas palavras, pretendiam controlar todas as fases do negócio, cobrar bem por ele e pagar uma irrisória quantia em impostos à Bolívia, como ficou estabelecido na “Capitalização”, o processo de privatização das empresas do Estado levado a cabo por Gonzalo Sánchez de Lozada durante seu primeiro governo (1993-1997).

Embora as múltis estivessem entusiasmadas, milhões de índios, milhares de trabalhadores e 800 mil alteños não viam nesse negócio maiores benefícios. Durante quase vinte anos, por exemplo, El Alto padeceu das dificuldades de uma cidade no Altiplano sem serviços básicos, convertida em uma enorme favela. “É a quarta cidade mais importante da Bolívia, mas seus cidadãos também são de quarta”, comenta o sociólogo Javier Fernández.

Mas ali no Altiplano, nos vales centrais do país, nas comunidades indígenas da região amazônica, começou a nascer um projeto difuso que tinha um objetivo: deter o saque. A qualquer preço.

“Todos somos alteños” Durante os últimos meses, as organizações sociais, os partidos populares e muitos intelectuais bolivianos insistiram em que a venda do gás era um roubo e que as multinacionais ficavam com a maior parte dos lucros. O ex-presidente Sánchez de Lozada sempre frisou que não era bem assim e que o negócio era para benefício de todos. Não acreditaram nele e em setembro explodiu o conflito.

Em meados do mês passado, em El Alto, o deputado indígena Felipe Quispe, o Mallku, iniciou uma greve de fome acompanhado de uma centena de autoridades tradicionais aymaras exigindo interromper a venda do gás pelo Chile, um país tradicionalmente inimigo da Bolívia que, em uma guerra do século XIX, deixou seu vizinho sem saída pelo mar. Em Cochabamba, os cocaleros de Chapare, os trabalhadores e outros setores da sociedade fundaram a Coordenadoria de Defesa do Gás e da Soberania. Evo Morales, deputado e líder cocalero, exortou: “Vamos levar adiante a defesa de nossos recursos”.

Em 20 de setembro, as comunidades aymaras de Sorata e Warisata, que bloqueavam as estradas na zona sul do lago Titicaca, foram as primeiras a receber a proposta do governo: em uma operação de “resgate de turistas” dirigida pelo ministro de Defesa Carlos Sánchez Berzaín morreram cinco pessoas. A escola de magistério de Warisata, “a Atenas aymara”, onde se educam os professores da zona rural, foi assaltada pelo exército. No dia seguinte, muitos começaram a pedir a renúncia de Sánchez de Lozada.

Na quarta-feira, 8 de outubro, com dezenas de passeatas e bloqueios em várias partes da Bolívia, El Alto iniciou uma paralisação geral. Na quinta-feira 9, pela manhã, uma passeata de mineiros que entrava na cidade foi recebida com balas e bombas de gás lacrimogêneo. À tarde, um dirigente da zona sul alteña, onde os militares haviam assassinado um jovem de 22 anos, comentou: “Vamos agüentar até as últimas conseqüências”. Nesse momento, uma caravana de vinte ônibus e diversos outros veículos apareceu na avenida, cercada por uma centena de militares e policiais. Novamente houve uma chuva de gás e de balas.

Fatos semelhantes ocorreram na sexta-feira e no sábado. No domingo ocorreu o primeiro massacre. Na segunda-feira 13, nas primeiras horas da tarde, mais de 100 mil pessoas foram de El Alto à popular praça de San Francisco exigindo a renúncia do presidente. E um novo massacre foi desencadeado pelo governo. Três dezenas de mortos se somaram à lista de baixas. Então o clamor já era nacional: “Que se vá esse gringo assassino”, gritavam os jovens alteños contra o hoje ex-presidente de Bolívia, um homem educado nos Estados Unidos que nunca falou corretamente o espanhol.

Unidos pelas mortes e pela raiva, alteños, mineiros e camponeses tomaram La Paz mais duas vezes naquela semana. O então vice-presidente Carlos Mesa se distanciou do governo, um ministro renunciou, mas o embaixador dos Estados Unidos, David Greenlee, manteve firme seu apoio a Sánchez de Lozada. O ex-presidente, exilado em sua casa junto com seu gabinete, recusou-se a atender outras demandas do povo boliviano, como a Assembléia Constituinte ou a reforma da Lei de Hidrocarbonetos.

Enquanto nas ruas as manifestações cresciam em força e número de participantes (na quinta-feira, 16, havia 250 mil pessoas protestando em La Paz), o governo começou a se desestruturar. Alguns dos homens de confiança de Sánchez de Lozada deixaram o governo, e naquela noite chegaram à Bolívia Marco Aurélio Garcia e Eduardo Sguiglia, enviados pelos presidentes Néstor Kirchner (da Argentina) e Lula, que se reuniram com diversas personalidades, ao mesmo tempo em que, na casa do presidente, alguns ministros se esbofeteavam e outros, liderados por Guillermo Justiniano, insinuavam a Sánchez de Lozada a possibilidade de renúncia.

Na sexta-feira, às 10 da manhã, os enviados brasileiro e argentino se reuniram com o ex-presidente e lhe entregaram um documento no qual, segundo Sguiglia, pedia-se indiretamente que o então mandatário renunciasse para o bem de todos. Isso desencadeou o fim. Nesses momentos, o embaixador norte-americano recebia instruções de Washington para permitir que Carlos Mesa assumisse a presidência, e Sánchez de Lozada, segundo uma fonte próxima a ele, preparou a carta que assinaria mais tarde, chorou durante uma hora e depois começou a preparar sua saída do país.

Mas, na comemoração, começou a ecoar uma palavra de ordem: “Todos somos alteños”. El Alto começou a ser considerada como a vanguarda da dignidade popular, o epicentro da luta. E a partir de agora o atual governo sabe que a soberania conseguida com sangue pode ser o maior poder contra ele, como alguns dos novos ministros haviam mencionado, caso resolva seguir adiante com o projeto de exportação de gás. A política, uma atividade carente de credibilidade entre os bolivianos, começou a ser exercida de outra maneira.

luisgomez66@hotmail.com



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