Do lado de dentro da cerca

Em 9 de novembro de 1989, na cidade de Berlim, o clima era de festa. O “muro da vergonha” vinha abaixo, derrubado pela população que não suportava mais viver separada dos parentes divididos entre...

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Em 9 de novembro de 1989, na cidade de Berlim, o clima era de festa. O “muro da vergonha” vinha abaixo, derrubado pela população que não suportava mais viver separada dos parentes divididos entre as Alemanhas Ocidental e Oriental.

Por Anselmo Massad

 

Em 9 de novembro de 1989, na cidade de Berlim, o clima era de festa. O “muro da vergonha” vinha abaixo, derrubado pela população que não suportava mais viver separada dos parentes divididos entre as Alemanhas Ocidental e Oriental. Construído em 1963 pelo lado oriental, eram 12 quilômetros de concreto e outros 137 de cerca. Longe dali, 13 anos depois, em julho de 2002, 170 quilômetros de um outro muro – que pode chegar a 350 – começavam a ser erguidos para isolar cidades e povoados palestinos. A justificativa oficial de Israel é a segurança e o combate ao terrorismo. Se isso significa restringir a circulação de pessoas e bens de todo um povo, é detalhe.
Para garantir um controle fino sobre o que pode ou não passar de um lado a outro dos territórios ocupados, um outro recurso tão desumano quanto o muro: as barreiras de controle (checkpoints, em inglês, ou machsoms, em hebraico). Segundo a Coordenação de Assuntos Humanitários da ONU (OCHA), na Cisjordânia são 56 barreiras de controle e 607 bloqueios de ruas, que promovem fortes restrições à circulação dos palestinos – inclusive de ambulâncias, medicamentos e outros bens –, completando o cenário de segregação e apartheid.
Nas barreiras de controle nos territórios palestinos ocupados, o bloqueio começa pelos carros. Os de placa verde, palestinos, não podem sair de suas cidades, ao passo que os de placa amarela – registrados em Israel – têm mais possibilidades de circulação. Por isso, pessoas que trabalham em outra cidade, ou que vão resolver negócios ou visitar pessoas, têm de deixar o carro de um dos lados da barreira, passar a pé pelo controle e tomar um táxi do outro lado. Novamente, o bloqueio vale até para ambulâncias.
Quando se trata de pessoas, a situação é mais direta. As restrições estendem-se aos palestinos detentores de cidadania israelense (que representam 1,3 milhão dos 6,2 milhões em todo o país), especialmente em Jerusalém ocidental. Mesmo com muito mais liberdade de trânsito, essas pessoas são barradas em regiões perigosas para israelenses. As barreiras têm hora para abrir e para fechar. Quem perde a hora, não entra ou não sai da cidade. Mesmo durante o dia, é comum encontrar longas filas de automóveis e pessoas.
A cena a qualquer hora – enquanto a barreira está aberta – é uma longa fila de palestinos aguardando a verificação de seus documentos por uma meia dúzia de soldados carregando armas pesadas. Mulheres com crianças, jovens, pessoas engravatadas. Não é raro ver soldados empurrando e gritando com palestinos – incluindo mulheres e crianças – nessas barreiras.
“Se o objetivo fosse segurança, o tratamento seria humano”, lembra Farid Suwwan, presidente da Confederação Árabe Palestina do Brasil e membro da Shalom Salam Paz (ONG brasileira composta por judeus e palestinos) que acompanhou a delegação. Ele argumenta que o objetivo só pode ser o de humilhar os palestinos, do contrário as pessoas esperariam em um local coberto (não sob o sol), sentadas, com toalete e água à disposição, de forma similar ao que ocorre nos aeroportos, por exemplo.
Mais ainda, a averiguação realizada pelos soldados – com freqüência grosseira e violenta – é incompleta. Em algumas dessas barreiras (na saída de Ramallah e na entrada de Jericó), o embaixador da Palestina no Brasil, que acompanhava o grupo em uma van com outras seis ou sete pessoas, não apresentou seus documentos, já que isso representaria mais dificuldades de acesso. Os outros passaportes foram verificados e os soldados não se deram conta do “clandestino” que circulava em sua própria terra. Para completar, as cidades que não têm muro ou cerca construídos ao seu redor sempre oferecem a possibilidade de entrada por fora das estradas e entradas controladas, geralmente pelas montanhas.
Farid, nascido meses antes da criação do Estado de Israel, em 1948, exilado aos 17 anos e naturalizado brasileiro, contava com a visita da delegação para reencontrar parentes que não via há alguns anos em Tulkarem, sua cidade natal – hoje cercada pelo muro da segregação. A comitiva não pôde passar pela barreira de controle na entrada da cidade, porque a área oferecia riscos e os soldados não tinham autorização para liberar a entrada da missão internacional.
O mesmo ocorreu na entrada de Jênin. Havia ordens para que o grupo não fosse autorizado a entrar. A cidade foi palco do massacre (entre 50 e 70 palestinos mortos) entre março e abril de 2002, num cerco de 40 dias. Ao esperar pela confirmação do impedimento, ao lado de um canteiro de obras da cerca, de onde sua estrutura subterrânea podia ser analisada claramente, dois helicópteros Apache se deslocavam em direção à cidade. A entrada ali era muito perigosa, diziam os soldados.
Esse tipo de privação é constante na vida dos palestinos. Segundo a Paletinian Red Crescent, desde 2001, 91 pessoas morreram nas barreiras, 55 partos foram realizados nesses locais por falta de uma autorização para passar e chegar a hospitais. Foram 25 pessoas, entre médicos e enfermeiras, mortas e 425 feridos por tentarem prestar socorros a pessoas que passavam mal. Um quarto do tempo escolar de 2003 foi perdido, por conta da espera a que mesmo as crianças têm de se submeter.

Fato consumado
Se o resultado das barreiras já é aviltante (até para estrangeiros), ele se agrava com o muro da segregação (ou cerca antiterrorismo, como a chama o governo israelense). Entre paredes de concreto e cercas eletrônicas, cidades palestinas são cortadas ao meio, agricultores são separados de suas plantações, árvores são derrubadas e sítios arqueológicos e históricos são destruídos.
O muro não segue a Linha Verde, acertada em Oslo (1994) a partir das fronteiras de 1967 (resolução 242 da ONU) e muito menos as propostas em 1947 (resolução 181). A posição oficial do Ministério da Defesa israelense é de que a Linha Verde nunca foi reconhecida como fronteira internacional, apesar de ter sido utilizada nos acordos de Oslo. Ao mesmo tempo, nega que o muro tenha por objetivo criar fronteiras antes de acordos, afirmando que elas podem ser alteradas e ajustadas. A distância do trajeto do muro para as fronteiras de 67 varia de 100 metros a 25 quilômetros de território ocupado. Para os palestinos, trata-se de política do fato consumado na mesma linha dos assentamentos em território ocupado, que promove intervenções concretas e muda a discussão (antecipa fronteiras e consolida a ocupação).
O objetivo do muro é isolar as “áreas A” negociadas em Oslo (17,2% da Cisjordânia), que apesar de ocupadas, são governadas pela Autoridade Palestina. São 13 áreas descontínuas, agora mais isoladas, formando verdadeiros guetos ou bantustões – a exemplo da África do Sul.
Do outro lado do muro, estão os assentamentos israelenses, construídos desde 1967 e que mesmo durante as negociações de paz continuaram a ser erguidos. “O muro é muito mais político do que de segurança pois, para isto, poderia ser bem menor”, sustenta Ma�rouf Zahran, prefeito da cidade de Qalqília: “O objetivo disso é anexar territórios e incentivar a emigração para outros países”, garante.
Pesquisas realizadas na cidade mostram que o apoio a grupos extremistas subiu de 12% para 26%, num sinal claro de que, ao mesmo tempo em que é justificada pelos ataques aos assentamentos, a política de Sharon só alimenta o radicalismo que alimenta ações de grupos extremistas e faz crescer a demanda por segurança em Israel – a qual o governo do Likud responde com medidas segregadoras. Entre 45% e 55% dos territórios da Cisjordânia são anexados com o desenho atual do muro.
Parte da separação é feita por um muro e outra por uma cerca. Uma estrada de uso exclusivamente militar acompanha todo o trajeto do lado ocupado por Israel. Do outro lado, corre uma estrada de terra. A parede tem duas camadas de blocos de concreto de oito metros de altura por três de largura. A forma destas peças, num corte transversal, é de um T de cabeça para baixo, para dar sustentação aos oito metros de cada peça que ficam visíveis. Entre uma camada e outra de blocos, há uma ligação de aço e concreto que garante que uma peça sustente a outra, aumentando sua resistência. A cada 500 metros, uma torre de controle abriga soldados de plantão 24 horas por dia no alto de 12 metros. A cada 50 metros, câmeras monitoram todo o movimento entre 30 e 70 metros de campo visual livre no lado palestino, exigidos na maior parte do muro – o que significa dizer que árvores, casas ou qualquer construção na área pode ser derrubada.
Outra parte mais extensa, no entanto, é formada por uma cerca de quatro metros de altura. Sob a terra, as fundações de concreto atingem outros quatro metros, impedindo qualquer possibilidade de túnel subterrâneo. Dos dois lados da cerca, o desenho é idêntico: um fosso de três metros de profundidade por seis de largura, ladeado de arame farpado.
O encontro com o muro ocorreu na cidade de Qalqilia, o município na Cisjordânia mais próximo de Tel-aviv, com 40 mil habitantes. Ela é inteira circundada e a entrada ocorre por uma barreira de controle, a leste da cidade. Existem outros portões pelo muro (um ao norte e outro ao sul), mas apenas 13 agricultores possuem autorização para atravessá-los durante 15 minutos por dia.
O resultado para a economia local foi trágico. “Antes da Intifada, a cidade era um centro comercial para palestinos e israelenses”, garante Zahran, o prefeito. Segundo a prefeitura, mais de 600 das 1,8 mil empresas e lojas da cidade fecharam por conta da crise, levando o desemprego a 65% da população. Uma parte desse comércio foi demolida por estar a menos de 30 metros do muro (na cidade, há exigência de 30 a 70 metros de planície visual, onde nenhuma árvore ou construção pode permanecer). Estima-se que 105 mil árvores, a maioria oliveiras, tenham sido cortadas.
Cerca de 45% da economia da cidade estava vinculada com a agricultura. Com a anexação e impedimento de acesso às terras, muitos dos habitantes serão forçados a emigrar. Segundo a prefeitura, 4 mil cidadãos de Qalqilia já deixaram o local. Quando a delegação brasileira (e inicialmente apenas os repórteres) se aproximou do muro para fotografar as pichações – boa parte delas em inglês ou espanhol, feitas por estrangeiros – e o tamanho da parede, foi captada pelas câmeras de segurança. Em menos de cinco minutos, um soldado aparecia no alto do muro, do outro lado. Por toda a extensão, seja da parte de muro, seja na de cerca, uma rua pavimentada de uso exclusivo dos militares israelenses permite a um jipe com uma espécie de cadeira-elevador (similar à utilizada para trocar lâmpadas de vias públicas) chegar rapidamente a qualquer ponto. O guindaste leva o soldado pesadamente armado com fuzis e bombas de gás lacrimogêneo ao alto do muro para reprimir os homens-bomba (ou candidatos a terrorista, ou fotógrafos, ou observadores internacionais).
Em hebraico, o soldado, com berros e xingamentos, exigia que todos se afastassem do muro. Sem ser atendido, atirou, a mais de 50 metros do grupo de brasileiros, uma bomba de gás lacrimogêneo, sobre uma plantação de verduras. Nas proximidades do muro, podem ser vistos cascos de bombas de gás e munição disparada.
As câmeras e a rua do lado de fora do muro funcionam da mesma forma na parte de cerca. Ainda em Qalqilia, a comitiva brasileira se aproximou da parte de cerca do muro. Em minutos um jipe com quatro soldados israelenses (dois homens e duas mulheres todos com menos de 20 anos) apareceu do outro lado para perguntar do que se tratava. O motorista do grupo, palestino, muçulmano e cidadão israelense (da Jerusalém Ocidental) em hebraico explicou que se tratava de um grupo de parlamentares brasileiros observando o muro para denunciar a situação por que passam os palestinos. “Está certo, têm que fazer isso mesmo”, respondeu o soldado. O grupo se aproximou da cerca para conversar e o militar, intimidado, sugeriu que o grupo procurasse os superiores para discutir, porque ele não poderia falar.
Em meio à tensão e à discussão, um rebanho de ovelhas e carneiros – pastoreados por um senhor, um menino e dois cães – atravessou o espaço, utilizando o fosso para levar os animais até o portão da cerca, por onde eles poderiam ser levados para o outro lado, terras cultivadas por palestinos.
Em Qalqilia, o muro anexou terras escolhidas a dedo. Os 4 mil acres do município do lado israelense guardam a área de solo mais fértil da região, o que inclui o aqüífero de Basin, um dos três maiores da Cisjordânia, capaz de fornecer 362 milhões de metros cúbicos de água por ano. Antes do muro, ele já fornecia metade da água para os assentamentos e agora está quase que totalmente sob controle israelense – até porque 996 quilômetros de tubulação de água foram destruídos na cidade. Da terra fértil, 53% foi destruída ou separada da população pela construção do muro, representando perdas de 62% no PIB do município.
O trecho do muro que passa por Jerusalém e Belém separa vizinhanças palestinas que passam a não poder se encontrar. Entre a Linha Verde e o muro, vivem 74 mil palestinos separados do restante da população. Em julho de 2003, o Knesset, parlamento israelense, aprovou uma lei que proíbe israelenses casados com residentes de territórios ocupados de viverem juntos no país, atingindo especialmente famílias de Jerusalém Oriental. Formalmente, o Estado de Israel passou a negar direitos apenas pela origem da pessoa.
O acesso de palestinos cristãos à igreja do Santo Sepulcro é controlado e limitado, de modo que não houve missa na sexta-feira santa neste ano. Falando em igrejas, vale lembrar que a igreja de Santa Bárbara, primeira da história do cristianismo, montada pela própria santa em uma caverna em Aboud, foi destruída para a construção do muro (lembre-se da reação mundial quando o Taliban destruiu no Afeganistão as estátuas gigantes de Buda), no trecho próximo a Hebron.
“Além de promover a separação e a segregação, o muro quer levar os palestinos ao desespero, à pobreza e à fome e à emigração para outros países”, denuncia Mustafá Al-Malki, governador da província de Qalqilia. “Mas eles se esquecem de que o povo palestino está disposto a comer grama para ficar nesta terra”, garante. Mas até a grama está, em sua maioria, do outro lado do muro.



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