Foram os primeiros dias

E ali, na Porto Alegre das alternativas,nascia um movimento que hoje tem inspirações em todos os cantos do mundo Por Renato Rovai   Era novembro de 2000,...

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E ali, na Porto Alegre das alternativas,nascia um movimento que hoje tem inspirações em todos os cantos do mundo

Por Renato Rovai

 

Era novembro de 2000, um grupo de colegas jornalistas conversa em torno de uma mesa com chopes, num boteco paulistano. O tema era o que poderiam fazer para garantir o registro, em papel, da história do encontro planetário anunciado como Fórum Social Mundial. Mas o papo do bar e seus resultados
ficam pra depois.
A década de 90, e suas avalanches de conquistas para os defensores do neoliberalismo, convenciam de que a chance de surgir uma articulação internacional capaz de se confrontar com a lógica do que se autodefinia como pensamento
único era quase igual a zero. Parecia que a história tinha só um lado. Um jogo de único time. Sem adversários e adversidades.
Mas naqueles dias de janeiro de 2001, os 20 mil que marcharam de todas as partes do mundo para Porto Alegre e se encontraram numa passeata que rasgou a cidade de ponta a ponta sentiram que suas ideologias e lutas; organizações
e movimentos; alternativas e símbolos; senso de justiça e valores libertários estavam
muito vivos. E que, como anunciavam os cartazes que saudavam em diversas línguas os participantes, de repente, um outro mundo realmente poderia ser possível.
Ninguém arriscaria dizer dias antes do encontro
que daria tão certo. O primeiro FSM reuniu 20 mil pessoas, as previsões dos organizadores variavam de 4 a 5 mil. E na imprensa comercial brasileira só algumas notinhas irônicas anunciaram que militantes de partidos de esquerda iriam se encontrar em Porto Alegre para criticar a globalização. Em outras partes do planeta, apenas o Diplô dava o destaque merecido ao evento. E os sites de
comunicação independentes na internet, que estavam nos seus primeiros momentos como veículos informativos, espalharam a pólvora da rebeldia pela rede. Foram eles e os movimentos sociais organizados de muitos cantos que difundiram o FSM. E o tornaram símbolo da esperança de um outro mundo no primeiro ano do século 21.
As novas vozes
Um dos mais concorridos testemunhos daquele primeiro FSM foi o do escritor Eduardo
Galeano, capa desta edição. O teatro da PUCRS, onde aconteceu o seu depoimento, foi pequeno.
Milhares de pessoas se aglomeravam na porta de entrada, inconformadas por terem
ficado de fora, quando Galeano solicitou à segurança para que autorizasse o público excedente a entrar. E que aquela mais de uma centena sentasse no palco. Foi assim, rodeado por gente de todo o mundo, que o escritor uruguaio deu uma das mais belas definições a respeito do movimento que nascia. “No mundo inteiro estão surgindo mil e uma forças novas, partem debaixo para cima e de dentro para fora. Sem estardalhaço
estão contribuindo expressivamente para o renascimento da democracia, nutrida pela
participação popular. Estão recuperando as maltratadas tradições de tolerância, ajuda mútua e comunhão com a natureza. Um dos seus
porta-vozes, Manfred Max, as compara com uma nuvem de mosquitos que ataca o sistema. Mais poderosa que o rinoceronte é a nuvem
de mosquitos, eles vão crescendo e crescendo, zumbindo e zumbindo”, comparou Galeano. A principal meca dos debates altermundistas
foi o campus da PUC-RS. Nos corredores,
escadarias e lanchonetes gente do mundo inteiro
fazia enorme esforço para se entender. Em todos os sentidos. Talvez pela primeira vez na história do movimento de esquerda acontecia um esforço enorme para se chegar ao entendimento, ao consenso. Havia algo que parecia dizer o tempo todo: chegamos até aqui para nos conhecer melhor, para encontrar afinidades, para aumentar nossa possibilidade de ação. Ou como dizia o texto de encerramento do evento, escrito pelo gaúcho Luiz Fernando Veríssimo: “o Ser Humano é a medida de todas as coisas. Pelo tamanho do Ser Humano se mede a vastidão do universo, assim como pelo palmo e a braça se começou a medir a terra… O que aconteceu nesses dias em Porto Alegre foi uma tentativa de resgatar o parâmetro humano”.

O Parque da Harmonia
As centenas de barracas espalhadas davam de verdade uma sensação meio Woodstook para o evento que nascia. Talvez por isso até hoje ainda
algumas pessoas no afã de desqualificar o FSM o denominem de Woodstook da esquerda. O que em nada o desqualifica. Mas o acampamento da juventude, que a cada ano que passa reúne mais gente, tinha de tudo. Grupos de indígenas de diversas partes do país, punks, roqueiros, militantes estudantis, grupos organizados de gays e lésbicas, barracas do MST, mães da Praça de Maio…
Eram três mil campistas e os banheiros acabaram sendo insuficientes e a estrutura precária. Água gelada para o banho nem era o pior, mais complicado
era o calor insuportável. Nesta época do ano, Porto Alegre convive com temperaturas infernais. O que dificultava (e dificultará de novo
nesta nova edição) o sono dos campistas. Mas não havia tempo para reclamações.
Daniel Sestrajuk, que veio sozinho da Suécia representando a juventude do Partido Comunista de seu país, dizia que “a iniciativa do Fórum é fantástica, todos juntos por um projeto. Por muito tempo a luta foi solitária, agora estamos
nos juntando para elaborar um projeto em comum contra o neoliberalismo”.
Os debates de tudo Muitos dos termos que hoje se tornaram um tanto comuns no glossário da imprensa ganharam força nos primeiros dias de janeiro
de 2001, ali, na Porto Alegre das alternativas. Muita gente quando ouve falar do Fórum, por conta do alarido midiático, o relaciona com aquele francês maluco e bigodudo. Isso porque José Bové, em conjunto com militantes
do MST, organizou uma pequena ocupação de uma fazenda da multinacional Monsanto, que plantava soja transgênica, e destruiu uma meia
dúzia de metros de plantação de soja. Um ato simbólico. Como os protestos de jovens que aconteceram na frente de Mc Donald’s. A Polícia
Federal, para não perder a oportunidade, o levou a interrogatório e, na versão dos veículos comerciáveis, Bové se tornou símbolo dos broncos esquerdistas que causam baderna no planeta e atentam contra a sagrada propriedade
privada e os avanços da ciência. Mas foi a partir dessa história e do FSM que a palavra trangênicos e o debate em torno dele ganhou força. Com o Fórum Social
Mundial a organização das grandes cidades, o debate sobre a Palestina, o papel do Banco Mundial e da OMC, o Plano Colômbia, a mídia
alternativa, o poder das corporações, Taxa Tobin, Economia Solidária etc e tal saíram do anonimato das rodinhas intelectualizadas e passaram a constar da pauta de interesses de militantes de todos os cantos. Muitos nomes de pensadores e líderes populares até então restritos aos seus países ou continentes também ganharam dimensão maior. Os 20 mil que foram ao Fórum ouviram falar ou passaram a dar atenção a palavras de gente como Samir Amim, Tariq Ali, Emir Sader, Ignacio Ramonet, Bernard Cassen, Francisco Witaker, Peter Marcuse, Boaventura de
Sousa Santos, Ben Bella, Rigoberta Menchu, Jai Sen, Blanca Chancoso, Naomi Klein, Hebe de Bonafini, João Pedro Stedile, Aminata Traoré, Vinod Raina e tantos outros. Em 2005, neste janeiro, dos dias 26 a 31, é provável que umas 150 mil pessoas participem da quinta edição do FSM. Alguns leitores
estarão tendo contato com esse texto após o evento. E ficarão com uma sensação de estranheza, já que a abordagem é, de fato, velha. Aqui se fala do primeiro e não do último FSM. Mas nos parece que um ciclo se fecha no evento deste ano. O inaugural. O da novidade que deu gás para que muitos movimentos ganhassem força, apesar de todas as guerras e tragédias contra o humano que já foram praticadas nesses quatro anos. E quando se encerra um ciclo, faz parte recordar seus primeiros passos. Os campos progressistas e de esquerda deram algumas braçadas, tomaram fôlego, voltaram a nadar rumo a um projeto de humanidade. O Fórum está mudando como aquilo que o inspira, o humano. E assim se salva da lógica das coisas que nascem prontas e prédefinidas e são chatas e oblíquas. Voltando à mesa de bar do início, naquele encontro decidiu-se pela realização da Fórum. Era para ser uma revista de única edição, mas continuou o caminho. A revista Fórum é um detalhe, mas serve de exemplo. Muitas realizações  no campo das alternativas floresceram a partir da inspiração do Fórum. Ampliaram horizontes.
Passaram a conhecer os afins de outras partes do mundo e melhoraram a ação. A fase inaugural do FSM foi muito bem sucedida. Quiçá as próximas também sejam assim.



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