Gilberto Mendes – os sons do comendador

Dicas culturais de Julinho Bittencourt Por Julinho Bittencourt   Ele é o responsável pelo Festival Música Nova, um dos eventos de música contemporânea mais importantes do mundo...

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Dicas culturais de Julinho Bittencourt

Por Julinho Bittencourt

 

Ele é o responsável pelo Festival Música Nova, um dos eventos de música contemporânea mais importantes do mundo e que acontece anualmente em Santos (SP) há mais de 40 anos. Para a maioria das pessoas, a Música Nova é uma sucessão de sons esquisitos e loucuras. Para o maestro, trata-se da música do nosso tempo e, para entendê-la, basta deixar-se impregnar, como uma criança que está aprendendo a falar.
Gilberto Mendes é entre os compositores eruditos brasileiros o que tem uma das maiores obras musicais. Até por isso, ingressou recentemente na Ordem do Mérito Cultural. Se ele está feliz com o título? Diz com todas as letras que o bom mesmo foi a Comenda ter vindo pelas mãos de Lula, em quem votou toda a vida, e do ministro da Cultura Gilberto Gil, a quem considera um dos maiores músicos brasileiros.
A cerimônia de entrega, segundo o maestro, foi muito bonita e, de forma geral, depreciada pela imprensa. “O cantor e bailarino Antônio Nóbrega fez um discurso e desafiou Gil para uma dança. Ele aceitou na hora. De repente estava lá, diante de nós, o ministro da Cultura do Brasil, de paletó e gravata, atirado no chão jogando capoeira ou algo assim. Era lindo de ver, inesperado. Uma nova mentalidade muito próxima do que nós, artistas, sempre sonhamos e compartilhamos, se estabelece no Brasil, e a grande imprensa, quando não despreza, critica e menospreza. Que raio de jornalismo é esse que não informa, não deu o nome de nenhum de nós, só desceu o pau na informalidade das autoridades? Para mim foi o maior acontecimento da minha vida”, desabafa.

Música Nova
Um dos seus poucos desafetos é o prefeito de Santos, Beto Mansur, correligionário do ex-governador Paulo Maluf (PP). “Este sujeito é o inimigo público número 1 da cultura”, esbraveja. Isso se deve ao fato de o prefeito ter ameaçado extinguir a orquestra sinfônica municipal, preparando o campo com férias coletivas e corte de verbas. Em solidariedade à orquestra, Gilberto cancelou o Festival de Música Nova do ano de 2002, que seria o quadragésimo. Provocou com isso um banzé danado, com repercussão mundial. Voltou a orquestra e, no ano seguinte, o festival.
O Música Nova é um dos festivais de música contemporânea mais importantes do mundo. Gilberto e alguns músicos da cidade mantém o evento a duras penas desde 1962. “Sou reconhecido no exterior como compositor, mas também como um dos realizadores do Música Nova, que é de suma importância para quem toca, compõe e convive com a música erudita. “A verba destinada pelo poder público para a sua realização é algo em torno de 30 mil reais, o mesmo cachê que recebe um grupo de rock de quinta categoria para se apresentar nos shows da praia”, alfineta.
O festival é um dos seus vários atos de militância, mas hoje ele passou o bastão para o Centro Maria Antônia, da USP, e para a Aplauso, (sociedade mantenedora da Orquestra Municipal de Santos). Eles realizam o festival com a sua direção artística. “Estou cansado das confusões e dificuldades financeiras. Algumas vezes tive de pagar cachê do próprio bolso.”
Outra das militâncias que teve foi no Partido Comunista Brasileiro. Mas num dado momento ela se tornou incompatível. “Nunca deixei o partidão, foi o partidão que me deixou”, brinca. “Dentro do partido era muito criticado, acusado de fazer música burguesa e tal. A verdade é que como militante eu era um desastre”. O partido acabou sendo melhor para ele do que ele para o partido, pois por meio das críticas e do nacionalismo, acabou se aproximando da música brasileira, que cultiva até hoje como uma das suas paixões.
Um recente comercial de cerveja, que colocava jovens dançando minueto em uma ilha supostamente chata, causou polêmica. Vários maestros, músicos e compositores se manifestaram contra em abaixo-assinados e ações do gênero. “Teria assinado o manifesto pela crença que tenho em quem me contatou, mas não consegui porque, às vezes, me atrapalho com computadores”, diz entre constrangido e debochado. E completa: “a música erudita está acabando mesmo. Schumann dizia que devemos fazer o possível para impedir a divulgação da música ruim, mas a indústria cultural é mais forte. As gravadoras não deixam a música se renovar. Por outro lado, ela está num processo tamanho de degradação que daqui a pouco ninguém mais agüenta. E por isso haverá uma reação e renovação”, desabafa em raciocínio dialético.

Pesquisa de vanguarda
Mas o maestro não é só música, seu entusiasmo também passeia por livros e filmes. Entusiasmo, diga-se de passagem, é algo que raras vezes lhe falta. “O Ulisses, de Joyce, tem uma estrutura muito curiosa, que muda bruscamente a cada parte. Eu aproveitei isso na peça ‘Ulisses em Copacabana Surfando com James Joyce e Dorothy Lamour’; ‘Grande Sertão Veredas’ talvez seja o melhor romance do mundo; muitas vezes aproveito algumas montagens e cenas de filmes nas minhas composições. Outras linguagens me inspiram, muitas vezes, muito mais do que a música em si”, conta.
Para Gilberto a música erudita moderna é muito mais aplicada. Serve aos espetáculos, filmes e etc. Não há mais sentido, segundo ele, em ficar compondo sinfonias e sonatas. Os grandes compositores de hoje divulgam sua música em situações que atingem mais o público, como o Philip Glass.
Na prática, o discurso do maestro se aplica ao aceitar encomendas de várias partes do mundo. Viaja, ouve concertos, participa do lançamento de suas obras em disco e diz que atualmente brinca de compor. A sua “brincadeira”, no entanto, ao longo dos anos, paradoxalmente fica mais acessível e elaborada, com estruturas complexas e sinuosas.
“Eu estou ficando velho e com isso a gente fica com vontade de buscar as raízes. Mas o que faço continua sendo pesquisa de vanguarda. Hoje trabalho linguagens de várias épocas, outras culturas, gosto de misturar tudo. Acho que sempre tive na minha música o dom da comunicação. Santos Futebol Music é um enorme sucesso de público no mundo inteiro. Beba Coca-Cola, que tem uma estrutura muito complicada, já foi executada nos cinco continentes”.
O tempo parece ter sido seu companheiro. Com muita tranqüilidade formula questões, opina e manifesta grande inquietação. “Amo a felicidade. Nem sempre ela me foi possível. Passei pelas piores coisas que podem acontecer a alguém. Perdi um filho, rompi um casamento, mas permaneço aqui. São coisas que passaram e pronto, foram superadas. Outras muito boas também vieram”, pontua.
Quem o conhece e acompanha, sabe muito bem que, dentre suas melhores compensações, está a inseparável esposa, Eliane. “Nos conhecemos quando trabalhávamos na Caixa Econômica Federal. Aos poucos, percebemos como era boa a companhia. Quando casamos, comprei uma televisão, que não tinha e imaginava que ela gostaria de ver. Ela ligava menos que eu. Um dia me surpreendi muito. Cheguei em casa e ela ouvia, extasiada, a um estudo muito complicado de Chopin. Depois teceu comentários pertinentes, dignos de uma conhecedora. Sua sensibilidade é rara. Nós adoramos estar juntos, e este prazer é uma sorte sem fim”, revela.

O dono do mar
Foi a família também que o levou de volta a compor trilhas para o cinema. Seu filho Odorico está finalizando um filme baseado no romance “O Dono do Mar”, de José Sarney. Gilberto diz que se sente patrulhado por trabalhar em cima de uma obra escrita pelo senador e ex-presidente. No entanto, faz questão de afirmar que o livro é muito bom, opinião compartilhada por outros intelectuais e artistas.
Sobre o resultado de sua música para o filme, pensa um pouco e acha que se saiu bem. Seus sons, segundo ele, são muito marítimos, balançam como as ondas, têm uma certa dolência e relaxamento.
Com relação ao conjunto da sua obra, tem a mesma opinião. Também acha que o resultado é positivo, mas com muita parcimônia. “Fui um bancário que fez música nas horas vagas. Villa-Lobos, sim, é um dos maiores artistas brasileiros, ao lado apenas de Oscar Niemeyer, mas o Villa é mais ainda. Eu não. Estou num outro plano, onde se situa gente como o Erick Satie e o Almeida Prado. É curioso que Prado é sempre considerado, ao meu lado, como um dos grandes compositores brasileiros vivos. E o melhor é que nós dois somos de Santos, que é um lugarejo. Mas isso é pura coincidência, não há ambiente cultural propício para isso nesta cidade”, avalia.
Há quem diga que não será necessário o tempo para vestir de glória e reconhecimento a música de Gilberto Mendes. No entanto, quem o vê de calças largas e cabelos longos, passeando com a esposa, Eliane, pelas ruas de Santos, dançando nos bailes que a prefeitura promove nos jardins da praia, sorrindo para os amigos e admiradores nos cinemas e em vários outros lugares da cidade, talvez não imagine, mas ali vai um dos maiores artistas do nosso tempo. Um cidadão cuja obra será imprescindível para entender o século vinte. E essencial para construir os sons dos tempos que virão



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