Há horas em que é preciso ser

Muitos fazem discursos fortes e defendem ações de efeito quando tudo está relativamente organizado e não há riscos. Mas há momentos em que é preciso ser um pouco mais Por Renato Rovai  ...

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Muitos fazem discursos fortes e defendem ações de efeito quando tudo está relativamente organizado e não há riscos. Mas há momentos em que é preciso ser um pouco mais

Por Renato Rovai

 

Era dia 28 de agosto de 1961. Três dias antes o então presidente Jânio Quadros havia apresentado sua carta de renúncia. O vice, João Goulart, sucessor imediato, estava fora do país. Os militares aproveitaram-se da ausência e costuraram uma quartelada. Ao perceber o que viria, o então governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola, requisitou os equipamentos da Rádio Guaíba e do Palácio Piratini, organizou a resistência. Criou o que viria a passar para a história como a Rede da Legalidade. Dali, proferiu o emocionado discurso onde conclama (trecho acima) o povo a assumir as ruas e ir para a praça em frente à sede do governo estadual. E os democratas do Brasil inteiro assumem Porto Alegre como sua capital da resistência. Jango volta aos picados da China e chega ao Brasil no dia 1º de setembro. Vai direto para o Rio Grande e constrói-se um acordo político. O Brasil se torna uma República parlamentarista.

Tancredo Neves assume o cargo de primeiro-ministro. E a solução meia-boca dura até janeiro de 1963, quando um plebiscito devolve o poder a Jango de forma avassaladora. Depois o caldo entornou, o golpe derrotou a todos em abril de 1964 e o país ficou em meio à merda da ditadura por longos anos.

A melhor história da vida política de Brizola foi a que antecedeu a posse de Jango. Diferentemente de muitos que hoje invocam a democracia e participaram das articulações golpistas, Brizola se colocou na linha de frente e expôs a vida para não deixar o país ir à breca, o que infelizmente acabou acontecendo.

Isso não significa que deva ser canonizado e tratado como ilha da dignidade e da inteligência da política nacional. Como todos que estão na disputa da conjuntura, algumas de suas posições foram bastante questionáveis. Só como exemplo, o seu último ato, de entrar no jogo besta de dar declarações ao New York Times acusando Lula de alcoólatra. Ou o que de certa forma o tirou da cena eleitoral, quando se articulou com Collor e definiu o processo de impeachment daquele presidente como tentativa de golpe.

Mas o que vale é que Brizola deixa muitas histórias que ainda serão contadas e saboreadas por tempos e tempos… Só as brigas com a TV Globo e Roberto Marinho valem um livro. Seus amores e rompimentos com Lula, outro. Os acordos e crises com aqueles que militou, só no PDT, uma coleção.

Exagera quem faz previsões sobre fim disso ou começo daquilo com a morte de Brizola. Aliás, virou moda. Basta morrer alguém ou acontecer algo para um colunista daqui e um intelectual dali anunciarem a virada do século ou o fim de uma era. O fato é que há algum tempo Brizola tinha se tornado uma pálida figura do que representou por muitos anos para o país.

Por outro lado, se o Brasil não tem nenhum político com as características ideológicas e pessoais de Brizola, na América Latina há hoje ao menos um.

Hugo Chávez, que vai enfrentar um plebiscito em seu país no próximo 15 de agosto, é centralizador, personalista e pragmático além da conta nos acordos políticos.

Mas também é heróico e firme ao defender os interesses nacionais, ao investir na educação, ao não fazer acordos espúrios com as elites econômicas, ao encarar os preconceitos e distorções da mídia comercial e principalmente ao arriscar a vida para defender a democracia no seu país. Como Brizola fez no dia 28 de agosto de 1961. E Chávez em 11 de abril de 2002.

Por isso Chávez merece solidariedade e respeito. E o velho Briza, todas as nossas melhores lembranças e homenagens.



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