Liberdade para mudar a receita

O ativista e líder da Fundação Sofware Livre, Richard Stallman, fala sobre os avanços do movimento e compara a liberdade de modificar um programa áquela de mudar uma receira “Os cozinheiros são livres para...

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O ativista e líder da Fundação Sofware Livre, Richard Stallman, fala sobre os avanços do movimento e compara a liberdade de modificar um programa áquela de mudar uma receira “Os cozinheiros são livres para fazer cópias, divulgar suas modificações e distribuí-las”

Por Anselmo Massad

 

Um ano antes de ser apresentado o primeiro computador pessoal ao mercado brasileiro, um estudante do Massachussets Institute of Technology (MIT) percebeu o que, à época, era um estranho movimento no mundo dos softwares. Até então, os programas ficavam disponíveis para quem precisasse utilizálos e modificá-los, mesmo porque a presença de erros e limitações era considerável. No entanto, algumas empresas começavam a escrever programas e vendê-los, impedindo o acesso de outras pessoas a seus códigos. Era o começo da era dos softwares proprietários.

O estudante decidiu que era hora de agir e, em janeiro de 1984, começou a desenvolver um novo sistema operacional. O objetivo era que ele pudesse produzir programas de uso livre. Havia o Unix, um sistema operacional proprietário dos mais estáveis, e o novo projeto seria compatível com ele, mas com uma diferença fundamental: seria livre. Por conta disso, o nome dado a ele foi: GNU is not Unix. Gnu é o nome de um ruminante, um bizão.

O estudante chamava-se Richard Stallman, criador e presidente da Fundação do Software Livre, o principal ativista e ideólogo do movimento. Contatá-lo não é difícil. Complicado é localizá-lo. Em viagens constantes, pula de país em país. A entrevista a seguir foi concedida de um hotel em Caracas, na Venezuela, onde participava de um encontro internacional de softwares livres. Sem muito tempo nem paciência para responder, Stallman exige dois compromissos do jornalista que o entrevista. Primeiro, entender e diferenciar o sistema operacional GNU de uma parte dele, seu coração, o Linux (chamado de kernel do sistema). O segundo ponto é diferenciar softwares livres, defendidos por ele, dos de código- aberto, apregoados pela Open Source Initiative (OSI), desde 1998, como uma fragmentação do movimento (ver pág. 8 para detalhamento maior).

Mas as exigências não pararam por aí. Acostumado a mal-entendidos gerados a partir de declarações divulgadas na imprensa, não fala do que não quer. “Desista, não falo a respeito disso”, repetiu o ativista quando o assunto foi o Fórum Social Mundial e o perfil e as motivações dos programadores voluntários que colaboram na produção dos programas.

Apesar disso, o resultado foi uma conversa telefônica de 25 minutos em que Stallman definiu o movimento de softwares livres como de defesa dos direitos humanos. Ele fala ainda sobre a ameaça da Microsoft e lembra que boa parte da militância pela liberdade nesse campo exige que se concretize uma medida simples: usar softwares livres.

Direito à liberdade Eu diria que softwares livres significam respeito pela liberdade dos usuários. Não diria que isso muda toda a vida, muda uma área dela. Os direitos humanos são importantes e a questão dos softwares é muito nova, mas traz consigo a necessidade de respeito a alguns direitos humanos que todos devem ter. Todos que têm um computador e um programa instalado nele devem ter o direito de estudá-lo, modificá-lo, compartilhá-lo com outros e trabalhar conjuntamente para promover melhorias para o público. Esses são os direitos que os softwares livres trazem aos usuários de computadores. Em outras áreas, há outros direitos humanos que todos nós conhecemos. Os computadores são usados por aproximadamente 10% da população. Não é a coisa mais importante do mundo. Se você não vai usar um computador, não deve se preocupar, mas se vai, precisa pensar a respeito.

Modificar a receita
Para entender isso, pense um programa como uma receita, uma série de passos para que você seja levado a obter o resultado desejado. Veja o que os cozinheiros fazem com as receitas. Eles são livres para aprontá-las quantas vezes quiserem, para estudar os ingredientes – para ter certeza de que não há nada a que tio José é alérgico, ou que alguém não goste – e modificar a receita. E eles realmente mudam. Os cozinheiros são livres para fazer cópias. São livres ainda para divulgar suas modificações e distribui-las. Claro que isso acontece menos freqüentemente, porque exige certo trabalho. Essas são as exatas quatro liberdades que definem os softwares livres, o direito de utilizar, estudar, modificar e fazer cópias. Imagine como os cozinheiros ficariam enlouquecidos se o governo dissesse que, a partir de um determinado momento, se você copiar ou modificar uma receita, nós o chamaríamos de pirata e o colocaríamos na cadeia. Aí você entende de onde o movimento vem.

Linux é só uma parte
Em 1983, eu anunciei o movimento, disse que todos os softwares deveriam ser livres, mas comecei o projeto em janeiro de 1984, desenvolvendo o Sistema Operacional GNU. O objetivo era desenvolver um sistema operacional, não direcionado para nenhum tipo de usuário, mas para todas as pessoas que desejavam liberdade. O coração do sistema, o kernel que é o Linux, foi um importante passo, porque nossos esforços para criar um kernel não tinham produzido um bom o suficiente. Linux é a razão pela qual o sistema está completo, mas é apenas uma parte dele. É realmente difícil dizer quantas pessoas usam softwares livres. Há cinco ou seis anos, vi estimativas que indicavam 30 milhões. Não posso falar a respeito, você precisa buscar outras fontes que estimem isso. Mas são dezenas de milhões.

Fim do monopólio não resolve
A Microsoft passou a considerar os softwares livres como uma ameaça há seis anos, em outubro de 1998. Mas nosso objetivo não é acabar com o monopólio apenas, isso seria muito restrito. A idéia é que os usuários devem ter essas liberdades. Suponha que haja dez programas entre os quais você pode escolher, mas todos proprietários. Isso não seria um monopólio, mas uma escolha entre dez mestres diferentes. Haver concorrência não é suficiente, porque você precisa ter controle sobre seu computador e liberdade de cooperar com outras pessoas.

Benefício da liberdade
Pessoas que não sabem nem querem aprender a programar não vão usar a liberdade número 1, de estudar e modificar o códigofonte. Mas se beneficiam de uma comunidade onde essa liberdade existe. Considere a liberdade de imprensa. Sobre as pessoas comuns que não escrevem ou publicam, você pode dizer: “para que liberdade de imprensa para eles, se eles não escrevem no jornal”. Mas eles se beneficiam por viver em uma sociedade que conta com essa liberdade. Utilizo a analogia das receitas porque muita gente cozinha e entende bem o que seria o resultado de uma mudança como essa. Mas considero um erro reduzir a liberdade a uma conveniência de curto prazo. Movimentos sociais A primeira medida é simples. Muitos sindicatos e movimentos sociais usam computadores e poderiam adotar softwares livres em suas máquinas. Há ONGs cujo objetivo é levar o acesso a computadores a pessoas que estão excluídas. São entidades que, mais do que quaisquer outras, devem usar softwares livres e ensinar a utilizá-los. Qualquer entidade que quer ajudar a quebrar a exclusão digital, mas ensina as pessoas a usar Windows, não está buscando liberdade e precisa mudar. Devemos insistir para que elas mudem.

Colaboração global O modo de trabalho nos projetos de softwares livres é um exemplo de como a globalização deveria ser. Gente em vários países desenvolvendo programas em diversos lugares. Quando se fala em globalização, se pensa na globalização do poder econômico, dos negócios, o que a torna ruim. Os softwares livres são a globalização da colaboração voluntária em comunidade, e isso é bom. Futuro dos softwares livres Não posso ver o futuro. Depende de você, de todos. É uma luta por liberdade e podemos vencer ou perder. A Microsoft tenta de diversas formas nos impedir de alcançar a liberdade. Se eles vão ou não ter sucesso, depende de nós. Para isso, o ponto principal é insistir em usar softwares livres, especialmente em escolas. Governos e sociedade A missão dos governos é organizar a sociedade de uma forma boa para o povo. Isso passa por apontar caminhos para a sociedade em várias áreas. Nesta da qual falamos, o que se espera é que os governos se voltem para os softwares livres. Parte da resistência é paga pela Microsoft, e outra parte vem de pessoas que têm empregos de suporte técnico ou que estão acostumadas a esses programas e não querem mudar. Eles dizem que é impossível, que não vai funcionar. Essa segunda parte, poderíamos chamar de inércia das pessoas.

Livre ou de código-aberto
As pessoas com visões políticas diferentes, algumas vezes, podem trabalhar juntas. Não é preciso concordar com os motivos para realizar algo, se duas pessoas querem fazer a mesma coisa, simplesmente fazem. Eu não saberia dar nenhum exemplo específico, mas posso dizer que em todos os projetos de software livre há pessoas preocupadas com a liberdade e outras que apenas querem programar e colaborar com as outras. Não perguntamos sobre posições ideológicas quando alguém se oferece para ajudar a escrever um programa. Nós só dizemos: “por favor, faça”. É mais uma colaboração técnica.



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