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Análise de Newton Carlos Por Newton Carlos   O governo Bush pensou em “legalizar” a tortura? As negativas choveram diante dessa pergunta, que não surgiu por geração...

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Análise de Newton Carlos

Por Newton Carlos

 

O governo Bush pensou em “legalizar” a tortura? As negativas choveram diante dessa pergunta, que não surgiu por geração espontânea. Os motivos para fazê-la voltam à cena com a nomeação de Alberto Gonzalez, um hispânico da Idade da Pedra, para ministro da Justiça de Bush. Gonzalez, no papel de assessor jurídico da Casa Branca, foi autor de famoso memorando sustentando que as leis de guerra da Convenção de Genebra, que proíbem “maus tratos” em prisioneiros, não se aplicam à guerra contra o terrorismo.

Supõe-se que Gonzalez não mudou de opinião. Tampouco os especialistas do Pentágono e da CIA, que encaram a tortura como arma indispensável em guerras “não-convencionais”. O Washington Post informou que, na procura de lições a respeito, eles assistiram e re-assistiram ao filme A Batalha de Argel, do argelino Gillo Pontecorvo, que mostra como os militares franceses fixaram a tortura como arma mais eficiente no combate ao terrorismo. No Iraque de hoje, como na Argélia dos anos 50 e 60, terrorista é quem resiste à ocupação.

A idéia em discussão dentro do governo Bush, a partir do memorando de Gonzalez, propunha encontrar meios de torturar sem ferir convenções, de jeito nenhum abrir mão da forma “mais eficiente” de arrancar informações. O mesmo Washington Post publicou as conclusões de estudo do “contexto jurídico de eventual emprego da tortura em inimigos combatentes capturados no Afeganistão”. A tortura de membros da Al Qaeda, de Bin Laden, presos no estrangeiro, “pode ser justificável”. Não haveria como processar quem torture “com a finalidade de impedir novos ataques terroristas contra os Estados Unidos”. É a velha tese da “legítima defesa”. Em novo relatório, segundo o Wall Street Journal, William Haynes, conselheiro jurídico do Pentágono, sustentou que, como comandantechefe das forças armadas, a cargo da segurança dos americanos, “o presidente não está submetido à Constituição e nem às leis e tratados proibindo a tortura”. O torturador estaria isento de culpa “se acreditar que seu ato é necessário para evitar um mal maior”. Um bom exemplo de como burlar a legislação internacional.

Jovens americanos

Pesquisa feita pela Universidade de Harvard, dos Estados Unidos, constatou um perigoso estado de ânimo da juventude do país, bem diferente de quase 30 anos.

Quando a guerra do Vietnã estava em seus estertores, já com a configuração de tragédia nacional, os jovens americanos abominavam as manipulações patrioteiras, sofriam com o martírio imposto a um pobre país asiático pela maior potência do mundo, não queriam saber de guerras e colocavam os políticos contra a parede.

Em 1975, quando a bandeira dos Estados Unidos foi arriada às pressas em Saigon, 58% dos abaixo dos 20 anos, segundo a pesquisa focal de Harvard, davam algum crédito aos governantes. Hoje, dois terços apóiam a invasão do Iraque e os “falcões” do governo Bush são os mais admirados entre os que assumiram o poder em Washington.

A tragédia do Vietnã juntou pacifismos, multiculturalismos, feminismos, liberalismos etc. Tudo isso parece condenado a enfrentar dias difíceis nos Estados Unidos, com repercussões no resto do mundo. A “síndrome vietnamita” – medo de intervir e afundar em lamaçais – foi sepultada no martírio de Falluja, no Iraque.

A pesquisa da Harvard não encontrou nenhuma cobrança a respeito das manipulações patrioteiras, tampouco do uso de justificativas mentirosas, como a da posse por parte do Iraque de armas de destruição em massa. Os próprios pesquisadores de Harvard se surpreenderam com tamanha belicosidade. Resta saber se isso pode ser tomado como perfil antecipado do que nos reserva o futuro.

Operações “encobertas”

São discutidas mais uma vez as operações paramilitares secretas que os Estados Unidos executam pelo mundo. E se voltam ao debate é porque continuam sendo executadas, embora não existam oficialmente. No momento elas se concentram no Iraque, Afeganistão e Paquistão, onde Osama Bin Laden é caçado. A questão que agora se coloca é saber sob que comando elas devem ficar, a partir de ampla reforma do aparato americano de inteligência, cujo orçamento é de 40 bilhões de dólares por ano. Bush mandou que o Pentágono, o Departamento de Estado e o ministério da Justiça digam se o Pentágono ou a CIA, a agência de espionagem, terá o comando das operações.

As forças paramilitares operam sem consentimento formal dos governos, embora na maioria dos paises as operações chamadas de “encobertas”, no jargão da CIA, sejam de conhecimento geral. É o caso da Colômbia, onde Bush esteve recentemente por algumas horas, tempo suficiente para reiterar o compromisso de continuar apoi ando o Plano Colômbia, ofi cial mente um programa de ajuda ao combate do narcotráfico, mas que, na prática, dá assessoria mi litar, armas e dólares a ações armadas de contrainsurgência. Há operações secretas na América La tina também a partir de uma base na Amazônia equatoriana, cujos movimentos alcançam as Antilhas. Ela esteve mobilizada durante a crise na Venezuela.

O que quer Sharon Desde que assumiu o poder em Israel o primeiro-ministro Ariel Sharon se empenha “em aca bar com os acordos de Oslo e desmantelar a Autoridade Pa lestina”, afirma o pacifista judeu Uri Avneri. Oslo esta beleceu o reconhecimento mútuo de Israel e palestinos, a troca de terras por paz e a criação, em última instância, de um Es tado palestino, em etapas. Sha ron alega que a supressão da violência exige o emprego de força. Mas Avneri garante que os objetivos são outros. Sharon quer destruir a própria noção de entidade palestina e instituições que possam ampará-la. Nada de redividir terras. Conta com a força e um surpreendente conformismo árabe. “Precisamos decidir se a Palestina continua sendo ou não o nosso problema central”, escreveu um influente jornal libanês.



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