Mundo afora

Custos de civis, versáo afegã, tiro livre, a insurgência Por Newton Carlos   Custo de civis Quantos civis já morreram no Iraque vítimas sobretudo dos bombardeios da...

209 0

Custos de civis, versáo afegã, tiro livre, a insurgência

Por Newton Carlos

 

Custo de civis
Quantos civis já morreram no Iraque vítimas sobretudo dos bombardeios da aviação norte-americana, que continuam até hoje, de tiroteios com alvos indiscriminados e de carros-bombas? As forças de ocupação falam em disparos certeiros contra focos de insurgência, mas médicos de hospitais e testemunhas garantem que os mais sacrificados são civis desarmados, inclusive velhos, mulheres e crianças. O The New York Times lembrou em editorial que, no capítulo sobre “alto custo” da guerra, as contas ainda não podem ser fechadas em seu item mais trágico: o martírio de inocentes, em muitos casos assassinados como animais.

Não existe contagem a respeito, omissão aparentemente proposital, para evitar choradeiras, como disse alguém em Washington. A resposta-padrão de Donald Rumsfeld, secretário de Defesa dos Estados Unidos, sobre o assunto é: “Como vocês sabem, nós não saímos por aí contabilizando cadáveres.” Não existe dúvidas de que há uma carnificina no Iraque. Muitas vezes maior do que os pouco mais de mil soldados americanos – talvez mais de 10 mil, certamente não abaixo dos oito mil, segundo grupos de defesa dos direitos humanos. Convicção, entre outros, do Human Rights Watch, com base em Nova York.

Partiram dele as primeiras denúncias de tortura “sistemática” de iraquianos, e não “esporádica”, como quer o governo Bush. A Anistia Internacional ampliou o leque de horrores acusando tropas inglesas de disparos letais contra 37 civis que não representavam nenhuma ameaça. Massacre gratuito feito por gente de Tony Blair empenhada, diz-se em Londres, em conquistar mentes e corações, em diferenciar-se dos americanos. Há o depoimento de um enviado de um jornal londrino que se instalou numa unidade avançada no começo da guerra. O poderio americano tinha (e continua tendo) uma tal carga destrutiva, e havia informações suficientes sobre a fragilidade militar do Iraque, que a expectativa era de ataques gradativos, com emprego controlado de força, para poupar civis.

Mas o que houve, registrou o jornalista, mostrando-se surpreso e escandalizado, foi um “show” de bombardeios mortíferos, quase sem respostas por parte dos iraquianos. A carnificina tornou-se inevitável. O ex-presidente Jimmy Carter, dos Estados Unidos, já havia chamado atenção para o barbarismo que significaria jogar bombas e foguetes de última geração em cima de um país praticamente desarmado, o que foi feito. A matança não ficou por aí. O canal Ard, uma rede pública de TV da Alemanha, colocou no ar dois vídeos mostrando execuções de iraquianos feridos, já fora de combate.

Em alguns lances os autores, soldados americanos, comemoram a “façanha”. Há imagens disso, com data de primeiro de dezembro de 2003, captadas de um helicóptero do exército dos Estados Unidos. Num segundo vídeo, de abril de 2003, um pelotão de “marines” mata um iraquiano claramente ferido e de modo grave, sem ter como defender-se. Panorama, nome do programa que fez a denúncia de crimes de guerra no Iraque, entrevistou um general americano, Robert G. Gard, que hoje traba­lha na Fundação dos Veteranos do Vietnã. Gard definiu as imagens como “homicídios indesculpáveis”. Um professor de direito internacional de Hamburgo, Stefan Oerter, disse que se tratava de “graves crimes de guerra”.

Versão afegã No Afeganistão militares americanos foram investigados e absolvidos – por eles próprios – pelas mortes, num bombardeio, de nove crianças entre nove e 12 anos. Sequer foram mencionados, no ato de absolvição, as mortes de mais seis crianças um dia antes. A Human Rights Watch criticou o uso de aviões A-10 tankbuster contra pessoas, no caso supostos militantes Talibãs. Nenhum foi morto, só morreram as crianças. Caso parecido ao do bombardeio no Iraque de uma festa de casamento, com 41 mortos. O Pentágono negou, insistiu que disparou foguetes contra “combatentes estrangeiros”. Há fotos de crianças estraçalhadas, do corpo de um “cantor de casamento”, do casal de noivos cercado de parentes etc. Tropas terrestres de ocupação foram ao local e não conseguiram fotografar ne­nhum combatente.

Tiro livre O sir que comanda o exército inglês fez uma visita de surpresa ao Iraque. A razão? Do ponto de vista oficial, algo de rotina. Mas jornalistas tinham bala na agulha e não pouparam o general. É verdade que há descontentamentos e inseguranças nas tropas inglesas. “De nenhuma maneira, conversei com soldados, todos eles estão muito bem e ajustados às suas tarefas”, cansou-se de repetir o sir. Mas jornalistas também haviam conversado com soldados ingleses e ouvido outra história. O medo de disparar, “cometer erros” acertando civis, começou a tomar conta de tropas transformadas em filiais dos americanos. Por que o medo? Civis iraquianos, ajudados por advogados ingleses, conseguiram processar em Londres soldados que mataram familiares seus. O comandante do exército inglês foi ao Iraque porque seus subalternos querem garantias de que podem matar qualquer um, sobretudo civis desarmados, sem riscos de processo. Reclamam a “institucionalização” no Iraque do tiro livre. O que o sir lhes disse, não se sabe.

A insurgência
A insurgência iraquiana tem os seguintes objetivos: primeiro, mostrar que o governo interino do Iraque, instalado pelas forças de ocupação, não tem legitimidade e nem autoridade. Mesmo com a ajuda do poderio americano não consegue controlar nem a capital Bagdá. Em segundo lugar, desestabilizado o governo interino, seriam inviabilizadas as “eleições” marcadas para janeiro como mais um passo na direção da transformação do Iraque em país-satélite dos Estados Unidos com fachada de democracia. Com esses dois itens enterrados, o projeto americano ficará a cami­nho da sepultura.



No artigo

x