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As mãos de Deus, Palco do Armagedon, Enquanto isso, lá no Uruguai… Por Newton Carlos   As mãos de Deus Nada de Iraque, guerra contra o terrorismo,...

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As mãos de Deus, Palco do Armagedon, Enquanto isso, lá no Uruguai…

Por Newton Carlos

 

As mãos de Deus
Nada de Iraque, guerra contra o terrorismo, economia ou segurança terrena. Consultados na boca-de-urna, 22% dos eleitores americanos disseram que seus votos seriam determinados por “valores morais”. Foi a resposta com índice mais alto, seguido por questões ligadas à economia, com 20%. Em vez de festa cívica, as eleições nos Estados Unidos tornaram-se manifestação religiosa com marcas profundas de fundamentalismo. Triunfou o discurso messiânico de Bush, sobretudo em áreas rurais, no sul e no meio-oeste conservadores, em confronto com os liberais urbanos e da faixa costeira.

O que significa isso? Tomemos como exemplo a convenção republicana do Texas, onde Bush elegeu-se e se reelegeu governador. Bush e Texas se encaixam como se fossem uma coisa só. Na ponta da pauta temas domésticos habituais com as abordagens de sempre. Homossexualismo contraria “as verdades vindas de Deus”. Qualquer mecanismo de controle ou proibição da posse de armas de fogo deve ser rejeitado e combatido. É preciso conter a entrada de imigrantes, mesmo que para isso seja necessário levantar cercas de arame farpado eletrificadas, ou mesmo construir fortificações ao longo da fronteira com o México, espécie de muro de Berlim.

O próprio Bush, antes de se eleger pela primeira vez, só havia viajado ao exterior uma vez. Isso porque o Texas nunca se interessou por problemas internacionais, exceto por um país a dez mil quilômetros de distância: Israel. De acordo com um participante da convenção, é lá que acontecerá o ajuste final, o Armagedon, a última batalha entre o bem e o mal. Os republicanos texanos decidiram que Israel tem o direito de ficar com toda Jerusalém e a Cisjordânia ocupada. Nada de remover colônias judaicas ou mesmo devolver partes dos territórios tomados na guerra de 1967. Os Estados Unidos devem pressionar os paises árabes para que “absorvam” refugiados palestinos expulsos de suas terras. Israel pode fazer o que bem entender “com o objetivo de eliminar o terrorismo”.

Palco do Armagedon Para compreender o que levou Israel a se tornar ponto focal numa assembléia de caipiras texanos é preciso recuar ao século XIX. Dois pregadores imigrantes selecionaram passagens até então não relacionadas da Bíblia numa narrativa de aparência consistente. Jesus voltará à terra quando estiverem dadas certas pré-condições. A primeira delas é a criação do Estado de Israel. A segunda a ocupação, por parte de Israel, do restante das “terras bíblicas”.

O que envolve grande parte do Oriente Médio. Um terceiro templo deve ser construído onde é hoje a esplanada das mesquitas, em Jerusalém. Legiões de “anticristos” se levantarão contra Israel e a guerra conduzirá a um confronto final no vale de Armagedon. Depois disso os judeus serão queimados ou convertidos ao cristianismo e o Messias voltará à Terra. O que torna esses cenários tão ao gosto dos cristãos fundamentalistas americanos é uma profecia confortadora. Antes da grande batalha os “verdadeiros crentes” serão sugados de suas roupas e colocados numa sala de espera no Paraíso. Desse lugar privilegiado, com a proteção da mão direita de Deus, verão seus inimigos serem massacrados ou devorados.

No momento, os que se consideram os “verdadeiros crentes” trabalham no que acreditam ser as pré-condições. Ajudam colônias judaicas nos territórios palestinos ocupados, querem que os Estados Unidos ampliem ainda mais seu apoio a Israel e “antevêem” o duelo de última instância com o mundo islâmico, eixo do mal, Nações Unidas, União Européia etc. Analistas acreditam que entre 22 e 25% do eleitorado americano pertencem a igrejas ou movimentos que crêem firmemente no Armagedon.

Enquanto isso, lá no Uruguai… A Weekly Report, de Londres, colocou como destaque na cobertura das eleições no Uruguai a perspectiva de surgimento de um Lula uruguaio na figura do vencedor, Tabaré Vasquez, candidato das forças de esquerda. As comparações com Lula são inevitáveis, sobretudo pelo fato de que em ambos os casos a disposição de jogar para vencer exigiu concessões sérias. Com Tabaré, isso ficou mais do que claro nas intervenções de cúpula na convenção nacional da Frente Ampla.

O ministro da Economia será o senador Danilo Astori, escolha anunciada durante a campanha eleitoral talvez para injetar novas doses de calmantes nos mercados. O quadro de reações nos é familiar. Os “moderados” aplaudiram, convencidos de que o caminho das urnas exigia a remoção de pedras. Os sindicatos, segmento importante da Frente Ampla, relutam em assinar embaixo. As lideranças têm suas próprias dificuldades determinadas pelo comportamento das bases teoricamente representadas por elas. Os “radicais”, alarmados, se disseram em vigília. É um erro, um banho de água fria, vociferaram muitos frente-amplistas.

Afinal, quais são os pecados do senador Astori? Ele não concorda com os setores da Frente Ampla que criticam com dureza a política econômica do atual governo, do colorado Jorge Batlle, considerado da linhagem dos neoliberais. Não concorda, sobretudo, com os que se opõem aos termos da reestruturação da dívida. Astori seria continuísmo na cabeça dos que imaginam um governo da Frente Ampla que signifique recusa sumária e radical ao FMI, Banco Mundial, Consenso de Washington, à própria Washington etc.

Já se sabe, no entanto, que não haverá questionamento do sistema. Isso foi dito por um dirigente dos Tupamaros, guerrilha que se integrou na Frente Ampla depois da queda da ditadura. O objetivo imediato é reduzir a pobreza por meio de melhor distribuição da renda.

newtoncarlos@revistaforum.com



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