Na cara e na coragem

História das quebradeiras de coco de babaçu é exemplo do poder da mulher e de organização na luta por seus direitos Por Maristela Sena   Antes mesmo...

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História das quebradeiras de coco de babaçu é exemplo do poder da mulher e de organização na luta por seus direitos

Por Maristela Sena

 

Antes mesmo do descobrimento do país, os índios já
conheciam as possibilidades econômicas da palmeira de babaçu. Dela, extraíam as
palmas, o palmito, o fruto, as nozes, amplamente utilizados em seu cotidiano.
O fato é citado em texto do padre Claude
d´Abbeville, de 1614, sobre a História da Missão dos Padres Capuchinhos na Ilha do Maranhão. Não demorou para que a extração dos babaçuais passasse a ser prática corrente também entre os escravos trazidos da África.
Quase quatro séculos depois, os babaçuais ainda são a fonte de renda e de sobrevivência
de milhares de famílias, descendentes diretos de indígenas e escravos, não apenas no Maranhão, mas em outros Estados nordestinos. O
mais surpreendente é que o trabalho de quebrar babaçu, até poucos anos era sinônimo de atividade
remunerada de forma miserável. Hoje, de pior das alternativas tornou-se símbolo de conquistas sociais. Com muita garra e organização
e sob o protagonismo das mulheres, a luta do grupo trouxe ganhos financeiros e de cidadania para milhares de quebradeiras de coco. Para entender como a transformação ocorreu, uma das rotas é viajar até o interior do Estado do Maranhão, a uma cidade chamada Lago dos Juncos, na região do Medio Mearim.
Lá, vive Maria de Jesus Ferreira Bringelo, a
dona Dijé, de 53 anos, uma das mulheres que
protagonizaram a mudança. Criada em Monte
Alegre, também no Maranhão, mãe de cinco
filhos, dona Dijé explica, em entrevista à revista
Democracia Viva (edição 23, de agosto e
setembro de 2004, do Ibase), que a coleta do
babaçu não é nada simples. “Depois de catar
os cocos que caem das palmeiras, quebramos
com um machado e tiramos caroço por caroço.
Juntamos tudo e vendemos por quilo para
quem vai fazer o óleo”, descreve. Para complicar,
tudo era vendido aos grandes fazendeiros
da região a preços extremamente baixos,
ou pior: na maior parte das vezes era trocado
por comida, na base de cinco a dez quilos de
coco para um de arroz.
Por pelo menos 20 anos, foi do babaçu que
Dijé tirou seu sustento. “Como minha avó e
minha mãe, também criei meus cinco filhos
quebrando coco todos os dias. O coco compra
tudo, do remédio ao calçado”, conta. Saía
com o nascer do sol e voltava no fim da tarde.
“Eu só não quebrava de noite porque não dava
certo, mas, se desse, eu faria”, lembra. Sem
falar que, ao chegar em casa, o trabalho de dona
de casa ainda a esperava.
A região do Médio Mearim, onde estão
Monte Alegre e Lago dos Juncos, é uma área
com forte ocorrência de babaçuais. Esse fato
fez com que a área tivesse uma conhecida história
de disputas por terra nas décadas de 70
e 80. Segundo dona Dijé, em 1870, parte das
terras de Monte Alegre pertenciam ao coronel
Lisboa Ferreira. No entanto, em 1907, ele
deixou a fazenda, que já não tinha interesse
comercial, e deu parte dela a 12 ex-escravos
que lá permaneceram mesmo depois da Lei
Áurea. Um golpe aplicado pelo capataz da fazenda
tirou-lhes a posse legal, mas por anos,
eles seguiram vivendo na área.
Em todo o Estado, no final da década de 70,
a exportação do óleo de babaçu, principalmente
para os Estados Unidos, entrou em declínio.
A alternativa dos fazendeiros foi devastar
imensas áreas de babaçuais para usá-las como
pastos. Essa atividade ocasionou a expulsão
de posseiros e ocupantes da terra. Na terra de
dona Dijé, a tensão chegou com a morte do
antigo capataz, em 1976. “Os filhos lascaram
a vender tudo e venderam a terra com o povo
todo dentro. Aí foi uma briga, uma guerra de
fogo”, conta a quebradeira.
Os habitantes da região se organizaram,
inicialmente com o apoio da Igreja Católica,
por meio de movimentos ligados à Comissão
Pastoral da Terra (CPT), para permanecer em
seus vilarejos. Os moradores recebiam ameaças
dos compradores das terras e muitos líderes
camponeses e representantes de entidades
ligadas à sociedade civil foram assassinados.
O movimento de resistência das 97 famílias
de Monte Alegre foi levado a cabo desde
o princípio pelas mulheres. A primeira líder
foi dona Vitalina, hoje com 90 anos e ainda
moradora de Monte Alegre. “Ela nos juntou
pra contar toda a história do nosso povo e, depois
de algumas conversas, perguntou se nós
tínhamos coragem de lutar para permanecer
na terra”, lembra Dijé.
As mulheres faziam reuniões escondidas e
traçavam as estratégias para defender a terra
de seus antepassados. “Fomos lutando e nos
organizando e, quando já sabíamos mais ou
menos o quê e como fazer, resolvemos chamar
os companheiros. Os homens pegavam
nas armas mais pesadas, as mulheres eram pra
pensar”, define. “Passamos dois anos sem botar
roça, a saída era só quebrar coco pra comprar
comida e fazer o dinheiro”, recorda-se.
As ameaças aumentaram, assim como as ordens
de despejo. Muitos moradores apanharam
dos jagunços. No dia 12 de novembro de 1979,
uma tragédia: após mais uma ordem de despejo,
todas as casas do vilarejo foram queimadas
pela polícia. “Bateram nos nossos companheiros
que tentavam impedir o despejo. Ficamos
lá vendo nossas casas serem destruídas e sem
ter o que fazer”, lembra dona Dijé.
Mesmo assim, a comunidade não deixou suas
terras. Ficaram morando escondidos, contando
com a ajuda da Igreja local e do sindicato dos
trabalhadores rurais, que arrecadaram alimentos
e dinheiro para as vítimas. Foi também com
a ajuda da igreja que conseguiram um barracão
para se abrigar. As casas só foram reconstruídas
um ano depois do incêndio.
Virada
No início da década de 80, após anos de luta
dos moradores, o Instituto Nacional de Colonização
e Reforma Agrária (Incra) começou
a desapropriar terras na região do Médio Mearim.
Em 1985, foi a vez das famílias de Monte
Alegre receberem posse legal sobre as terras.
Com isso a primeira importante conquista das
quebradoras de coco de babaçu era atingida.
Em 1989, nasceu a Associação em Áreas de
Assentamento no Estado do Maranhão (Assema).
Com a articulação do grupo e muita luta,
em 1997, as quebradeiras de coco conseguiram
a aprovação de um projeto de lei estadual,
que garante o acesso aos babaçuais, além de
impedir o desmatamento.
O que vinha dando certo no Médio Mearim
maranhense ganhou mais vigor a partir de
2001, com o surgimento do Movimento Interestadual
das Quebradeiras de Coco Babaçu
(MIQCB) formado por mulheres de comunidades
do Maranhão, Tocantins, Pará e Piauí.
Hoje, 300 mil quebradeiras estão organizadas
em cooperativas e em entidades de classe, sindicatos
e federações.
Colega de dona Dijé, a quebradeira Antonia
Pinheiro dos Santos, de 44 anos, é outra testemunha
da mudança que alcançou depois que
as comunidades se organizaram para terem
direito à exploração da terra. “Antigamente a
gente recebia um vale, hoje temos autonomia
e, especialmente, auto-estima, para negociarmos
com melhores condições as amêndoas
que retiramos do coco”, sustenta.
O próximo passo do movimento é aprovar
no Congresso Nacional o projeto de lei Babaçu
Livre, apresentado pela deputada Terezinha Fernandes
(PT), que garantiria a exploração livre dos babaçuais em todo o território nacional. Trabalhadores
rurais de todo o país agradecem.

Ganhando juntos

As diversas cooperativas e associações processam o óleo do babaçu, produzem e comercializam sabonete,
fabricam a torta usada como ração para animais e organizam as cantinas comunitárias. A Assema, por
exemplo, promove a produção familiar a partir da utilização e preservação dos babaçuais, além de oferecer
apoio às cooperativas e associações em 31 comunidades e povoados. As famílias filiadas à associação têm
renda média de 2,5 salários mínimos mensais. São cinco cooperativas em pleno funcionamento.
Outra iniciativa que merece destaque é a Fábrica de Sabonete Babaçu Livre, fundada pelas quebradeiras
de coco dos povoados de Ludovico, São Manuel e Centrinho do Acrísio, a 350 quilômetros de São Luís, em
1996. São 23 mulheres responsáveis por uma produção mensal que varia de cinco a quinze mil unidades.
Em 2002, chegaram a enviar remessas para o mercado internacional. “Exportávamos dez mil sabonetes
para empresas de cosméticos, mas, infelizmente, elas deixaram de fazer contato, e tivemos de nos mobilizar
para entrar no mercado interno”, conta a gerente da Babaçu Livre, Maria das Dores Vieira Lima, a Dora.



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