O bicho na toca

A fragilidade dos argumentos utilizados na polêmica das cotas raciais nas universidades repete a histórica tática do racismo brasileiro de atacar sem mostrar a cara Por Marco Frenette  ...

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A fragilidade dos argumentos utilizados na polêmica das cotas raciais nas universidades repete a histórica tática do racismo brasileiro de atacar sem mostrar a cara

Por Marco Frenette

 

Sempre que há a possibilidade real de aproximação do negro, os brancos se espantam. Foi por isso que a Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), ao reservar aos pretos e pardos 40% de suas vagas em seu último vestibular, gerou forte reação, parte dela registrada pela imprensa brasileira. Isso ocorreu porque a UERJ levou à prática o que muitos gostariam que permanecesse apenas no terreno dos discursos. No fim das contas, o que se registrou foi a ânsia de legitimação da situação privilegiada que os brancos ocupam em nossa sociedade.

Naturalmente, isso jamais foi expresso de modo claro e direto. Tudo se deu sob o democrático pretexto de discutir a eficiência dessa ação afirmativa. No entanto, a própria inconsistência dos raciocínios desenvolvidos mostra o verdadeiro sentido das críticas. Repassemos os argumentos mais recorrentes. Afirma-se que uma escola pública de qualidade tornaria desnecessária a política de cotas. A despeito de sua urgência, essa escola ideal só ocorrerá no Brasil – se ocorrer – num futuro que se mede em séculos, e as cotas são destinadas a negros que vivem aqui e agora. Nesse cinismo de misturar políticas educacionais de longo prazo com medidas emergenciais encontramos o primeiro sinal de um desprezo velado pelo destino dos pretos brasileiros.

Fala-se também que as cotas ferem o inalienável estatuto do mérito. Mas onde começa o mérito? Um preto pobre, sem assistência familiar ou estatal, ao ficar alguns pontos abaixo da média num vestibular, tem menos mérito pessoal que um jovem branco, melhor instruído e de classe média ou rica, que, mesmo assim, muitas vezes atinge de raspão a média exigida?

Aqui, chegamos a um outro argumento importante da reação: o suposto aviltamento da qualidade do ensino a partir da aplicação das cotas. Bem, se uma escola que funciona com o aval e por conta do Estado aprova um aluno, considerando-o apto para uma faculdade, então ele deve ter um mínimo de condições para seguir em frente, independentemente dos índices de aproveitamento aplicados por essa excrescência sociocultural chamada vestibular. No caso do vestibular da UERJ, a imprensa levantou casos de jovens brancos que se sentiram lesados pelo tratamento diferenciado dado aos pretos. A reclamação tem sentido apenas se vista por uma ótica egoísta. Um jovem branco consciente de sua responsabilidade social frente ao racismo pode provar seu mérito, inclusive o moral, disputando uma vaga dentro do espaço naturalmente reservado aos brancos, deixando os pretos disputarem outro tanto entre si.

Também se pergunta por que não contemplar outras minorias. Por que não cotas para os italianos ou para os japoneses? A resposta, novamente, é muito simples: é porque o impedimento social por ser negro é incomparavelmente maior aos impedimentos – se é que os há – dessas subdivisões minoritárias. E quanto a querer inviabilizar a discussão sobre as cotas dizendo que o problema é de preconceito de classe e não de raça, é querer esquecer que o então ministro Pelé já foi comparado ao asfalto; que o gabinete de Benedita da Silva, quando senadora, era chamado de “Planeta dos Macacos”; que em qualquer periferia, quando um preto e um branco brigam, o branco tenta atingir o preto referindo- se a sua cor etc.

Argumento curiosíssimo é dizer que a política de cotas é prejudicial por gerar conflitos. Esta verdadeira pérola da ironia involuntária foi repetida até pelo ministro Cristovam Buarque: “A adoção das cotas para negros não pode ser uma coisa imposta que crie antagonismo racial em vez de superação do preconceito”. Ora, se o preto quer visibilidade social e melhores condições de vida e estudo, e isso desperta o incômodo branco, então que venha a tão necessária desavença. Nos Estados Unidos, as políticas afirmativas foram lançadas na década de 60 por John Kennedy para combater a segregação racial, e desde então brancos e pretos não se entendem a respeito delas; mas nem por isso as cotas deixaram de cumprir sua função. Em quarenta anos de existência foram responsáveis pelo surgimento de uma classe média negra que faz a diferença. O que está implícito nessa idéia do não-conflito é que o preto só deveria se aproximar quando o branco permitisse. Permissão impossível de vir do lado claro da sociedade se não houver pressão dos escuros, já que uma modesta medida paliativa – medíocre até – como a das cotas nas universidades já causa espanto.

Mas o mais sórdido dos raciocínios da reação é a suposta impossibilidade de definir a contento quem é negro. A baixeza do argumento reside, primordialmente, no fato de que a sociedade branca, ao discriminar um preto, identifica-o perfeitamente, mas no momento de abrir espaço para a ascensão social clama pela inimputabilidade da clareza de sua raça.

Na contracorrente dessa conveniente puerilidade argumentativa estão as escandalosas evidências da necessidade de uma política emergencial para tirar o negro de sua invisibilidade social e de sua insignificância profissional e econômica. Pesquisa da Fundação Dom Cabral, de Minas Gerais, mostra que 92% dos presidentes das 50 maiores empresas brasileiras são brancos. O instituto Ethos, ao analisar resultados da pesquisa nacional por amostra de domicílio do IBGE, concluiu que os pretos e os pardos ocupam apenas 6% dos cargos de direção das empresas, apesar de os negros e pardos constituírem 46% da população brasileira. O estudo revela também que de cada 100 pretos brasileiros apenas quatro chegam à universidade.

Este último dado é corroborado por recente estudo étnico-racial da Universidade de São Paulo (USP). Dos 38.930 estudantes que se matricularam no segundo semestre de 2001 para os cursos de graduação, apenas 1,3% são pretos; 8,34% são pardos; 9,84% são amarelos e 0,48% são indígenas. Os brancos totalizam 79,54%. Isso num Estado em que a população escura representa 35% da população. Em outros estados a situação melhora sem diferir. Na Universidade de Brasília (UnB), em que 53% são não-brancos, apenas 32% dos alunos da graduação são pretos. Na Universidade Federal de Paraná, são 8,6% de alunos pretos contra 23% da população estadual.

As pesquisas são incontáveis, e já foram feitas em todas as áreas possíveis e imagináveis (mais um exemplo: dos 16 mil padres das dioceses brasileiras, apenas mil são pretos), e todas demonstram o mesmo: os pretos não fazem parte das nossas elites sociais, econômicas ou políticas.

Mesmo que não houvesse pesquisa, qualquer brasileiro pode atestar com um simples golpe de vista que não há pretos a obliterar sua visão nos melhores lugares da sociedade, seja num bom restaurante, numa diretoria de empresa ou numa universidade.

É essa recusa, quase patológica, em admitir as evidências concretas que permite o nó mental de sustentar que se é contra as cotas por motivos racionais quando a motivação tem profundas e evidentes raízes raciais. Questão de lógica: qualquer postura intelectual ou moral que colabore para manter o preto afastado do branco é, por definição, absolutamente racial.

A negação da realidade, calcada em uma discussão pseudo-intelectual sobre as cotas, encontra explicação na psicologia social do racismo, disciplina capaz de nos mostrar, através da maneira como o branco se manifesta ou silencia sobre a questão, o que lhe passa de inconfessável pela cabeça. Um branco revela decência quando quer o negro, de corpo presente e alma lavada, ao seu lado, seja no escritório ou no banco escolar. Liberal que defende o negro só quando ele está à distância não é um liberal, é um reacionário.

Seja como for, tudo segue o seu curso natural. A polêmica é apenas mais um pequeno capítulo da longa história do racismo brasileiro, um bicho covarde e perfeitamente identificável pela sua sombra e seus efeitos perniciosos, mas que se recusa terminantemente a sair do escuro da sua toca.



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