O caminho das Indias

Os preparativos para a quarta edição do FSM já começaram. Fundamentalismo religioso deve ser um dos principais temas do encontro Por Anselmo Massad   Logo no início...

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Os preparativos para a quarta edição do FSM já começaram. Fundamentalismo religioso deve ser um dos principais temas do encontro

Por Anselmo Massad

 

Logo no início da terceira edição do Fórum Social Mundial, em janeiro deste ano, a organização do evento anunciou que a seqüência em Porto Alegre seria interrompida. Em 2004, o Fórum viajará até a Índia, para reforçar a identificação entre os países do sul, excluídos do poder global. Quando o anúncio foi feito, em meio aos 100 mil participantes, a mudança parecia um desafio maior do que as dezenas de milhares de quilômetros que separam as duas cidades.

Passados seis meses, a organização já avançou bastante e Mumbai, uma cidade portuária localizada na costa sudoeste da Índia, já está se preparando pra receber cerca de 75 mil delegados, sendo pelo menos 10 mil estrangeiros. A cidade é o principal centro econômico do país, com 13 milhões de habitantes. Além de garantir a estrutura necessária para receber os visitantes, tendo fácil acesso por ar e por mar, Mumbai traz ainda certa simbologia. Ao mesmo tempo em que tem elementos característicos do país, possui forte inserção na economia global e apresenta contradições características dos centros financeiros internacionais localizados fora dos países desenvolvidos.

A mudança para a Índia atende ao princípio adotado pelos organizadores de descentralizar as ações do Fórum. O Comitê Internacional, em uma reunião no final de junho em Miami, reafirmou o apoio à ampliação dos fóruns regionais e temáticos como forma de tornar mais participativos e horizontais os debates e atividades. O Fórum Social Mundial Temático que ocorreu na Colômbia em junho sobre democracia, direitos humanos, guerras e narcotráfico e o Fórum regional Europeu (que será realizado em Paris, no mês de novembro) são exemplos de como as ações do FSM devem ser reproduzidas em todos os cantos do planeta.

Mas a busca por uma maior horizontalidade vai além. Para o FSM 2004, o objetivo é abrir ainda mais espaço para atividades organizadas por entidades de forma autônoma, ainda que concatenadas dentro do evento. E isso pode ser observado no Conselho Geral Indiano, que conta com a participação de 135 organizações. Bem mais amplo do que o brasileiro, que contava com oito entidades. Ligado ao Conselho estão os Comitês de Trabalho e o Organizador, que definem a linha e os principais eventos do Fórum.

Os temas, datas e personalidades presentes às atividades serão apresentados alguns meses antes do Fórum, mas os eixos temáticos e a base da programação já foram definidos. Os tipos de eventos serão semelhantes aos da edição de 2003. A novidade ficará por conta de espaços para construção de diálogo e alianças entre entidades em reuniões públicas. O objetivo é reforçar o caráter de espaço aberto para a troca de experiências.

As manhãs ficarão reservadas para painéis e mesas redondas – quatro por dia. Testemunhos e seminários preparados pelo Fórum ficarão para a parte da tarde, simultâneos às oficinas e eventos auto-organizados, ou seja, elaborados por outras entidades. As conferências – abertas a 15 ou 20 mil pessoas – serão realizadas à noite e uma por dia apenas. Os temas amplos do Fórum serão Militarismo, Guerra e Paz; Informação, Conhecimento e Cultura; Meio ambiente e Economia e Exclusão, Direitos e Igualdade.

Política e religião

Os detalhes da programação do Fórum serão definidos nos próximos meses, mas já está claro que ele terá forte influência das questões locais. Um exemplo disso é a realização, entre outubro e novembro, de diversos festivais de curtas-metragens de todo o mundo que se enquadrem na temática do Fórum em várias cidades indianas. Para quem não sabe, a Índia é o maior produtor de filmes do mundo, superando inclusive a produção norte-americana. Entre 1991 e 1996, a média anual de filmes produzidos no país foi de 827 películas, superando a média norte-americana, de 562. Além de preparar a seleção de filmes exibidos durante o FSM 2004, os festivais também tratarão de divulgar o evento.

Outro tema que deverá receber atenção especial, e que também faz parte da vida do país, é o fundamentalismo religioso. A questão ganhou especial importância depois dos atentados de 11 de setembro, mas já ocupam espaço político e merecem atenção há mais tempo. “Em boa parte da Ásia e da África e mesmo para Europa, o discurso da direita fundamentalista e religiosa está crescendo”, aponta Jai Sen, urbanista e membro do Comitê Organizador Indiano do Fórum. “Em parte por causa do impacto do neoliberalismo, em parte em função da guerra contra o terror, em que o Islã é o alvo. Os fundamentalistas muçulmanos tentam tomar a liderança na defesa do Islã e coisa semelhante pode ser observada no contexto da Índia, em que os fundamentalistas hindus tentam tomar a liderança, fazendo um discurso em defesa do país”, completa. Na Índia, os muçulmanos representam 12% da população, o que equivale a mais de 100 milhões de pessoas e, desde a década de 60, sofrem perseguição religiosa por parte da maioria hindu (81% da população). A situação agravou-se a partir de 1992, com o início da destruição de mesquitas por todo o país.

“Desde 1970, dominam na Índia os líderes que trazem a religião para a política, colocando uma contra outra”, afirma Jai Sen. “Isso ganhou força com a primeira-ministra Indira Gandhi, que foi assassinada por aqueles que ela tentou instigar. Desde então, é parte da vida política usar grupos religiosos para seus próprios propósitos. A esquerda faz isso menos, mas também faz”, completa. O resultado, segundo ele, é que as pessoas hoje se identificam principalmente pela religião, muçulmanos ou hindus.

E a ameaça do fundamentalismo não se restringe às ações da direita. O risco maior está em deixar de se aceitar as diferenças de idéias e opiniões que caracterizam o Fórum. Por outro lado, a ida para a Índia significa também uma busca por culturas diferentes que só têm a enriquecer ainda mais a vivência democrática no plano internacional. Mais um desafio que o FSM terá de enfrentar.

Para chegar lá

Há uma forte expectativa de que as delegações do Brasil, sede dos três primeiros FSM, marquem forte presença na Índia. Para isso, já começa a se observar alguma movimentação nesse sentido. “Nossa pretensão é de ter a maior delegação em Mumbai depois dos indianos”, garante Lúcia Simões, do Comitê Gaúcho. Eles já estão se programando para ir a Índia desde já.

O grupo está aberto a todos, dentro ou fora do país e não há limites de vagas (veja como obter mais informações abaixo). Os pacotes incluem saídas de diversas cidades do país – todas convergindo para São Paulo. Os custos variam entre US$ 1,7 mil e 2 mil, dependendo do tipo de hospedagem, e pode ser parcelado. O vôo, em classe econômica, faz escala em Joanesburgo.

Não há grandes dificuldades em se obter o visto de entrada na Índia. No sítio do Consulado no Brasil (www.indiaconsulate.org.br), estão disponíveis os formulários e taxas para a obtenção da permissão de entrada. O visto de turista dura seis meses e a procura aumenta à medida em que se chega ao final do ano, a alta temporada do país. As taxas são da ordem de 150 reais mais despesas de correio.
Além do visto em ordem, é preciso providenciar a vacinação contra a Febre Amarela, obrigatória para se entrar no país. Ela tem de ser tomada, no mínimo, onze dias antes do embarque e tem validade de dez anos.

Para obter informações sobre os pacotes do comitê gaúcho

Em Porto Alegre:
Up Grade Turismo, com Andréa e equipe.
fonefax: (51) 3338-4144
email: andrea@upgradeturismo.com.br
Coobrastur Viagens, com Arlete Lopes
fone: (51) 3227 8676

Em São Paulo:
Princess Travel, com Jefferson e equipe.
fone: (11) 3346-5282, Fax: (11) 3341-6988
email: tours@princesstravel.com.br

Fórum Brasileiro

Entre os dias 6 e 9 de novembro deste ano, Belo Horizonte abrigará o I Fórum Social Brasileiro. A iniciativa acompanha a recomendação do Conselho Internacional de descentralizar os eventos. O lançamento ocorreu no dia 30 de julho, na capital mineira. São três os eixos temáticos:

Imperialismo: ALCA, OMC e dependência externa – estratégias econômicas de dominação; Globalização armada e a militarização na América Latina

O Brasil que temos e o Brasil que queremos: Superação do neoliberalismo por meio de projetos democráticos, populares, não sexistas e anti-racistas de desenvolvimento sustentável; Justiça social, direitos humanos, igualdade entre mulheres e homens, gerações e a superação do preconceito racial no Brasil

Movimentos sociais: Estado e movimentos sociais: repressão, cooperação, cooptação; A ação global dos movimentos sociais

As atividades se concentrarão no campus da Universidade Federal de Minas Gerais e terão estruturas semelhantes às que ocorrem no FSM, ou seja, seminários, oficinas, debates em grande parte organizados autonomamente por ONGs



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