O novo czarismo

A realização das eleições legislativas na Rússia em dezembro foi mais um episódio da consolidação do poder da burocracia russa, intimamente ligada às grandes empresas, e da instituição do culto à personalidade do presidente Putin

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A realização das eleições legislativas na Rússia em dezembro foi mais um episódio da consolidação do poder da burocracia russa, intimamente ligada às grandes empresas, e da instituição do culto à personalidade do presidente Putin

Por Newton Carlos

Um retrato de corpo inteiro da “democracia” russa foi a reunião de encerramento da campanha para as eleições legislativas do Rússia Unida, partido criado pelo presidente Putin com um único propósito, o de servi-lo. Não só a popularidade de Putin (por volta dos 80 por cento) dá vida ao agrupamento sobretudo de burocratas, amplamente vitorioso nas urnas. Comunistas e ultranacionalistas vieram logo em seguida. Já não constituem ameaças.

Os 400 observadores que a Comissão para a Segurança e Cooperação Européia (CSCE) espalhou por todo o país constataram o uso intensivo, em favor dos “putinistas”, da máquina do Estado e dos meios de comunicação e propaganda. No festival do Rússia Unida não faltaram símbolos que falam ao coração. Desfilaram num telão imagens de fuzis, tratores, charretes, ginastas e Gagárin, cada qual com significado próprio, um conjunto voltado para manifestações de patriotismo e votos de grandeza. Pano de fundo que lembrou rituais de passado recente.

O fuzil procurava expressar lutas heróicas, como a resistência à invasão nazista e a vitória na “grande guerra patriótica” contra Hitler. Foram mais de 20 milhões de mortos. É parte do passado que está incrustada na alma de cada russo. Tem forte apelo político. Os tratores são o trabalho. Os ginastas a presença quase sempre marcante da Rússia em competições esportivas. Gagárin foi um russo alçado à condição de primeiro ser humano a ir ao espaço.

Marqueteiros experientes juntaram esses símbolos num painel de forte apelo popular, a serviço de Putin. Seu ministro do Interior assumiu a chefia da coordenação da campanha do “partido do presidente” sem o menor constrangimento. Presença dominante no encerramento, comandava o coro que gritava repetidamente “estamos com Putin” e “uma Rússia unida está a ponto de nascer”. Como expressão política foi tudo. Durante quase três horas passaram pelo grande palco, sob os olhares vigilantes do ministro, artistas de variedades, grupos folclóricos, humoristas, etc.

O Coral do Ministério do Interior cantou exaustivamente a “grandeza da Rússia” e o amor pelo país natal. Nada de propaganda ou discussões políticas, de programas, promessas ou coisas semelhantes que tornassem a reunião pelo menos parecida com um evento eleitoral democrático. A convicção de triunfo arrasador, que reforçaria a imagem de Putin de um “czar” moderno, já estava instalada com a cobertura de pesquisas de opinião pública. O Rússia Unida tem apenas dois anos de existência.

Seus expoentes não aceitaram participar de debates com representantes de outros partidos, com o argumento de que nenhum deles teria peso suficiente, capaz de justificar embates de idéias prévios a votações cujos resultados já estavam definidos antecipadamente. Não houve duelo político. Só monólogos com inspiração palaciana. Todos os discursos tiveram a mesma pontuação, as mesmas palavras e expressões: potência, força, unidade e “com o presidente”. Uma “variante atualizada” do antigo partido único, na visão de analistas.

As comissões eleitorais ficaram em mãos de burocratas fiéis. O Rússia Unida, ao qual se aliaram vários pequenos partidos, “não é exatamente um partido ou uma coligação de partidos”. Se trata de uma “grande máquina burocrática”, com relações umbilicais com grandes empresas sobretudo de setores estratégicos da economia. Em sua lista de candidatos havia 14 ligados a corporações de petróleo e 12 do setor de minerais. Mesmo o big boss da Yokus, o homem mais rico da Rússia, preso sob a acusações de evasão fiscal, mas que caiu em desgraça por ter ajudado a oposição, figura na relação dos que dão dinheiro ao Rússia Unida.

Calcula-se que por volta de seis por cento dos russos tenham votado contra todos os partidos. Esse contingente tem aumentado a cada eleição, reflexo da desconfiança crescente em relação a políticos e funcionários do governo. Nenhum político novo, com força de empuxo, surgiu nessas eleições. Ao mesmo tempo é cada vez mais massacrante a figura de Putin. Como se explica a sua alta popularidade? Tem a aparência de alguém disciplinado em quem é possível confiar. A máquina do Estado, os meios de informação e propaganda foram acionados de tal forma, para projetar esse tipo de imagem, que parece não sobrar espaço para mais ninguém.

Outra incógnita, o que pretende Putin? Em março do ano que vem ele será certamente reeleito. A Constituição não permite, no entanto, a disputa de um terceiro mandato. Com o controle do parlamento ele terá condições de mudar a Constituição. Ele garante que não mudará. Poucos acreditam. A crença maior é a de que a ambição é de estada indefinida em palácio.

ncarlos@revistaforum.com.br



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