O professor que provocava o inverso

Crônica Por Renato Rovai   Marxista deve ser incisivo, falar duro e ter convicções fortes. Talvez seja essa a primeira impressão que se tem (ou se tinha)...

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Crônica

Por Renato Rovai

 

Marxista deve ser incisivo, falar duro e ter convicções fortes. Talvez seja essa a primeira impressão que se tem (ou se tinha) ao trilhar caminhos à esquerda. Não que isso fosse elaborado ou se tratasse de um modelo a ser seguido. Mas de alguma forma nossas referencias do dia-a-dia assim se comportavam. E de certa forma também nos levavam a ser assim, convictos.

O professor que eu respeitava como sábio do pensamento das últimas décadas me chocou pelo inverso. Já o tinha visto ministrando palestras ou em encontros casuais, como num sábado à tarde, numa das bienais, quando o vi folheando um livro do qual havia sido um dos autores. Não pensei duas vezes, fui ao seu encontro, me apresentei e lhe pedi que aceitasse a obra como presente.

Ianni estava com um garoto, que imaginei ser seu neto. Simpaticamente falou para o menino comprar um livro no estande. Pareceu-me uma forma de agradecimento.
Fui conhecê-lo melhor nas aulas e nos corredores e cafés da Escola de Comunicação e Artes da USP. Fiz dois cursos com ele. Um onde o professor desvendava o mundo da globalização e outro em que traduzia o pensamento de Gramsci. Temas áridos, à primeira vista, se tornavam imensamente instigantes e simples.

O princípio do professor, que talvez deixava tudo mais bonito, era a absoluta convicção de que devíamos nos livrar de todos as nossas certezas. E se abrir ao encantamento das questões. A se perguntar sobre tudo. E a esquecer todo e qualquer tipo de fronteira e barreira que pudesse nos impedir de viajar.

Talvez por isso tenha ouvido de gente de cá e de lá duras críticas aos seus últimos pensamentos. Alguns crivavam-lhe o carimbo de revisionista por não acreditar nas possibilidades de um projeto nacional. Dizia claramente que a América Latina tinha perdido sua oportunidade histórica e que as mudanças a partir de iniciativas locais eram inviáveis.

Outros o interpretavam por destemperado quando analisava o atentado de 11 de setembro como um ato com componentes revolucionários. Aliás, tive o prazer de estar naquela turma que ouviu as suas primeiras impressões sobre o ocorrido. Se não me engano, dois dias depois do fato. Ali, ele ouviu. Todos queriam falar. E ele com tranqüilidade adiou o tema da aula e se pôs a conversar três horas sobre o assunto.

Depois dos primeiros contatos na Escola contatei Ianni para que escrevesse eventualmente para a Fórum, o que ele fez por xxx vezes. E também para que concedesse entrevista para alguns veículos. Sempre muito gentil, às vezes dizia não e se justificava em telefonemas que duravam ao menos meia hora. Nessas conversas se mostrava um tanto decepcionado com os rumos da esquerda e reclamava da indisposição para o debate das lideranças e dos intelectuais locais. Era crítico mordaz das guinadas neoliberais de FHC, mas não esperava nada diferente do governo Lula. O que nos deixou claro em muitas conversas antes das últimas eleições presidenciais. Via uma impossibilidade de mudanças no jogo no plano local. E achava que se tratava de estelionato eleitoral dizer o contrário.

Mas a sabedoria de Ianni não permitia imposições. No atacado, em aulas ou em palestras, deixava o barco rumar ao ritmo dos participantes. Comportava-se como alguém que tem o leme, mas que empresta os remos aos que participam do encontro. No varejo, me dava a impressão de conselheiro. Indicava livros, contava histórias, apontava caminhos, mas não se punha a bloquear idéias ou pensamentos, por mais ingênuos.

Quando abri o jornal da segunda-feira e vi que o professor partira, fiquei bloqueado. Não choquei. Foi uma sensação estranha. Pensei em escrever algo, mas resisti. Achei que o professor não gostaria de homenagens ou pior ainda, obtuários. Mas minha tolice não me permitiu não comentá-lo. E agradecê-lo pelas tantas dúvidas que nos despertou.



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