O triunfo do conservadorismo

Disputa à Casa Branca oferecia poucas diferenças entre os candidatos, mas vitória de George W. Bush aumenta o desafio de enfrentamento para o movimento social Por Anselmo Massad  ...

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Disputa à Casa Branca oferecia poucas diferenças entre os candidatos, mas vitória de George W. Bush aumenta o desafio de enfrentamento para o movimento social

Por Anselmo Massad

 

Até o dia 1º de novembro, o candidato à presidência dos Estados Unidos a receber mais votos era Ronald Reagan, em sua reeleição, em 1988, com 54,5 milhões de votos. Depois da votação deste ano, o ator, falecido há quatro meses, caiu para a terceira colocação. O republicano George W. Bush, que vai para seu segundo mandato, obteve 59,5 milhões, 3,5 milhões a mais do que o concorrente, o democrata John Kerry. A diferença é que Reagan venceu Walter Mondale em todos os Estados, exceto Minessota (onde perdeu por menos de quatro mil votos) e no distrito de Columbia.
A estreita margem, a menor desde 1916, é um dos “17 motivos para não cortar os pulsos”, apontados pelo cineasta Michael Moore (diretor de Farenheit 9/11), um dos mais engajados cabos eleitorais dos democratas. O que Moore não quis lembrar é que Al Gore venceu no voto popular em 2000, conforme ficou comprovado em uma apuração paralela realizada a pedido de um grupo de grandes jornais do país, como New York Times e Washington Post.

O fato é que o país está dividido entre o conservadorismo extremado de Bush e o centrismo insosso de Kerry. Ainda que a crise seja menor do que as comprovadas denúncias de fraude de 2000, a preocupação permanece. “Conversamos sobre a urgente necessidade de unir o país”, anunciou o democrata sobre sua conversa telefônica com Bush, ao reconhecer a derrota no Estado de Ohio, que garantia a vitória do presidente antes do fim da apuração em outros locais. O tom do discurso de Kerry deixou claro que a prioridade democrata continua a ser manter o sistema político funcionando.

A preocupação mostra a crítica mais freqüente à campanha de Kerry. “O lado triste sobre as eleições é que deveria ter sido um referendo sobre a guerra e a guerra contra o terror, mas não foi, porque John Kerry endossou tudo o que George W. Bush está fazendo, mesmo tendo discordado dele pontualmente sobre as formas como ele o fez”, avalia Eric Garris, do Instituto Randolph Bourne, que mantém o antiwar.com.

Um dado que reforça o peso da guerra na definição das eleições é que, no segundo debate na TV entre os candidatos, sobre questões de política interna, foi avaliado quase unanimemente como um baile de Kerry sobre Bush. O único trunfo do presidente foi ter reduzido impostos, prática inédita em tempos de guerra no país, o que agradou e aliviou críticas entre os republicanos, mas gerou um déficit público estrondoso, após anos de superávit no governo anterior. Enquanto isso, os planos de Kerry de reforma e ampliação da rede de atendimento social, especialmente na saúde, não chegaram a comover e soaram, para alguns setores, como possível aumento de impostos.

Com o Iraque como centro gravitacional do debate, o democrata se perdeu. Não conseguiu explicar qual a diferença entre a política atual e seus planos de “recuperar a liderança do mundo”, restabelecendo coalizões para combater o terrorismo. Para Garris, Kerry ainda era um segundo candidato pró-guerra, a ponto de algumas pessoas chegarem a dizer que com Bush a retirada do Iraque aconteceria mais cedo, já que o democrata chegou a falar em quatro anos pelo menos de ocupação. Ainda que muitos eleitores americanos reconheceram que ir ao Iraque foi um erro, o democrata queria terminar o serviço no Iraque e não sair rapidamente, o que poderia tê-lo diferenciado. “A eleição se tornou um referendo sobre a integridade de John Kerry, em vez das questões importantes, e é por isso que ele perdeu”, completa.

As acusações contra o passado do democrata são decorrência do amplo espaço para os aliados de Bush, na visão de Steve Rendall, pesquisador do observatório de mídia Fair. Tudo isso porque parte da mídia comercial do país foi tendenciosa em favor do governo atual. Ele cita casos como os de organizações questionáveis, como a Vietnan Swift Boat Veterans for Truth, patrocinados por grupos do partido republicano, muito próximos à campanha de Bush, que publicaram, em julho, uma lista de fatos para desmoralizar o serviço de John Kerry no Vietnã. “O que a mídia fez foi dar um tempo para Bush e permitir que os acusadores de Kerry falassem à vontade, sem fazerem seu trabalho de jornalistas. Em vez de checar com outras fontes para descobrir o que era ou não verdade, mostraram respostas de Kerry, mas nunca foram ao fundo”, completa.

A colher-de-chá nada inocente da mídia transformou a campanha na mais enganosa da história, na avaliação de Rendall, que acompanha os pleitos desde 1972. Ele cita duas das redes nacionais de TV do país que, além de pressionarem o poder público para permitir-lhes mais canais no país, têm relações complicadas com a guerra. A NBC faz parte do grupo controlado pela General Eletric, dona de alguns dos maiores contratos militares do mundo. A CBS é concessionária da Viacom, dona da Westing House, outra gigante da indústria bélica. “A cultura política é dirigida por dinheiro, inundada em dinheiro, o que faz com que as empresas tenham muito mais peso do que os indivíduos. Isso leva a crer que os EUA não tenham uma democracia de fato em operação”, denuncia.

“A não existência de horário gratuito na mídia faz com que as candidaturas tenham de pagar por esses horários, o que se constitui em um negócio milionário para as empresas de comunicação – revelando porque ela é contra o horário eleitoral por aqui (no Brasil)”, explica o sociólogo da UERJ, Emir Sader, em artigo na Agência Carta Maior. “Isso obriga que as campanhas tenham de ter arrecadações bilionárias e elimina quem não consiga esses recursos”, critica. A exacerbada relação com o dinheiro dá uma pista sobre a crise da democracia norte-americana. Somados, os dois principais partidos conseguiram 3,9 bilhões de dólares na corrida pela Casa Branca e pelo parlamento, segundo o Center for Responsive Politics, na campanha mais rica de todos os tempos.

O lingüista Noam Chomsky, que não quis dar entrevistas após as eleições, enviou comentários antes mesmo do pleito. Ele avalia que a eleição é um método de marginalizar a população. “Bush e Kerry são financiados basicamente pelas mesmas concentrações de poder privado. São crias da indústria de assessorias de imprensa, que mantêm o público fora do processo eleitoral”, esclarece. “Uma grande campanha de propaganda é montada para manter a atenção das pessoas em extravagâncias pessoais quadrienais e pensar: ‘Isso é política’. Mas não é, é uma pequena parte da política”, completa.

Com uma democracia em crise, a busca por alternativas políticas poderia ser uma saída de emergência. A preocupação até existe entre os movimentos sociais, mas a completa incapacidade desse tipo de articulação fica evidente. O independente Ralph Nader chega a ser motivo de piada no país. Com menos de 1% dos votos nacionais, insiste na candidatura, mas não se destaca do bolo de candidatos inexpressivos, como o ultra-liberal Michael Badnarik, neste ano.

“A alternativa está sendo criada no nível local”, defende Kevin Danaher, coordenador da ONG Global Exchange. “Nacionalmente, realmente não há muito espaço, mas localmente, o partido verde é o terceiro maior, tem centenas de membros eleitos em diversos municípios, em conselhos municipais, prefeitos etc.”, sustenta. Apesar do otimismo do ativista, vale dizer que há anos o discurso de transformação da economia e da política pelas bases vem sendo empregado nos EUA. Apesar de ter apresentado crescimento, não chega a ser relevante no cenário mais amplo.

Chomsky dá uma pista para os fracassos dos numerosos movimentos sociais norte-americanos. “O ativismo por mudanças sociais pode ser maior do que nunca nos Estados Unidos, mas está desorganizado. Ninguém sabe o que acontece do outro lado da cidade”, critica. Ele clama por mobilização de setores progressistas para que, juntos, tenham “algum peso nas discussões nacionais”.

Futuro Enquanto as alternativas políticas não são criadas, o mundo permanece nas mãos de Bush e sobram especulações sobre os rumos de seu segundo mandato. Nas primeiras declarações, o presidente mostra que mantém Ronald Reagan como guru e modelo. Não é à toa, já que além dos dois mandatos, fez o sucessor (George Bush pai, seu vice) e saiu cheio de popularidade.

A fórmula do ator foi abrandar a agressividade e buscar diálogo. Analistas apontam uma mudança de prioridade: a caça de votos para a reeleição dá lugar ao legado histórico ao país e ao sucessor. Reagan abandonou, no segundo mandato, a expressão “império maligno” para se referir aos soviéticos e foi atrás de conversas – para ajudar a acabar com os adversários. Mesmo o democrata Bill Clinton, que deixou uma herança mais ligada ao escândalo Monica Lewinsky, os esforços contínuos para solucionar o conflito na região Palestina mostram o mesmo tipo de intenção.

Antes de tentar ser otimista quanto ao segundo mandato de Bush, vale lembrar que abrandar o unilateralismo intransigente e dialogar um pouco não quer dizer abandonar as arbitrariedades que marcaram o primeiro mandato. O protocolo de Quioto, sobre emissão de poluentes, e o Tribunal Penal Internacional, para promover julgamentos de questões internacionais, devem permanecer embargados pelo país. “A guerra vai continuar no Iraque e o projeto de hegemonia geral, e particularmente militar, também segue”, indica o belga François Houtart, diretor do Centro Tricontinental (Cetri) e do Fórum Mundial de Alternativas. “Não que se pensasse que com Kerry a situação mudaria tanto, mas agora fica bastante claro, e é melhor que esteja muito claro, o projeto americano de hegemonia”, completa.

O sociólogo, atualmente em Burkina Faso, na África, acompanhando um projeto local de educação de adultos, acredita que a fase de extensão econômica do capitalismo se dá hoje por meio da guerra. “É o que se vê no Iraque, no Afeganistão, na África, na Colômbia e em muitas partes do mundo”, garante. Por isso, ele acredita que os movimentos sociais precisam se preocupar, especialmente durante o Fórum Social Mundial em Porto Alegre, em incluir a dimensão antiguerra e dos movimentos pacifistas.

Dar destaque para esse item na pauta do movimento seria uma retomada das mobilizações de milhões de pessoas nas principais cidades do mundo, em fevereiro de 2003. Kevin Danaher lembra orgulhoso de quando reuniram 15 milhões nos EUA contra a guerra no Iraque, antes mesmo de ela começar. “No Vietnã, precisamos de cinco anos para atingir esse número”, comemora.

Os tempos eram outros, mas talvez a pressão exercida tenha sido menos intermitente do que agora. “Organizações como a nossa que vivem de doações de pessoas e não de empresas e governos sofrem um duro corte de recursos, destinados a gente como Kerry e Howard Dean (candidato democrata derrotado nas primárias)”, lamenta. Segundo Danaher, os democratas também compartilham parte importante dos militantes, que se envolvem nas campanhas e abandonam qualquer outro tipo de mobilização.

Se nos EUA, o esforço para derrotar Bush dissipou as massas das ruas, no resto do mundo os motivos são outros. Houtart levanta três pontos. Primeiro, estabeleceu-se um vínculo menos político do que ético nos protestos mundiais. Depois, a relação entre a guerra e a hegemonia do sistema econômico não foi devidamente trabalhada e, na medida em que os ataques se reduzem e a ocupação está constituída, o alvo dos protestos enturvou-se. Por fim, o desânimo resultante do unilateralismo norte-americano. O poder hegemônico avisou que ninguém pode se opor efetivamente, porque ele passa por cima da ONU, de milhões de pessoas no mundo, de direitos humanos etc.

Não há dúvidas de que os Estados Unidos só irão considerar a posição da ONU quando ela estiver de acordo com (ou subjugada a) seus interesses. Ou como analisou Marco Aurélio Garcia, durante o 4o Fórum Social Mundial em Mumbai, a crise de credibilidade das Nações Unidas é conseqüência da pressão da sociedade civil, já que forçou a entidade a se posicionar contra os norte-americanos. O que ele não disse, talvez por necessários freios diplomáticos, é que se antes não havia confronto, é porque a ONU apenas abalizava os interesses norte-americanos.

Internamente, a promessa do presidente é de novos cortes de impostos e reforma na estrutura de previdência social. “Bush e sua administração estão publicamente comprometidos em desmantelar e destruir qualquer legislação progressista e estrutura de bem-estar social conquistada por lutas populares no século passado”, alerta Chomsky. As medidas podem aumentar ainda mais as desigualdades sociais crescentes nos últimos anos. Lideranças sindicais e de movimentos repelem em coro as medidas de adaptação à cartilha do Fundo Monetário Internacional, com corte de direitos.

Retomando o cineasta Moore, ele encerra sua avaliação da reeleição de Bush falando só para os norte-americanos, mas curiosamente citando um romeno, pai de um amigo: “Lembre-se, este país é tão maravilhoso, nem precisa de presente”. Mas faz a ressalva: “Mas precisa de nós”. Normam Solomon, crítico de mídia do Media Beat, também incensa as esperanças, dizendo que a eleição presidencial de 2 de novembro é apenas um prólogo e não o fim da história. “Nos recusamos a simplesmente aceitar o que é despejado pelos poderes, mais guerra, menos justiça, mesmo disparidades econômicas mais extremas, menos democracia. Vamos precisar de idealismo vibrante e ativismo político como nunca”, instiga. Ótimo. Se precisarem do resto do mundo, estamos logo ali.

Mobilização conservadora Os 14 milhões de eleitores registrados a mais do que em 2000 levaram a 59,6% a participação, a maior desde a eleição de Richard Nixon, em 1968, quando 62% foram às urnas. Na visão dos democratas, um sinal da insatisfação popular com relação à gestão de Bush. Um dos motivos da derrota é que a participação de jovens (de 18 a 29 anos), extrato social em que Kerry venceu por nove pontos percentuais de diferença, foi proporcionalmente igual a 2000, não passando de 17%.

Para completar, segundo analistas, boa parte do crescimento esteve por conta de fundamentalistas cristãos, que representam um quarto da população e dos quais menos de 40% haviam se registrado para alguma eleição no país, além de outros setores conservadores. A mobilização da direita foi muito maior do que a dos democratas ou de setores progressistas, que não se animaram suficientemente com a candidatura Kerry.

Em 2000, um pedido de reavaliação do indeferimento do registro de milhares de eleitores negros na Flórida não foi adiante porque nenhum senador se dignou a assinar as petições dos deputados afro-descendentes. Neste ano, as denúncias de lideranças como o reverendo Jesse Jackson, de que os republicanos estariam privando minorias (como negros e latinos) de se registrar foram deixadas de lado após a votação.

Alca e Angra 3: eixos da discórdia O presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, em sua mensagem de felicitações ao colega norte-americano, pediu “relações mais profundas” entre os países. Dois dias depois, Bush retornou o telefonema e, por dez minutos, conversaram sobre o futuro entre os países.

Deixada para o segundo plano na política externa depois dos atentados de 11 de setembro e o início da “Guerra contra o terror”, a liberalização comercial com o Brasil e outros países do Mercosul não avançou. Os impasses nas negociações da Área de Livre Comércio das Américas (Alca) devem voltar à pauta, apesar de o Itamaraty preferir, neste momento, esperar pelas decisões da Organização Mundial do Comércio (OMC), favoráveis a parte dos interesses comerciais das empresas brasileiras nas disputas mais recentes.

“A América Latina não está no epicentro dos conflitos da guerra infinita de Bush, salvo talvez a Colômbia e a Venezuela”, avalia Emir Sader. “No caso da Alca, passadas as eleições, os EUA podem ser mais flexíveis, mas farão uma nova ofensiva. E isso vai depender do avanço conquistado no Mercosul, no parlamento, na moeda única, e na criação de uma área internacional”, avalia.

Outra questão na pauta dos EUA para o país é a pressão pelo acesso de inspetores da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) às instalações de Angra 3, a nova usina nuclear de geração de energia elétrica. As restrições impostas, segundo o governo brasileiro e a esmagadora maioria dos físicos e especialistas, são necessárias para salvaguardar vantagens tecnológicas nacionais. Algo absolutamente normal e aceitável em termos de relações diplomáticas, segundo eles.

Ainda que pouco preocupados com a possibilidade de o Brasil produzir armas de destruição em massa, membros do governo norte-americano temem que a brecha aberta pelo Brasil possa ser aproveitada pelo Irã, que, ao lado do Iraque e da Coréia do Norte, figurava no Eixo do Mal, expressão cunhada ao final de 2001 para designar os países combatidos pela cruzada de Bush.

anselmo@revistaforum.com.br



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