O último monarca

Líder espiritual de mais de um bilhão de habitantes do planeta, João Paulo II nunca abriu mão de seu papel de chefe de Estado e afirmou-se como referência no cenário geopolítico mundial Por Glauco Faria...

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Líder espiritual de mais de um bilhão de habitantes do planeta, João Paulo II nunca abriu mão de seu papel de chefe de Estado e afirmou-se como referência no cenário geopolítico mundial

Por Glauco Faria e Nicolau Soares

Dalmo Dallari, um dos maiores nomes do Direito brasileiro, era presidente da Comissão de Justiça e Paz da Igreja Católica em 1980, ano da primeira visita de João Paulo II ao Brasil. Às vésperas da vinda do pontífice a São Paulo, o jurista, que estava escalado para fazer uma das leituras na missa campal no estádio do Morumbi, foi seqüestrado e espancado por um grupo de direita. “Sofri violência física, mas mesmo de cadeira de rodas, fui até a missa”, recorda. “O que eles queriam – a intimidação – teve efeito contrário. O fato de eu estar presente lá serviu como denúncia em todo o mundo e até hoje, quando viajo ao exterior, há pessoas que se lembram do fato”, sustenta.

Naquele contexto, a visita do polonês Karol Wojtyla representava o suporte que a ala da Igreja Católica defensora dos Direitos Humanos precisava. “O papa deu total apoio à linha progressista; prova disso é que veio a São Paulo, onde éramos mais atuantes. Se ele não quisesse, não precisaria vir”, defende Dallari. Operários também foram abençoados na ocasião. O trabalhador encarregado de fazer o discurso de agradecimento a João Paulo II não conseguia falar. Soluçava, chorava, sob o olhar generoso do pontífice, que discursou em prol da liberdade, do estado de Direito e da justiça social. Os militares, temerosos em função da imensa massa que se acotovelava no estádio do Morumbi, reforçaram a segurança para evitar qualquer manifestação mais incômoda ao regime. Para os presentes, a visita mostrava que o Papa estava “do lado do trabalhador”.

Será? O mesmo Wojtyla, em 1989, desmembraria a Arquidiocese de São Paulo, até então a maior do mundo, diminuindo o poder do progressista Dom Paulo Evaristo Arns, um dos organizadores da visita do Papa à capital paulista em 1980. Após a aposentadoria de Dom Paulo, Dom Luciano Mendes de Almeida, da mesma linha de Arns, e visto como seu sucessor natural, foi enviado para a pequena arquidiocese de Mariana, em Minas Gerais. Antes disso, o Vaticano já havia processado o Frei Leonardo Boff por causa do livro Igreja, Carisma e Poder, publicado em 1984. O Cardeal Joseph Ratzinger, presidente da Congregação para a Doutrina da Fé e um dos homens mais próximos a Wojtyla, condenou publicamente pontos da Teologia da Libertação e nem mesmo a defesa dos cardeais Arns e Aloisio Lorscheider no Vaticano livraram o frei da condenação ao silêncio obsequioso, que o proibiu de dar entrevistas e realizar palestras e conferências. Instado a comentar o assunto, Boff, por e-mail, escreveu: “não quero dar entrevistas sobre este pontificado, agora em completo ocaso”.

Como justificar essa mudança de postura em tão pouco tempo? Ou será que não houve mudança? Na verdade, a biografia do Papa polonês é recheada de episódios aparentemente paradoxais, mas que fazem muito sentido se analisados a fundo. Segundo Frei Betto, em artigo publicado no jornal O Globo, o papa não abre mão de suas prerrogativas políticas. “Deste ponto de vista, o trono de Pedro abriga, hoje, o único monarca absoluto do Ocidente”, comenta. Assim, Wojtyla agiu durante os 25 anos de seu pontificado em dois planos paralelos: um político, que incluía desde uma atuação mais presente no cenário internacional até um movimento de aproximação diplomática com outras religiões; e outro em relação à doutrina e à administração dos assuntos eclesiásticos, de cunho absolutamente centralizador e conservador, em defesa de valores considerados intocáveis pelo Pontífice.

Na geopolítica, o maior destaque de seu pontificado foi a luta incessante contra o socialismo soviético. Quando eleito para o cargo máximo da Igreja Católica, em 1978, João Paulo II ainda trazia consigo as marcas do regime comunista polonês, que dificultava ao máximo a expansão católica e a abertura de igrejas no país. Karol Wojtyla era arcebispo local e teimava em desafiar o regime. Eleito pontífice, essa luta se acirraria. “Um dos principais alicerces do poder da União Soviética era a ausência da igreja. O Estado soviético era totalmente ateu e por isso não permitia nenhuma religião. No entanto, a Polônia, mesmo durante o comunismo, era um país de maioria católica e o papa minava a força do regime ao falar com os fiéis poloneses”, explica Gunther Rudzeit, professor-doutor de Relações Internacionais e membro do Núcleo de Análise Interdisciplinar de Políticas e Estratégia da Universidade de São Paulo (Naippe-USP). O ditador Joseph Stálin costumava desprezar o poderio da Igreja: “Quantas divisões o papa comanda?”, questionava irônico. Não podia prever que, sem sequer um soldado e sem disparar um tiro, um dirigente católico seria fundamental na queda do comunismo.

Ao contrário do que se podia esperar, após a queda do Muro de Berlim, a Igreja Católica não se alinhou de forma automática aos EUA, e em muitas ocasiões foi uma das maiores forças opositoras à fúria americana no cenário internacional. “Apesar de anticomunista, o Vaticano nunca simpatizou com o capitalismo – respeitando, todavia, a questão da propriedade privada – em função da sociedade de massas também ser extremamente materialista”, aponta Virgílio Caixeta Arraes, professor do Departamento de Relações Internacionais da Universidade de Brasília. “Com o fim da Guerra Fria, o Vaticano manifestou posições em prol dos países do Terceiro Mundo, invocando a preocupação com a desigualdade de condições”, completa.

Na recente invasão ao Iraque, o Vaticano lançou duras críticas à guerra de Bush. O ministro das Relações Exteriores do Vaticano foi seco em documento publicado no fim de fevereiro, quanto ao iminente conflito: “Uma guerra unilateral de agressão representaria um crime contra a paz e contra a Convenção de Genebra”, disse o Cardeal Jean-Louis Tauran. “Nas duas Guerras do Golfo, o Vaticano insistiu até o fim pela saída diplomática, no que não foi atendido pela aliança da ONU e atualmente pela anglo-americana. Na última, enquanto os dois lados invocavam seus deuses, o Vaticano invocava o Direito Internacional”, pontua Caixeta.

Wojtyla enviou o Cardeal Pio Laghi a Washington para conversar com o presidente norte-americano após uma série de audiências que manteve com importantes líderes, como o espanhol José Maria Aznar, favorável à política de Bush, e o secretário-geral das Nações Unidas, Kofi Annan. A reação da administração Bush não foi das mais amenas. A conselheira para a Segurança Nacional, Condolezza Rice, insinuou na revista Panorama, de Silvio Berlusconi, uma comparação entre a “inércia” do Vaticano em relação ao Iraque e a “falta de reação do mundo” contra Hitler na década de 30 do século passado.

O pragmatismo de João Paulo chega ao ponto de ter em Fidel Castro um aliado. Em relação à guerra, o dirigente comunista não poupou elogios ao Pontífice em declaração dada em março. “Especial respeito, certamente aceito por muitos crentes de outras religiões, merece o esforço impetuoso e incansável pela paz que está realizando o Papa João Paulo II, apesar das dificuldades físicas e de saúde, em seu especial zelo por evitar uma guerra no Oriente Médio, cujas conseqüências humanas, políticas e econômicas para o mundo podem ser desastrosas”, afirmou. A “amizade” vem desde a visita do Papa a Cuba em 98, que facilitou a vida de católicos e até mesmo de evangélicos na ilha. Esse estreitamento valeu a condescendência do Papa com as recentes execuções na ilha, indo na contramão da maior parte da esquerda internacional. Duas semanas após as mortes, o Secretário de Estado do Vaticano, o Cardeal Ângelo Sodano declarou: “o Papa não se arrependeu da confiança que deu a Fidel Castro” e continuava acreditando nele para a tarefa de democratização do país. “Em relação a Fidel, xingá-lo é elogiar o Bush”, argumenta Fernando Altemeyer.

Libertação e Renovação
O ranço contra o comunismo moveria o Papa a atacar dentro da Igreja. A Teologia da Libertação, surgida a partir das resoluções do Concílio Vaticano Segundo, em 1962, ocuparia um lugar de destaque na Igreja e na política latino-americana nos anos 70 e 80. Após as Conferências Episcopais de Medellín, em 1968, e Puebla, no México, em 1979, as lutas sociais passaram a ter lugar de destaque nas homilias dos padres e na ação dos católicos. Surgiram as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), muito envolvidas na luta política em um momento em que a América Latina, que concentra mais de metade dos católicos em todo o mundo, estava dominada por ditaduras militares.

“João Paulo II era simpático com a ‘opção pelos pobres’, mas não podia dar suporte a um movimento que flertasse com o marxismo ou que usasse a análise marxista”, explica o comentarista da CNN John Allen, também correspondente no Vaticano do jornal norte-americano National Catholic Reporter. O principal receio vinha dos cardeais do continente latino-americano, que temiam que a Teologia da Libertação pudesse extrapolar os limites da religião e formar movimentos sócio-políticos, o que de fato viria a ocorrer, com a organização de grupos em defesa da luta indígena e o próprio MST, fruto do intenso trabalho da Pastoral da Terra e das CEBs. Esse setor conservador conseguiu fazer seus medos chegarem até João Paulo II, que não hesitou em frear a esquerda católica. “Infelizmente, João Paulo não ouviu as igrejas locais. Se elas tivessem sido ouvidas, iria entender que o que se fazia aqui era o mesmo que ele havia feito na Polônia”, pondera Fernando Altemeyer.

Para coordenar esse esforço contra os adeptos da Teologia da Libertação, a partir da Conferência de Porto Príncipe, no Haiti, em 1983, foi lançado o termo “Nova Evangelização”, que seria a força opositora contra a forte tendência de secularização da igreja. “O trabalho de evangelização deveria ser novo no ardor, nos métodos e nas expressões. Com essa diretriz, fica claro que a Igreja deve evangelizar, e não salvar ou libertar, termos que foram muito identificados com a ala progressista. O homem precisa de dignidade para viver decentemente, mas existem os aspectos espirituais que precisariam ser trabalhados”, explica o historiador Augustin Wernet, da USP.
Dentro desse quadro, além do intensivo uso dos meios de comunicação para espalhar “a Palavra”, um outro movimento surge: a Renovação Carismática. Nascida nos EUA, em outubro de 1966, em princípio, não surge como um movimento de oposição à Teologia da Libertação, mas o antagonismo é claro. A interiorização do indivíduo é mais valorizada, a emoção e o milagre são reabilitados na prática da fé, com um alcance mais amplo dos dons do Espírito Santo, acessíveis ao fiel que quisesse buscá-los.

No início dos anos 80, o jovem papa viu nos carismáticos uma possibilidade de conter o avanço do setor à esquerda. Nunca houve um apoio explícito, o que nem poderia acontecer já que tanto um quanto o outro são movimentos formados por leigos, mas a nomeação de bispos simpáticos à Renovação mostrava a simpatia de Wojtyla. “Os carismáticos significavam uma dupla reação. De um lado, contra a Teologia da Libertação e de outro buscava conter o avanço das igrejas neopentecostais”, aponta José Reginaldo Prandi, professor de História das Religiões. “Os carismáticos substituíram os movimentos eclesiais de base na relação mais direta com os fiéis”, completa Augustin Wernet.

Ao contrário dos adeptos da Teologia da Libertação, os carismáticos também apóiam uma rigidez no campo moral que se aproxima bastante do pensamento de Wojtyla. “Eles são contra o aborto, a contracepção, o homossexualismo e enaltecem a figura do Papa.”, destaca Prandi. “Representam um movimento de volta, uma correção de rumo da Igreja”, completa. No auge, o movimento tem no Brasil seu ídolo maior, padre Marcelo Rossi, com uma popularidade jamais imaginada por um Dom Paulo Evaristo Arns ou um Dom Pedro Casalgálida.

Os bons costumes Se a sua atuação política (às vezes contra a política) causa controvérsias, é no campo da doutrina e das relações eclesiásticas que João Paulo II enfrenta seus maiores opositores. A aproximação do Papa com outras religiões despertou a ira de alguns grupos católicos ultra-tradicionais. Um deles chegou a chamar Wojtyla de beijador do Alcorão, por ter sido o primeiro pontífice a entrar em uma mesquita.

Foi também o primeiro a ir a uma sinagoga e prosseguiu com a política de aproximação iniciada com João XXIII, que havia retirado da liturgia a referência aos judeus como deicidas, responsáveis pela morte de Jesus. Buscou o diálogo com outras religiões cristãs e fez uma série de pedidos de desculpas por pecados cometidos pela Igreja. Pediu perdão aos aborígenes (pela Internet), aos judeus, aos cristãos ortodoxos, às vítimas de abuso sexual dos padres… Esses freqüentes pedidos de perdão não atraíam a simpatia de vários membros da Igreja, como o Cardeal Ratzinger, que também atacou a condescendência de Wojtyla com outras crenças, afirmando que elas não podiam trazer “a Verdade”, mas apenas “fragmentos da Verdade”. Essa é monopólio católico.

Se nas relações inter-religiosas João Paulo optou pelo diálogo, fez questão de fortalecer seu comando dentro da hierarquia católica. “Uma característica deste papado é a centralização de forças na figura do papa e isso se manifesta nas nomeações episcopais. No Brasil, por exemplo, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e a Conferência dos Religiosos do Brasil (CRB) não têm qualquer poder na escolha dos bispos. A decisão é inteira do Vaticano”, esclarece Augustin Wernet. Frei Betto, no mesmo artigo já citado, afirma: “Suas decisões têm força de lei e impõem obediência na fé, sem admitir contestação de qualquer instância. Conta-se nos claustros que João Paulo II, indagado com quem se reúne para tomar decisões, teria respondido: ‘Ajoelho-me’. Um colóquio entre quatro pessoas: o Papa, o Pai, o Filho e o Espírito Santo”.

Nas questões morais e doutrinárias da Igreja, como aborto, contracepção, homossexualismo e a ordenação de mulheres, João Paulo sufocou as vozes dissonantes, encerrando a discussão com base no dogma da infalibilidade papal, segundo o qual o sucessor de Pedro não erra ao tratar de questões de fé e moral em nome da Igreja, por receber assistência do Espírito Santo. Assim como o anticomunismo, questões morais são entendidas como de foro íntimo para o papa, pouco tendo que ver com um posicionamento estratégico. “A defesa de valores é uma posição antropológica, tem a ver com a maneira como ele vê o ser humano. Ele acredita, por exemplo, que a vida tem valor desde a concepção ultra-uterina; é uma questão de leitura”, acredita Fernando Altemeyer. Mas para o padre Daniel Lagni, professor de Teologia e diretor nacional das Pontificas Obras Missionárias do Brasil, a questão seria institucional, independente da vontade do papa. “A Igreja Católica e outras cristãs têm princípios éticos que não podem ser mudados conforme o papa. São valores fundamentais em que nós cremos. Temos de respeitar o que diz a ciência, mas temos direito de propor e pregar nossa doutrina, que achamos que representa os valores da vida e do ser humano”, defende.

Mas não é assim que pensam vários grupos católicos. “A Igreja tem dado declarações assustadoras, como a mais recente em relação ao uso do preservativo, contrariando a Organização Mundial de Saúde (OMS) e a ciência. Segundo as mais antigas tradições da Igreja, o que se exige do cristão é o recurso à própria consciência. Na história do pensamento cristão, não há nenhum dogma relacionado à moral sexual”, contesta Maria José Rosado, do Mulheres Católicas pelo Direito de Decidir, grupo que luta pela promoção dos direitos das mulheres, especialmente os direitos sexuais e reprodutivos. A ala feminina contesta seu reduzido poder de atuação e a polêmica sobre o ordenamento de mulheres. “Nesse aspecto, o Papa é bastante conservador. A mulher participa na assistência social na igreja, nas missas, mas quem manda é o padre”, atesta Augustin Wernet. “O legado deste papa é desfavorável para nós. Ele tentou fechar a porta definitivamente para a ordenação das mulheres, indo na contramão das outras igrejas cristãs”, critica Rosado.

Mas o Papa continua inflexível no tocante aos valores morais e a muitas outras questões. Debilitado, João Paulo II resiste à idéia de renunciar e promete levar seu pontificado até o fim da vida, o que, mesmo considerando seu estado de saúde, pode levar alguns anos. De qualquer forma, deixará a seu sucessor alguns desafios como a própria expansão do catolicismo, que apenas acompanhou o ritmo de crescimento da população mundial, perdendo terreno na Europa, um ponto vital. Terá ainda de manter e expandir o diálogo com outras religiões, testando se as estruturas fundadas por Wojtyla são sólidas.

Papa brasileiro?
A saúde debilitada de João Paulo II traz à tona o debate sobre sua sucessão. Já foi cogitada a possibilidade de que ele deixasse o pontificado antes de sua morte, contrariando a tradição, mas o Papa negou essa hipótese, dizendo que deixará a cargo de Deus o término de sua missão. Mesmo assim, as especulações já começaram e um brasileiro é apontado por especialistas como possível sucessor de Pedro.
O Cardeal-arcebispo de São Paulo Dom Cláudio Hummes aparece como a opção de perfil mais parecido com o do atual pontífice: é conservador quanto às questões internas da Igreja, mas tem preocupação com a justiça social, manifestando apoio a movimentos como o MST. Segundo John Allen, Hummes é visto como um unificador, por estar servindo de mediador entre as tendências da Igreja brasileira, podendo desempenhar papel semelhante no Vaticano.

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