Opção pelo atraso

O investimento em educação no Brasil voltado para a elite, além de promover uma enorme exclusão social, atrasa o desenvolvimento do país Por Glauco Faria   Que...

177 0

O investimento em educação no Brasil voltado para a elite, além de promover uma enorme exclusão social, atrasa o desenvolvimento do país

Por Glauco Faria

 

Que nenhum país cresce sem investir em educação é uma tese de difícil contestação, seja em debate acadêmico, ou numa discussão de mesa de bar. No entanto, os diferentes graus de aplicação de recursos e, principalmente, a forma como se dá o aproveitamento desse dinheiro é que pode determinar o quanto ele irá afetar o desenvolvimento de um país.

Há casos clássicos em que a relação entre o foco na política educacional e o desenvolvimento socioeconômico fica bastante evidente. Um dos exemplos sempre lembrados é o da Coréia do Sul, que saiu da guerra em 1953 com índices de analfabetismo na casa dos 60% e com a infra-estrutura em frangalhos. Além disso, a maior parte do setor industrial se concentrava na Coréia do Norte. Em vez de utilizar recursos para grandes obras, o governo sul-coreano optou por direcionar esforços na massificação do ensino básico e, em uma segunda etapa, no ensino médio.

Isso representou, a médio prazo, o começo da recuperação econômica local. “No início, ele atraía investimentos por causa da mão-de-obra barata, mas percebeu-se que era necessário investir em educação para formar um exército de profissionais qualificados, o que era uma vantagem muito mais sólida sobre outros países em desenvolvimento”, esclarece a professora do Departamento de Ciência Política da USP, Elizabeth Balbachevsky.

Outros países, como Taiwan, Malásia e Índia, tomaram medidas em maior ou menor grau semelhantes em um primeiro momento. De certa forma, mesmo o Brasil fez um certo esforço nesse sentido, com uma diferença fundamental: priorizou apenas a formação de uma elite no ensino superior. “Os recursos que o país gasta por aluno em educação superior é 14 vezes maior do que o investimento feito em um estudante do ensino primário, o que é uma diferença muito grande quando comparada a seus vizinhos, como o Chile (4 vezes), Argentina (3,8 vezes) ou Uruguai (2 vezes).”, explica Albert Motivans, consultor da Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) para a área de Educação.

Motivans foi um dos coordenadores de uma pesquisa realizada pela instituição em conjunto com a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE) em 2003, que analisou a relação entre o investimento feito nas áreas de ensino médio e superior e o crescimento econômico dos países. Foram analisados 16 países emergentes e chegou-se à conclusão de que nas duas últimas décadas os investimentos em capital humano podem ter contribuído com 0,5% para a taxa de crescimento anual desses países, entre eles o Brasil.

A pesquisa foi publicada com o título Financing Education – Investments and Returns (Financiando a Educação – Investimentos e Resultados). Uma outra de suas conclusões aponta que o acesso à educação secundária e terciária nos países estudados ainda está longe dos números alcançados pelos mais ricos. Em 1960, os adultos desses países tinham cursado em média 3,4 anos de estudo. Em 2000, essa média só chegava a 7,6 anos, índice inferior em três anos ao dos Estados membros da OCDE, cujo índice é de 10,2 anos. Para alcançar esse nível, alguns países precisarão de 30 anos, se a evolução continuar nesse ritmo.

Para poucos Há outro dado que deixa evidente a opção feita pelo Brasil em prol da elitização. Comparando-se com outros, o país investe pouco não só em relação ao ensino fundamental, mas também em relação ao ensino médio. “O Brasil investe menos por estudante secundário (US$ 1.100 per capita) do que outros países latino-americanos estudados, à exceção do Peru (US$ 579). Na Argentina, a quantidade gasta representa mais de duas vezes o índice brasileiro (US$ 2.327)”, aponta Motivans. Na Coréia, entre a população de 25 a 34 anos, 98% concluíram o ensino médio; entre as pessoas de 45 a 54 anos esse índice chega a 49%. No Brasil, esses porcentuais são, respectivamente, de 31% e 23%.

Essa distorção reflete-se no acesso à universidade. Embora o número de estudantes no ensino superior brasileiro possa alcançar de 6 a 7 milhões até o fim da década, representando aproximadamente 30% da população entre 18 e 24 anos, só uma pequena parte consegue chegar a um ensino realmente qualificado e uma parcela menor ainda alcança a pós-graduação. E essa seleção privilegia os alunos das classes altas, justamente pelo pouco investimento de dinheiro público direcionado ao ensino médio, o que afasta qualquer possibilidade de evolução social para milhões de jovens.

“Temos hoje 3 milhões de estudantes de ensino superior no Brasil. Vou dizer algo que pode escandalizar: a maior parte disso é esforço jogado fora”, provoca o professor da Unicamp, Reginaldo de Moraes. “Não estou falando apenas da qualidade do ensino oferecido, das competências adquiridas pelos estudantes que as escolas formam ou deformam. No Estado de São Paulo, há perto de 800 mil estudantes de ensino superior, sendo que, anualmente, são mais de cem mil desistentes”, calcula.

Para complicar, na avaliação de Moraes, as escolas viraram hotéis de curta permanência. “A cada doze ou quinze meses, perto de 40% dos ingressantes abandonam a área de atuação. Jogaram fora muito dinheiro, muito esforço e, principalmente, muita esperança e auto-estima”, avalia. Para ele, isso representa a falta de qualidade da maior parte do ensino superior brasileiro.

A receita do pesquisador está na expansão do sistema público de ensino superior, diversificando-o, para não ficar preso a um modelo único de universidade. “É preciso também recolocar os termos do ensino superior privado, estimulando o surgimento de instituições sem fins lucrativos, transparentes e abertas ao controle público”, defende.

A elite da elite Uma educação terciária deficiente no setor privado e com poucas vagas na universidade pública. Esse quadro foi formado por uma estratégia adotada pelo Brasil desde os anos 50, que criou uma pequena elite com alto grau de competência, especialmente no que diz respeito à pós-graduação. “O país criou um sistema de pós-graduação muito competente, com diversas universidades públicas com qualidade comparável às melhores do mundo”, garante Elizabeth Balbachevsky.

Os outros países da América Latina não conseguiram produzir uma pós-graduação tão eficiente quanto a nossa, e o que faz a diferença é de novo a questão do acesso.

Preferiram ampliar ao máximo as vagas no ensino superior, em vez de se concentrarem em um ensino de elite. “A Universidade do México, por exemplo, tem um aluno de pós-graduação para quinze de graduação”, conta Balbachevsky. “No Brasil, há unidades da USP, por exemplo, onde essa proporção chega a 1 por 1. Esses países fizeram o caminho inverso, investiram primeiro na massificação do ensino básico, médio e superior e só a partir da década de 90 voltaram a atenção para a pós”, explica.

Embora o sistema brasileiro seja distorcido, é óbvio que existem avanços e que os investimentos feitos em educação contribuíram e muito para o desenvolvimento eco­nômico brasileiro. “Não podemos desfazer o que foi feito até agora, seria andar para trás”, adverte Balbachevsky. O cami­nho seria olhar para outros graus do ensino.

“Mais do que discutir prioridade no nível médio ou no superior, é preciso definir prioridade no interior de cada um desses níveis”, opina Reginaldo de Moraes. “E combinar prioridade com diversidade, não confundir prioridade com monotonia. As carências de ensino elementar e médio são muito grandes, escandalosas para não merecerem muita atenção. Sem corrigi-las, não temos como sustentar qualquer projeto de desenvolvimento. Mas, descuidando do ensino superior, também não teremos esse desenvolvimento”. Um problema de difícil equação.



No artigo

x