Os desígnios que não estão no Alcorão

Pobres e marcados por regimes autoritários, os países muçulmanos têm seus destinos traçados pelo interesse de grandes potências e transnacionais em seu petróleo. Atrasados economicamente, só representam ameaça a seus cidadãos Por Anselmo Massad  ...

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Pobres e marcados por regimes autoritários, os países muçulmanos têm seus destinos traçados pelo interesse de grandes potências e transnacionais em seu petróleo. Atrasados economicamente, só representam ameaça a seus cidadãos

Por Anselmo Massad

 

Turquia, Egito, Jordânia, Catar, Oman, Bahrein, Arábia Saudita, Kuwait são do eixo do bem. Hospedam bases militares norte-americanas. Líbia, Síria, Iêmen, Emirados Árabes, Sudão são do mal. Não aceitaram essa condição. Só para constar, todos, sem exceção, têm regimes autoritários. O que de certa forma deixa claro os critérios para avaliar quais representam o bem e o mal na lógica da “Pax Universal” norte-americana.

“A maioria dos países islâmicos hoje é empobrecida demais, tirânica e deploravelmente inapta militar e cientificamente para representar ameaça a qualquer um, exceto a seus cidadãos”, adverte Edward Said, escritor palestino, professor da Universidade de Columbia nos EUA. “E não se pode esquecer ainda que os mais poderosos deles – Egito, Arábia Saudita, Jordânia, Paquistão – estão totalmente dentro da órbita dos EUA”, complementa.

Com certeza, o critério norte-americano não está no tipo de governo. “Falta de democracia não tem a ver com o apoio dos EUA”, garante Samir Karam, diretor de estudos do Centre for Arab Unity Studies, sediado no Líbano. “Há inúmeros casos em que os EUA apoiaram regimes ditatoriais, não apenas política, mas também econômica e militarmente. Se é bom para a General Motors, é bom para os EUA, como se diz por lá”, brinca.

À exceção de Líbano,e talvez do Egito, todos os demais países apresentam regimes claramente ditatoriais. “O Líbano foge ao padrão por sofrer muita influência ocidental, já que há muito tempo universidades francesas, inglesas e norte-americanas estão presentes no país”, sustenta Reginaldo Nasser, professor de relações internacionais da PUC-SP. Líbia e Síria são governados por ditadura militar. Arábia Saudita, Iêmen, Catar, Kuwait, Jordânia e Bahrein vivem sob monarquias absolutas. O Irã, cuja etnia predominante não é árabe, pode ser enquadrado como um Estado teocrático. Alguns países como Catar, Bahrein, Oman e Jordânia até tomaram medidas no sentido da democratização – acabando com as perseguições políticas, anistiando exilados e até convocando eleições parlamentares -, mas nenhum deles conseguiu atingir um grau suficiente para ser exemplo aos demais. “O Catar, por exemplo, provou ser uma democracia apenas na mídia e, mesmo aí, somente para o canal de TV Al-Jazera”, lamenta Samir Karam. “Para piorar, esses sinais podem ser vistos como uma espécie de presente. Foram dados pelos monarcas e podem ser tomados da mesma forma como foram oferecidos.”

Nasser resgata os resultados de uma pesquisa de opinião realizada pelo instituto de pesquisa norte-americano Zogby (de outubro de 2002) em países árabes para saber quais eram suas prioridades. A questão palestina e o fim da exploração econômica dos povos pelas oligarquias norte-americanas encabeçaram a lista, antes da expectativa de democracia.

Igreja e Estado

Para muitos pensadores isso ocorre por conta da inexistência do secularismo ocidental (aquele que separa Igreja e Estado e faz os franceses cogitarem a proibição de véus utilizados por muçulmanos em escolas e estabelecimentos estatais), que levaria a regimes mais autoritários. “Atualmente, o pensamento islâmico tende a ir contra a separação entre religião e Estado, mas isso é passageiro. É preciso esperar para ver como as questões se desenvolverão em um par de décadas”, avalia Samir Karam.

Najla Kamel, professora de Letras da FFLCH-USP, autora de tese de mestrado que analisa psicologicamente os seguidores do Islã, atesta que o islamismo trata de questões de comportamento, políticas e econômicas. “Maomé é uma figura dupla, profeta e político. Como profeta formou os preceitos da religião e, como político, uniu o povo árabe sob um governo único, dirigido pela religião”, explica ela, que é muçulmana nascida no Brasil – do lado moderado da família, destaca. “Assim, as várias possibilidades de interpretação do Corão, representadas nas divisões religiosas, invariavelmente acabam dentro dos partidos políticos, o que não quer dizer que o islamismo seja incompatível com a democracia”, opina.

“A explicação para essa instabilidade não é religiosa, mas política e econômica”, reforça Nasser . Ele crê que o padrão de democracia ocidental já estabelecido não é adequado para a região, sendo necessário adaptar o sistema. “A estratégia de focar na necessidade de eleições é errada, porque o problema é mais grave e não se resolve com a mágica da eleição”, garante.

Paulo-Edgar Almeida Resende, coordenador do Núcleo de Análise de Conjuntura Internacional da PUC-SP concorda. “Coloco em suspensão pressupostos de uma democratização, se formulados nos moldes de estratégias geopolítica e econômica de dirigentes norte-americanos e ingleses, sedentos por petróleo”, observa.

Resende prefere explicar a característica autoritária desses países por duas tendências políticas, o nacionalismo árabe e o pan-islamismo. “Projetos e discursos calcados no nacionalismo árabe estão embebidos dos interesses petrolíferos do mundo desenvolvido e de principados retrógrados. É daí que vem o autoritarismo e a intolerância no mundo árabe, em que os movimentos islâmicos foram mantidos fora do poder pela repressão e nunca tiveram a oportunidade de se legitimar ou permaneceram em posições secundárias”, salienta. Assim era o caso do Irã no regime do Xá da Pérsia, Reza Pahlevi, do Iraque de Saddam (onde as autoflagelações assistidas hoje eram punidas com dois anos de cadeia), Egito e Jordânia, entre outros.

O pólo oposto ao nacionalismo árabe é o pan-islamismo que, em suas várias expressões – sujeitas algumas delas a exacerbações que vão até a vertente terrorista – carrega o componente anticolonial como seu princípio articulador. “A questão palestina, por exemplo, é indissociável desse pan-islamismo. Ao evitar tal articulação, o atual plano de paz internacional, que acaba de ser entregue aos primeiros-ministros Ariel Sharon, de Israel, e Mahmoud Abbas, da Autoridade Palestina, tem problemas para se tornar viável”, alerta Resende.

Ele lembra que pouco se formulou sobre a experiência do pan-islamismo no poder. “Minha hipótese é que tais regimes podem corresponder mais diretamente às expectativas populares que os secularizantes nacionalistas. É de notar que a maioria dos muçulmanos pede mudanças de regime no Oriente Médio há décadas. Eleições livres de fato – o que dificilmente os norte-americanos vão permitir ou incentivar – significarão também o fim da perseguição religiosa, dando condições para partidos ligados a extremistas islâmicos chegar ao poder nos vários países do Oriente Médio”, aposta. Isso não ocorreria por serem portadores de um programa democrático mais amplo, mas pelo fato de que, com liberdade de manifestação, o discurso antiamericano e antiinglês nas campanhas eleitorais será decisivo.

Fundamentalistas

Nasser sustenta que a radicalização do islamismo é recente, data da década de 1980. “Até então, os atentados terroristas comandados por árabes em nada diferiam dos promovidos por marxistas europeus, e na OLP muitos eram marxistas”, revela. “Some- se a isso a ação israelense, que durante a década de 80, especialmente no Líbano, foi muito dura. Diante de uma assimetria de poder, a alternativa de luta – condenável na minha opinião, mas que se explica a partir da realidade – é a radicalização, o terrorismo, a guerrilha”, ressalta.

O fundamentalismo começou com a revolução xiita do aiatolá Ruhollah Khomeini, no Irã, em 1979, cujo alcance vai muito além das fronteiras do país. Havia uma onda de resgate de valores tradicionais da religião em todo o mundo muçulmano contra a influência européia e norte-americana e o movimento impulsionou essa tendência. “No Irã, mais propriamente, poderíamos falar mais de rejeição à ocidentalização que de uma revolução islâmica, liderada por esquerdistas e comunistas ateus, agnósticos”, define Resende.

O Irã foi o segundo país a adotar o modelo ocidental no começo do século 20, depois da Turquia. “O Xá da Pérsia criou um Estado laico não dotando a lei religiosa do poder de coerção. Nesse contexto, Khomeini e seus adeptos foram expulsos”, descreve Geraldo Cavagnari, coordenador do núcleo de Estudos Estratégicos da Unicamp. Com o dinheiro do petróleo, formou- se no país uma forte classe média, sobre a qual os aiatolás tinham pouca força. “O regime caiu porque estava podre, atolado de corrupção, não pela eficiência dos religiosos, cujo principal impacto se dá sobre as classes mais baixas. Surgiram alguns líderes civis formados na Europa e EUA que, naturalmente, foram defenestrados após a tomada do poder pelos aiatolás”, conta.

Após mais de vinte anos, boa parte da rigidez se foi. As mulheres estão autorizadas a usar roupas ocidentais (desde que cubram o corpo – com calças e mangas compridas – e os cabelos ao sair de casa), além de poderem entrar no mercado de trabalho. Há também relativa liberdade de expressão, incluindo a possibilidade de inserção de elementos da cultura ocidental no país. “As liberalizações são uma concessão à classe média que, mesmo sufocada nesse período, não deixou de existir. Se puderem, retomam os valores ocidentalizantes”, acredita Cavagnari. No entanto, o conselho de aiatolás ainda mantém seu poder acima até do Estado, podendo reverter decisões governamentais, já que seus decretos têm mais valor que as leis.

Arábia Saudita

Excluídos os xiitas, o único grupo fundamentalista islâmico são os wahabistas – como Bin Laden e a maioria da população saudita (veja quadro). Bebidas alcoólicas são terminantemente proibidas e as mulheres têm raros direitos. “Na Arábia Saudita, mesmo os imigrantes têm de seguir a conduta rigorosa, o que não ocorre em outros países”, lembra Najla Kamel. “As mulheres estrangeiras também têm de se cobrir, não podem dirigir ou sair de casa sozinhas”, prossegue. As sauditas não ocupam cargos importantes e mal conseguem trabalhar e estudar”, acrescenta. Há ainda o fato de a metade das mulheres não ser alfabetizada.

Esse cenário (muito pior que no Irã) ocorre em um Estado laico, em que quem comanda a política são os monarcas (os Al- Saoud). “Há um acordo entre os monarcas e os líderes religiosos de não agressão desde o século 18. Um não atrapalha o outro”, explica Cavagnari. “Assim, quem agride os direitos humanos por lá é essencialmente a polícia religiosa. Os monarcas são voltados para o ocidente”, define.

Mas o poder dos príncipes sauditas, os grandes aliados dos EUA, está em crise. “O ressentimento popular em função das tropas americanas estarem aquarteladas bem próximas de Meca e Medina e dos locais islâmicos mais sagrados é crescente. O terrorismo de Osama bin Laden, em oposição aos milionários príncipes sauditas, encontra aí sua explicação”, analisa Resende. A relação com os norte-americanos piorou muito quando veio à tona que os principais financiadores da Al-Qaeda são sauditas, além de Bin Laden e 15 dos 19 terroristas a bordo dos aviões no 11 de setembro também terem a mesma nacionalidade.

A situação chegou a tal ponto, que a central de operações dos EUA na região foi transferida para o Catar dias após o fim da guerra com o Iraque. “No fundo, é uma vitória a ser contabilizada para a rede Al- Qaeda. Os EUA contam agora com os poços petrolíferos alternativos do Iraque, mas a presença de seus soldados lá é também tida popularmente como indesejável, o que promete mais instabilidades e sobressaltos”, aponta Resende.

Nasser adverte que, apesar disso, é cedo para avaliar as conseqüências para a Arábia Saudita. “Tirando o pesadelo Saddam Hussein, não é preciso manter bases em território saudita, o que não quer dizer que serão retiradas da região. Ao contrário, devem ser ampliadas em outros países, como Catar, Bahrein, Oman e Kuwait”, sustenta. Mas é difícil imaginar que os EUA se decidam por uma investida contra a Arábia Saudita. Além de não haver acusações formais de omissão ou suporte a grupos terroristas, há as cidades de Medina e Meca, as duas principais para os muçulmanos. Atacar o país seria levantar o mundo muçulmano contra eles.

De qualquer forma o estrategista Cavagnari assinala que o país de Saddam Hussein mostrava-se apenas o mais legítimo (e menos complicado) a ser atacado, por isso foi a bola-da-vez.

O próximo alvo
Na primeira posição da temerosa lista dos próximos alvos norte-americanos figura a Síria, acusada de fomentar o terrorismo. “Isso é claramente o dedo de Israel, que tem sérias divergências com a Síria em relação às Colinas de Golã, ocupadas na guerra de 1967 e anexadas em 1981, uma região de mananciais que abastece de água a região de Damasco”, lembra Cavagnari. “Nada disso se comprovou, além do que a Síria pode ter armas de destruição em massa se quiser. O Iraque não podia porque se rendeu incondicionalmente após a Guerra do Golfo, de modo que as condições foram estabelecidas pelo Conselho de Segurança da ONU: desarmamento até recuperar a confiança. Se Israel tem armas, porque a Síria não deve ter?”, questiona.

Politicamente, é uma ditadura, mas Samir Karam avalia que a Síria tem um sistema político próprio, que não pode ser compreendido num só pacote. “Em alguns aspectos é melhor que uma ditadura, pois tem uma frente nacional de partidos políticos com liberdade de imprensa e as críticas são ouvidas até em meios de comunicação estatais”, festeja. Karam ainda diz que há indicadores de que “o regime esteja se movendo para uma abertura maior”.

A resposta da Síria a Israel foi a proposta enviada para o Conselho de Segurança da ONU pedindo a limpeza da região de armas de destruição em massa. Todos gostam da idéia, menos Israel. E os EUA, é claro. Colin Powell, em recente visita à Síria, descartou a possibilidade de apoiar a proposta. “Sempre fomos favoráveis ao desarmamento da região, mas agora não é a hora”, disse o secretário de Estado norteamericano. Azar de Saddam Hussein, que não soube disso a tempo.

Xiitas e sunitas
Depois da morte de Maomé, houve uma séria e sangrenta disputa pelo poder entre os muçulmanos. A maioria – os sunitas – levam em conta as idéias do profeta assim como de seus quatro sucessores.

Já os xiitas só consideram, além do Corão, o quarto Califa, Ali, genro de Maomé, por acreditarem que o comando da religião deveria ser exercido por familiares do profeta.

Em ambas as correntes, há grupos mais moderados e mais radicais. Os xiitas, em geral, valorizam mais elementos menos familiares aos olhos do ocidente, o que lhes garantiu a fama de radicais e extremistas.

Além disso, são mais combativos politicamente, tornando-se ainda mais ameaçadores para interesses petrolíferos.

No entanto, na Arábia Saudita, dentro da tradição sunita, surgiu no século 18 o wahabismo, criado por Mohammad Ibn Abd al-Wahbab, que representa a maioria da população. E no qual Bin Laden se insere



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