Os guichês do destino

Por José Roberto Torero Enfim, depois de alguns séculos de atraso, eis que chega o dia do Juízo Final. Bilhões de pecadores andam por uma fila que caminha vagarosamente. Há de tudo por ali: brutos...

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Por José Roberto Torero

Enfim, depois de alguns séculos de atraso, eis que chega o dia do Juízo Final. Bilhões de pecadores andam por uma fila que caminha vagarosamente. Há de tudo por ali: brutos australopitecus e delicados travestis, loiras misses-américa e loiros guerreiros hunos, enormes jogadores de basquete e pequenos jóqueis.

Como a divisão é por ordem alfabética, formam-se alguns encontros inusitados. Groucho Marx conta piadas para Karl Marx, Mário de Andrade conversa sobre futebol com o Andrade (aquele do Flamengo), Rita e Bruce Lee batem um animado papo sobre budismo e o Luís Fernando Verissimo tenta convencer Lúcia Veríssimo a fazer um último pecadinho.
É então que um sujeito sessentão, de cabelos brancos e bochechas caídas, assobia para o magro barbudo que está à sua frente:
– Sim?
– Eu não conheço você?
O magricela coça sua barba e tenta fazer um esforço, olhando-o bem no fundo dos olhos:
– Sabe que sua cara também não me é estranha…?
– Já sei, você é o Bin!
– E você é o Bush!
– Quem diria, hein? Até que enfim nos encontramos!
– São os milagres da ordem alfabética.
– Eu sabia que nos encontraríamos um dia!
– Eu também. Nem que fosse no último dos dias!
– Será um prazer vê-lo descer ao inferno, Bin.
– Você é que vai para as profundezas, Bush.
– Nunquinha! Deus não faria essa maldade comigo. Eu só fiz o que ele queria: acabei com o seu amiguinho Saddam, matei um monte de infiéis e fiquei com todos aqueles poços do Irã.
– Iraque.
– Iraque, que seja, o importante é que eu derrotei o queixo do mal.
– Eixo do mal, seu estúpido! Eixo! E você não derrotou coisa nenhuma. Eu é que vinguei os explorados do mundo inteiro ao derrubar os símbolos do seu poder maligno.
– Do que você está falando?
– Das Torres Gêmeas.
– Ah, sim.
– E por conta disso jamais Alá me mandaria para o inferno. Eu fiz uma guerra santa.
– Santa? Você é um terrorista assassino!
– E você é um presidente assassino!
– Seu filhote de camelo!
– Seu nariz de batata!
– Você parece uma espiga podre!
– Esfiha, estúpido, esfiha. E você parece um sanduíche de repolho!
– Vá para o inferno!
– Vá você!
A troca de ofensas continuou por um bom tempo, incomodando todos os outros pecadores (que, aliás, já estavam bastante tensos sobre se iriam para o Céu ou não).
Foi aí que chegou a vez de os dois serem atendidos.
Porém, para suas surpresas, aquela fila era tal qual a dos bancos. Ou seja, uma fila única, mas com vários guichês. E em cada guichê havia um deus diferente. Num era Vishnu, noutro estava Oxóssi, num terceiro ficava Zeus, num quarto, Tupã, e assim por diante. Por ironia do destino, Bush foi mandado para Alá e Bin para o Deus cristão.
– Deve haver algum erro aqui. Eu não posso ser julgado pelo deus dos árabes.
– O mesmo digo eu. É claro que esse deus cristão vai me condenar ao fogo eterno.
Nessa hora apareceu o anjo Gabriel, uma espécie de assessor de imprensa do céu. Depois de ouvir por um tempo a queixa de cada um, ele tratou de explicar o que tinha acontecido:
– Vejam bem, no começo nós estávamos tendo problemas com a demora da fila. Então Deus, que é um só, dividiu-se em vários outros, assumindo os muitos nomes que os seres humanos lhe dão. Uma solução divina!
– E teremos que aceitar a decisão desses juízes?
– Não podemos reclamar a uma instância superior?
O anjo Gabriel ergueu os ombros e deu a entender que não havia nada a ser feito. Nessa hora, os dois líderes trocaram um olhar de ódio, puseram as mãos nas suas cinturas e cuspiram para o lado:
– Você vai queimar no inferno, Bush.
– Estarei te esperando, Bin.

 



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