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Dicas culturais Por Julinho Bittencourt   O cineasta Walter Salles Jr. e sua parceira no filme O Primeiro Dia, Daniela Thomas, descobriram, durante uma filmagem no morro...

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Dicas culturais

Por Julinho Bittencourt

 

O cineasta Walter Salles Jr. e sua parceira no filme O Primeiro Dia, Daniela Thomas, descobriram, durante uma filmagem no morro do Cantagalo, no Rio de Janeiro, o cantor, compositor e percussionista Adão Daxãlebaradã.

Conduzido por eles e com produção de Antônio Pinto, o cantor acaba de lançar o CD Escolástica. Com arranjos simples, enxutos, cheios de ritmo e frases certeiras, o disco é pólvora pura, e mostra um talento curioso e único.

Adão é Pedra bruta, forjada num tempo e lugar aparentemente fora de qualquer outro viável e visível. Sua música é direta, cortante e surpreendentemente ingênua. Desfia seus versos com vigor e sem papas na língua. É pop, moderno, antenado nos sons contemporâneos e especialmente na música negra.

Segundo seus descobridores, Adão tem mais de 500 composições. O CD Escolástica, ao que tudo indica, é só o começo de uma grande história. Que Daxãlebaradã a conte com todas as suas letras e sons.

 

Já lá embaixo, no asfalto, quem manda brasa no lindo disco Samba pras Crianças, do selo Biscoitinho, é a garotada da ONG de Santa Tereza “Toca o Bonde-Usina de Gente”, em que o pianista Leandro Braga ensina música.

Com a missão de fornecer música honesta aos nossos pequenos, o Biscoitinho é inaugurado com este fino e emocionado brioche para as massas, idealizado e produzido pela prata da casa Zé Renato. O repertório, composto em sua maioria por sambas tradicionais, é maravilhoso, com belo elenco de intérpretes, além dos miúdos iniciantes.

Lá estão cantando o próprio Zé Renato, Dona Yvone Lara, Ney Lopes, Ney Matogrosso, Mart’nália, Mariana de Moraes, Dudu Nobre, Pedro Miranda, Lucinha Lins e Moska. O resultado, amparado pelo excelente grupo regido por Leandro, é um festival de bom gosto, alegria e ternura. Coisa boa de se ouvir e guardar pros próximos. Infância que não acaba nunca.

Agora o que parece ter acabado mesmo é aquela tal malandragem, dos grandes salões de sinuca do centro da capital paulista. Personagens lendários, como Rui Chapéu, Carne Frita, Praça e tantos outros que lá pelo início da década de 70 pagavam seus ternos de linho e charutos cubanos com finas tacadas sobre o pano verde, sumiram quase que de vez do cenário.

Porém, a memória deles e seu tempo e espaço são resgatados no livro Pela Sete, de Carlos Bittencourt Ferreira, publicitário e também jogador aposentado. Carlão, conhecido no meio como Jesus, varou noites e noites jogando e assistindo partidas e trapaças, que relata com todo o sabor e linguagem correntes.

O livro chega ao requinte de trazer um glossário muito divertido de expressões. Nas palavras se confundem as mumunhas e a própria luta pela sobrevivência. A linguagem é a picardia, feita na temperatura certa para cozinhar o pato que, invariavelmente, se antecipava ao jogo em si, tudo construído e reproduzido à imagem e semelhança no belo texto de Pela Sete.

 

E por falar na Sampa de antanho, Germano Mathias, nascido na Barra Funda, vivido por toda a parte e o último dos grandes boêmios paulistanos, está de disco novo, batizado sem nenhuma falsa modéstia de Talento de Bamba.

Por intermédio de Germano e seu disco entramos na São Paulo daqueles tempos, nas tramas de sobrevivência de sua gente e de seu bom humor. Até a forma do canto, o famoso sincopado, muito mais apressado e curto que o de qualquer outro lugar, nos mostra as avenidas e ruas e a pressa de viver e morar da cidade. Entrecortado de semitons que finalizam rapidamente linhas melódicas longas, seguimos nosso passeio apressado junto a Germano. E ele pronuncia todas as palavras exemplarmente, com muita afinação e equilíbrio. Seu discurso é de pedra e aço, do calor de todas as gentes de todos os lados.

Sabe que é um sobrevivente. Através dele resiste um tempo e um som que seguem de volta ao futuro cada vez que ele canta. Na irônica Ela, o compositor Elzo Augusto, autor de todos os sambas do disco, depois de algumas safenas, sai com essa: “Ela pode me chamar, não respondo… Ela vem pra me buscar, eu me escondo… Não vou, não vou não. Ela sabe que eu não quero levar esse lero com o Pedrão. Agora não… Já que esse tour não anima vou mandar o Lima pro meu funeral”. Pode acreditar, está no disco.

 

E é essa mesma Sampa que aparece na primorosa “Coleção São Paulo”, organizada pela historiadora Paula Porta. São seis livros, alguns clássicos e outros inéditos, que têm como objetivo conhecer, discutir e vivenciar a trajetória histórica da cidade que completa 450 anos em janeiro de 2004.

Originalmente lançada em 1954, durante as comemorações do quarto centenário, a reunião de crônicas São Paulo de Meus Amores, de Afonso Schimdt, abre a coleção. Já Ronda da Meia-Noite: Vícios, Misérias e Esplendores da Cidade de São Paulo, de Sylvio Floreal, desce de forma contundente ao mundo daqueles que ficaram à margem da urbanização e crescimento desenfreado da cidade, durante as décadas de 1920 e 1930.

No terceiro livro da coleção foram reunidas as obras São Paulo nos Primeiros Anos e São Paulo no Século XVI, de Afonso D’escragnolle Taunay, considerado o principal historiador da cidade. Publicado no começo do século passado, em forma de crônicas no Diário Popular, o quarto livro, São Paulo Antigo, de Antônio Egydio Martins, é fonte privilegiada para se conhecer o cotidiano da cidade, personagens, festas, costumes, governantes, etc.

Completam a coleção duas obras atuais. A Gripe Espanhola em São Paulo, 1918: Epidemia e Sociedade, de Cláudio Bertolli Filho, especialista em história e ciências sociais aplicadas à saúde e Casamento e Família em São Paulo: Caminhos e Descaminhos, de Alzira Lobo, especialista em história social e das mentalidades.
A coleção é imprescindível para se compreender a trajetória, tanto da cidade de São Paulo, quanto do Brasil.

 

Quem está exultante com o que se passa no país é o maestro e compositor Francis Hime. Ele acaba de lançar o disco Brasil Lua Cheia, pelo selo independente Biscoito Fino, cuja esposa, Olívia Hime, é produtora artística. É ele quem conta:
Você está com 64 anos e acaba de fazer Brasil Lua Cheia, um dos melhores discos de sua carreira, inquieto e cheio de vigor. De onde vem essa energia?

Esse disco é inspirado no momento de esperança que o Brasil vive hoje e foi fruto de um trabalho que começou quando fiz o meu songbook com o Almir Chediak. Na época, fiz um levantamento de tudo o que tinha. Músicas inacabadas, esboços. Retomei as coisas e comecei a compor muito. No início desse ano, eu tinha uma centena de músicas que poderiam ir pro disco.

Há uma letra do Vinícius inédita no Lua Cheia. Como é a história?

É curiosa a história de Meu Coração. O Vinícius fez a letra pra uma outra música minha que era épica, e a letra é muita intimista. Não casava. Então alguém sugeriu e eu recentemente refiz a melodia. E aí deu certo. Espero que o Vinícius não puxe o meu pé (risos).

E esse trabalho de vocês na Biscoito Fino, de resistência, não é muito difícil no mercado atual?

Acho que há muita música boa e muito público que gosta. O problema é que não chega. O Diogo Pacheco é quem diz que toca sinfonias em concertos abertos e vê um público maravilhado ouvindo. Se faz muita música boa e tem público. O mais importante é que se continue criando.

julinhobittencourt@zipmail.com.br



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